"O SONHO DE BERTA
Soltando o cabelo de ouro
Ao deitar-se, ondeante e farto,
Viu Berta entrar-lhe no quarto
Um besouro.
"Já agora" - exclamara ela -
"Não me levanto, é capricho,
Para mostrar a este bicho
A janela;
Nem da toalha um açoite
farei contra este besouro...
E sem mais, senhor agouro,
Boa noite!"
Despiu-se. Cândida e lisa,
Quente ainda de sua pele
Tirou, mesmo diante dele,
A camisa.
Deitou-se. É um mimo de Berta
O corpo, que a vista inflama,
Assim como está na cama
Descoberta.
Cerra os olhos. Entretanto
O besouro, tonto, inquieto,
Zumbe da alcova no teto,
Zumbe a um canto,
Ao pé do espelho inclinado
Zumbe, zumbe na parede,
E de Berta agora - vede! -
Zumbe ao lado.
Ai dela! rente ao cabelo
Sente-lhe as asas... que inferno!
Quem a livra desse eterno
Pesadelo?
Ai dela! - Noite sombria,
As tardas horas apressa!
A luz da aurora apareça!
Venha o dia!
Sobre o leito, em que deitada
Está, volta-se ofegante
Berta insone, a cada instante,
De assustada.
Pobre Berta! enfim sucumbe,
Desmaia... Entretanto, às voltas,
O besouro de asas soltas
Zumbe, zumbe..."
(Do livro Poesia de Alberto de Oliveira, coleção Nossos Clássicos, da Livraria Agir Editora.)
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Soneto da identidade
Quando a ti eu me amarrava
E teu chicote pedia,
Minha alma me censurava
E honra de mim exigia.
Livre hoje do teu feitiço
E dono da própria sorte,
Minha vida agora é isso,
E isso é bem pior do que a morte.
Como eu hoje me arrependo
De não estar mais me doendo
Tudo aquilo que me doeu
E me culpo porque agora
Quem sofre por ti e chora
Não sou eu, ah, não sou eu.
E teu chicote pedia,
Minha alma me censurava
E honra de mim exigia.
Livre hoje do teu feitiço
E dono da própria sorte,
Minha vida agora é isso,
E isso é bem pior do que a morte.
Como eu hoje me arrependo
De não estar mais me doendo
Tudo aquilo que me doeu
E me culpo porque agora
Quem sofre por ti e chora
Não sou eu, ah, não sou eu.
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Menos
Já devias saber
que o amor pode te dar
aflição agonia
rimas pobres
desilusão melancolia
mas nunca te dará
ainda que venhas a implorar
o dom da poesia.
que o amor pode te dar
aflição agonia
rimas pobres
desilusão melancolia
mas nunca te dará
ainda que venhas a implorar
o dom da poesia.
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O poeta em sua torre
Mesmo que viessem a ti
Os berros do matadouro,
Continuarias aí,
Pensando em chaves de ouro.
Os berros do matadouro,
Continuarias aí,
Pensando em chaves de ouro.
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Um soneto de Mário de Andrade
"Tanta lágrima hei já, Senhora minha,
Derramado dos olhos sofredores,
Que se foram com elas meus ardores
E a ânsia de amar que de teus dons me vinha.
Todo o pranto chorei. Tudo o que tinha
Caiu-me ao peito cheio de esplendores,
E em vez de aí formar terras melhores,
Tornou minha alma sáfara e maninha.
E foi tal o chorar por mim vertido,
E tais as dores, tantas as tristezas,
Que me arrancou do peito vossa graça,
Que de muito perder, tudo hei perdido;
Não vejo mais surpresa nas surpresas
E nem sofrer sei mais, por mor desgraça."
(Do livro Poesia de Mário de Andrade, coleção Nossos Clássicos, da Livraria Agir Editora.)
Derramado dos olhos sofredores,
Que se foram com elas meus ardores
E a ânsia de amar que de teus dons me vinha.
Todo o pranto chorei. Tudo o que tinha
Caiu-me ao peito cheio de esplendores,
E em vez de aí formar terras melhores,
Tornou minha alma sáfara e maninha.
