domingo, 30 de abril de 2023

Hoje na revista Rubem

 https://rubem.wordpress.com/2023/04/30/a-insustentavel-leveza-dos-concretistas-raul-drewnick/

Gramática

 Quantos por aí vivem mais felizes do que eu sem nunca terem sabido o que é um subjuntivo.

Soneto dos navegantes fracassados

Depois de tantos planos formulados,

De projetos em febre concebidos

De roteiros tão bons e bem urdidos

E de tantos tesouros cobiçados.


Depois de tantos mares navegados,

Dos reveses inúmeros sofridos,

Dos marujos ou mortos ou feridos

E dos projetos todos naufragados


Não temos mais no navegar encanto

E não saímos mais de nosso canto.

A cobiça que outrora nos movia


Morreu no mar e agora até a um morto

Agradaria o esplêndido conforto

Desta nossa abençoada calmaria.


(Este soneto me pediu para ser escrito, ontem. Não é dos melhores, nem sequer dos bons. Minha desculpa é ele haver sido feito às pressas, num momento de distração de Mister Parkinson.)

sábado, 29 de abril de 2023

Intérprete

Quando conheci a poesia, descobri que as lágrimas não eram a única maneira de exprimir minha tristeza.

Modo de ler

Mas naturalmente há também leitores que, quando se menciona A noiva ladra, de Margaret Atwood, pensam tratar-se da história de uma mulher-cão que encontra seu par. 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Memória

Tu deves recordar-te ainda

De como as manhãs luziam

E as flores te recebiam

No tempo em que eras bem-vinda.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Honestidade

É um poeta honesto. Não faz um verso fora de medida, não cobra adicional quando utiliza rimas ricas e nunca submete a jornadas duplas os cisnes dos seus sonetos. 

Coerência

É um poeta moderno. Se for preciso, venderá a mãe, mas jamais usará palavras como rosa, sonho, amor e primavera.

sábado, 22 de abril de 2023

O artista

 No circo de periferia

com arquibancada completa

Jesus já foi hoje

equilibrista trapezista

e agora de olhos vendados

no globo da morte persegue

com sua motocicleta raivosa

diante dos espectadores eletrizados

outra motocicleta furiosa


No lado de fora

com fome no estômago

e desesperança no coração

um homem deita-se

na calçada que é seu colchão

e pergunta-se por que

Jesus há muito tempo não

faz mais com os pães

aquele número da multiplicação.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Encruzilhada

Há muito tempo que já

Não sei se vivo ou se morro,

Se estou aqui ou se lá,

Se peço enterro ou socorro.