domingo, 8 de junho de 2014

"Os novos iconógrafos", de Eugenio Montale

"Estão preparando a iconografia
dos escritores máximos e em breve mesmo
a dos mínimos. Veremos onde habitaram,
se em mansões ou em pardieiros, suas escolas
e latrinas se internas ou em anexos
do lado de fora com os canos suspensos
sobre pocilgas, estudaremos os horóscopos
dos ascendentes, rebentos e descendentes,
as ruas frequentadas, os prostíbulos, se algum ainda
sobrevive à honrada Merlin,
tocaremos suas vestes, seus roupões, suas seringas anais
se usadas e quando e quantas vezes, os cardápios de hotéis,
as promissórias assinadas, as loções
ou poções ou decocções, a duração
de seus amores, etéreos ou carnívoros
ou apenas epistolares, leremos
fichas clínicas, análises e se buscavam o sono
lendo Baffo ou a Bíblia.
                                    Assim a história
descura as epistemes pelas hemorroidas
enquanto flâmulas olímpicas tremulam dos mastros
e rajadas de metralha fornecem o acompanhamento."

(De Poesias de Eugenio Montale, tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, publicação da Record.)

www.rubem.wordpress.com

Hoje conto a história de um gato que tive (são os gatos, na verdade, que nos têm) há muito tempo. Penso às vezes que nascemos apenas para conhecer a beleza e a nobreza dos gatos. Esse pensamento deveria me ocorrer com maior frequência.

Fernanda Lima (2ª edição)

Fernanda Lima é uma dessas belezas incorpóreas que às vezes fingem ser palpáveis.

Fernanda Lima (2ª edição)

Fernanda Lima é um transatlântico singrando o mar numa noite sem lua, com todas as luzes acesas.

Aos sábados

Aos sábados, eles vão se divertir com o dinheiro que roubaram de segunda a sexta. Talvez a tua filha dance com um deles, e o ache vagamente conhecido e muito simpático, diferente daquele que arrancou a bolsa dela na semana passada, no cruzamento da Brigadeiro.

Ibirapuera, oito da noite

"No motel é oitenta. Aqui, eu faço por trinta."

O ruído

Dormir, dormir, esquecer que lá fora é São Paulo. Imaginar que pelo menos aqui dentro estamos seguros, apesar do ruído na porta dos fundos.

São Paulo

São Paulo é a cidade onde eu morrerei de amor, se os assaltantes não chegarem primeiro.

Última chance

"Só uma vez, vai. Agora, que ninguém está olhando. Dá uma seguradinha. Ele não morde. Vai. Não precisa abrir o zíper, não precisa tirar ele. Aproveita agora, o cara da moto já se mandou. Só pega ele, uma vez. Vou te avisar. Depois você vai querer e aí eu não vou deixar. Vai, agora. Última chance. Pega, vai. Segura."

Se todos os humilhados

Se todos os humilhados pensassem em suicídio, os donos das funerárias entrariam rapidamente nas listas dos maiores milionários do mundo. Os mais bem-sucedidos seriam os que se especializassem no sempre garantido segmento dos humilhados pelo amor.