E foi tal o chorar por mim vertido,
E tais as dores, tantas as tristezas,
Que me arrancou do peito vossa graça,
Que de muito perder, tudo hei perdido;
Não vejo mais surpresa nas surpresas
E nem sofrer sei mais, por mor desgraça."
(Do livro Poesia de Mário de Andrade, coleção Nossos Clássicos, da Livraria Agir Editora.)
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Um poema de Fernando Pessoa
"O MENINO DE SUA MÃE
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado -
Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe."
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malha que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe."
(Do livro Poesia de Fernando Pessoa, coleção Nossos Clássicos, Livraria Agir Editora.)
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado -
Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe."
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malha que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe."
(Do livro Poesia de Fernando Pessoa, coleção Nossos Clássicos, Livraria Agir Editora.)
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quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Um soneto de Antero de Quental
"NO TURBILHÃO
No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...
Numa espiral, de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...
- Fantasmas de mim mesmo e de minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,
Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!..."
(Do livro Poesia e prosa, de Antero de Quental, publicado pela Livraria Agir Editora.)
No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...
Numa espiral, de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...
- Fantasmas de mim mesmo e de minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,
Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!..."
(Do livro Poesia e prosa, de Antero de Quental, publicado pela Livraria Agir Editora.)
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Literatura
Um poema de Mário de Sá-Carneiro
"FIM
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!"
(Do livro Poesia de Mário de Sá-Carneiro, coleção Nossos Clássicos, publicado pela Livraria Agir Editora.)
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!"
(Do livro Poesia de Mário de Sá-Carneiro, coleção Nossos Clássicos, publicado pela Livraria Agir Editora.)
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Animais e homens
Trecho do livro Elizabeth Costello, de J.M. Coetzee:
"As pesssoas reclamam que tratamos os animais como objetos, mas na verdade tratamos os animais como prisioneiros de guerra. Você sabia que, quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa (Aristóteles percebeu isso claramente). Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente faz algumas centenas de anos, quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita. Por baixo dela existe uma atitude mais primitiva. O prisioneiro de guerra não pertence à nossa tribo. Podemos fazer o que quisermos com ele. Podemos sacrificá-lo aos nossos deuses. Podemos cortar seu pescoço, arrancar seu coração, atirá-lo ao fogo. Não existe lei quando se fala de prisioneiros de guerra."
(Elizabeth Costello é um alter ego de Coetzee, uma personagem de estilo panfletário por intermédio da qual ele reflete sobre problemas essenciais sem tirar os pés da ficção, sem incorrer no ensaio puro e simples. O livro foi publicado em 2004 pela Companhia das Letras, em tradução de José Rubens Siqueira.)
"As pesssoas reclamam que tratamos os animais como objetos, mas na verdade tratamos os animais como prisioneiros de guerra. Você sabia que, quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça, embora, na verdade, guerra e caça sejam a mesma coisa (Aristóteles percebeu isso claramente). Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente faz algumas centenas de anos, quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita. Por baixo dela existe uma atitude mais primitiva. O prisioneiro de guerra não pertence à nossa tribo. Podemos fazer o que quisermos com ele. Podemos sacrificá-lo aos nossos deuses. Podemos cortar seu pescoço, arrancar seu coração, atirá-lo ao fogo. Não existe lei quando se fala de prisioneiros de guerra."
(Elizabeth Costello é um alter ego de Coetzee, uma personagem de estilo panfletário por intermédio da qual ele reflete sobre problemas essenciais sem tirar os pés da ficção, sem incorrer no ensaio puro e simples. O livro foi publicado em 2004 pela Companhia das Letras, em tradução de José Rubens Siqueira.)
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"A fantástica vida breve de Oscar Wao"
Se isto fosse um diário daqueles clássicos, com anotações, eu escreveria: "Dia maravilhosamente justificado pela leitura de A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz." Eu comecei a ler o romance três semanas atrás e por algumas páginas cheguei a pensar que se tratasse de mais um desses "fenômenos" criados mais pelo estardalhaço da mídia do que pelo valor literário. Quase parei ali pela página 80. Felizmente, continuei. Lembro-me dos adjetivos que às vezes aparecem na contracapa de certos romances - notável, extraordinário, magnífico, único - e quase nunca traduzem a realidade. No caso de A fantástica vida breve de Oscar Wao, todos eles são cabíveis, e até modestos.
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