quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Preguiça
Uma deplorável mania que certos escritores preguiçosos têm é passar tarefas que são exclusivamente deles a personagens. Isso redunda em diálogos mais ou menos como este. Personagem A: "Você encontrou aquela mulher de olhos castanhos, a Laura, aquela casada com o embaixador?" Personagem B: "Aquela que, quando você era adolescente, dançou uma noite na casa dos Soares e disse que conhecia uma história escabrosa da família?"
Marcadores:
Literatura
Versos pobres
Dizer-te como és bem-vinda
E como o meu coração,
Alheio à voz da razão,
Por ti bate forte, ainda.
Chamar-te de novo linda,
Pegar-te outra vez a mão
E jurar-te que, em mim, não
Diminui o amor nem finda.
Nestes versos simples, pobres,
Quero ver se tu descobres
O que eu te quero dizer:
É que tudo em minha vida
Rima contigo, querida,
E há de assim permanecer.
E como o meu coração,
Alheio à voz da razão,
Por ti bate forte, ainda.
Chamar-te de novo linda,
Pegar-te outra vez a mão
E jurar-te que, em mim, não
Diminui o amor nem finda.
Nestes versos simples, pobres,
Quero ver se tu descobres
O que eu te quero dizer:
É que tudo em minha vida
Rima contigo, querida,
E há de assim permanecer.
Marcadores:
Literatura
Simples assim
Uma das tentações das quais se deve fugir em literatura é a de querer que tudo soe literariamente. A melhor maneira de dizer que um homem atravessou a rua é: um homem atravessou a rua.
Marcadores:
Literatura
Tudo
Meus olhos já não te veem
Há tanto tempo que eu penso
E às vezes até repenso
Que cor os teus olhos têm.
E nesse pensar me intrigo,
E não sei se teus cabelos
(Ah, quanto tempo sem vê-los)
São mesmo da cor do trigo.
Que eu possa um dia rever-te
E novamente dizer-te,
Eu, que tenho estado mudo,
Que apesar da longa ausência
Foste sempre a minha essência,
Minha vida, meu ser, tudo.
Há tanto tempo que eu penso
E às vezes até repenso
Que cor os teus olhos têm.
E nesse pensar me intrigo,
E não sei se teus cabelos
(Ah, quanto tempo sem vê-los)
São mesmo da cor do trigo.
Que eu possa um dia rever-te
E novamente dizer-te,
Eu, que tenho estado mudo,
Que apesar da longa ausência
Foste sempre a minha essência,
Minha vida, meu ser, tudo.
Marcadores:
Literatura
Réu
Se amar sem ser retribuído
É crime considerado,
Sou réu fichado e detido
E me confesso culpado.
É crime considerado,
Sou réu fichado e detido
E me confesso culpado.
Marcadores:
Literatura
Atroz acróstico
Sim, confesso, eu já cometi um acróstico, aquela abominável composição poética (!!!) em que as letras iniciais de cada verso formam um nome (geralmente de mulher). Seria mais fácil admitir que, quando menino, incentivado por minhas irmãs, cheguei a fazer bordados. Havia em meu bairro uma garota chamada Irene que me fez descobrir que em determinadas situações, às quais ela sempre estava presente, meu coração desandava a comportar-se como aquele almirante louco de que fala Fernando Pessoa. Uma tarde, com o coração assim desgovernado e um tratado de versificação, burilei (a palavra era essa) um acróstico que, lido em voz alta, me pareceu a chave certa para conquistar Irene. Tinha julgado essa etapa a mais difícil, mas logo percebi que entregar a chave é que era a grande questão. Sem coragem para ir eu mesmo, encarreguei disso um amigo e, delegada assim a incumbência, fiquei a esperar, antegozando a vitória. Devo dizer que fui paciente. Até hoje, depois de tantas décadas, não recebi a resposta. Para não afetar minha autoestima como poeta, atribuí o fracasso à incúria do meu amigo no desempenho de sua missão de carteiro e o execrei mentalmente por isso. Hoje penso que, se ele rasgou o papel com a caprichada letra e cada uma das iniciais de Irene desenhada com lápis de cores diversas, terá feito o certo. Mesmo assim, de vez em quando tenho pesadelos em que me levam a um tribunal e sacudindo a folha em meu rosto arrasado pela vergonha me perguntam: "Este acróstico é seu?" Ter escrito um acróstico é pior que admitir a existência de um vampiro na família.
Marcadores:
Literatura
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Borges
Costuma-se indicar, aos jovens interessados em uma iniciação literária, que leiam os mestres. Pensei nisso hoje, ao fazer mais uma leitura de O Aleph, de Jorge Luis Borges. Depois de terminá-la, a devastadora pergunta que me fiz foi se eu me achava capaz de escrever algo ao menos parecido com aquilo. E esse adjetivo, "parecido", soou como uma condenação daquilo que eu devia ter descoberto na primeira vez em que li O Aleph: minha presunção. Borges e mais uns trinta ou quarenta escritores - não mais - na literatura universal de todos os tempos não podem ser tomados como modelo. A simples menção ao nome - Jorge Luis Borges - é um daqueles casos em que os lábios de quem o pronunciasse deveriam transformar-se no horror dos horrores, num ninho de serpentes, em algo que desencorajasse em todos os mortais a ousadia da repetição. O nome Borges não há de ser pronunciado em vão, e indicá-lo a um jovem como exemplo será condená-lo ao fracasso, se bem que pertença à natureza do homem esse impulso insano de imitar os deuses e - jactância das jactâncias - superá-los. Recorrendo a uma metáfora simples: Borges é outro departamento.
Marcadores:
Literatura
Soneto do perdão
Quando se fala em perdão,
Eu, amor, de minha parte,
Sei com certeza que não
Devo jamais censurar-te.
E crédito devo dar-te
Por tua compreensão
E apenas apresentar-te
Uma tênue restrição.
Por mais que nos fustiguemos
E por muito que briguemos
Sempre voltamos às boas.
Pois, se admito minhas culpas,
Tu sempre, amor, me desculpas,
Mas nem sempre me perdoas.
Eu, amor, de minha parte,
Sei com certeza que não
Devo jamais censurar-te.
E crédito devo dar-te
Por tua compreensão
E apenas apresentar-te
Uma tênue restrição.
Por mais que nos fustiguemos
E por muito que briguemos
Sempre voltamos às boas.
Pois, se admito minhas culpas,
Tu sempre, amor, me desculpas,
Mas nem sempre me perdoas.
Marcadores:
Literatura
Aquilo que o amor é
Quem do amor louva a alegria
Que esteja pronto também
Para depois, mal ou bem,
Deplorar sua agonia.
O amor é assim. Nunca tem
Uma só fisionomia.
Muda e, de acordo com o dia,
Chega terno ou brusco vem.
Se a mim ele trouxe o pranto,
Já outro foi teu destino.
Foi assim, não foi? Enquanto
Tu ris como uma demente,
Eu, tolo como um menino,
Choro inconsolavelmente.
Que esteja pronto também
Para depois, mal ou bem,
Deplorar sua agonia.
O amor é assim. Nunca tem
Uma só fisionomia.
Muda e, de acordo com o dia,
Chega terno ou brusco vem.
Se a mim ele trouxe o pranto,
Já outro foi teu destino.
Foi assim, não foi? Enquanto
Tu ris como uma demente,
Eu, tolo como um menino,
Choro inconsolavelmente.
Marcadores:
Literatura
Assinar:
Postagens (Atom)
