domingo, 23 de julho de 2017

Rivais

O hipocondríaco que tem uma apenas
inveja o outro hipocondríaco
que tem duas safenas.

Ti-ti-ti

Um diálogo de dois escritores tem sempre a participação de pelo menos mais um: aquele de quem os dois falam mal.

Estatística

Tenho no facebook
um milhão de amigos menos
do que o Luciano Hulk.

Lição de história

Nas guerras Hitler perdeu tudo, e Napoleão Bonaparte.

Fora do ponto

Era um defunto não muito convincente. Parecia um fruto colhido antes da época. Em favor de seu prestígio e de seu aspecto, mais uma semana de sondas e tubos teria sido o ideal.

Traços

Escritores velhos são aqueles que a cada instante dizem "no meu tempo, na minha época", como se tivessem passado a infância com Shakespeare e a adolescência com Dante.

Direito de imagem

Àqueles que viram ou veem em mim um homem alegre digo, como toda a sinceridade e alguma esperança, que jamais aspirei a isso, que essa não foi jamais nem minha vontade nem minha verdade.

Fé na justiça

Acredito que, se eu fosse julgado por um tribunal de família, conseguiria a absolvição. Conservei nosso traço essencial, a melancolia polonesa, e por obra de Deus, que fez de mim um artista gorado, pude multiplicá-la honestamente, lágrima a lágrima, com eficácia de argentário.

Mensagem (para Inês Pedrosa)

Daquele grupo porreiro
Só o Fernando era Pessoa
E só o Sá-Carneiro.

Possibilidades

Bem mais fácil do que
no meu bolso algum dinheiro
é achar uma agulha num palheiro.

Conta simples

Por mais importantes que sejam, dois monólogos nunca formam um diálogo.

Marco zero

O bêbado paulistano, em vez
de duas catedrais da Sé,
vê sempre pelo menos três.

Guia de viagem

Deve-se ter cautela redobrada
com aqueles caldos de galinha
de beira de estrada.

Esnobismo

O mais-que-perfeito é o mais antipático dos tempos verbais.

Matemática

A velhice começa quando os problemas somáticos resolvem se multiplicar.

Oportunismo

O sol espera anoitecer para cair na gandaia.

Duas caras

O lusco-fusco é a mais grave crise existencial da natureza.

Como sói acontecer

Fui um desses meninos em que todos adivinham um novo Shakespeare, antes que eles aprendam a escrever.

Bate-pronto

Repentista é aquele que não precisa pensar para fazer maus versos.

Início de "Kakob von Gunten", de Robert Walser

"Aqui se aprende muito pouco, faltam professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, vamos dar em nada, ou seja, seremos, todos, coisa muito pequena e secundária em nossa vida futura.

(Tradução de Sergio Tellaroli, Companhia das Letras.)

sábado, 22 de julho de 2017

História

A maior conquista do sistema decimal foi o sanduíche de metro.

Marketing

Os bestialógicos, quando querem se valorizar, dizem que são galimatias.

Integridade

Aquele velho sovina não entra no facebook porque não quer compartilhar mensagens.

Equívoco

Não, dislate não é a linguagem dos cachorros.

Crème de la crème

Como diz aquele escritor autossuficiente: "Eu, se fosse me inspirar em Shakespeare, só pegaria o melhor dele."

Resposta rápida

"Obsceno é a mãe."

Apedeuta

Apedeuta é um ignorante com grife.

Alma pequena

Motivo para vaidade, mesmo, só tenho um: meu complexo de inferioridade.

Hipótese

Se os outros animais é que fossem racionais, o que pensariam de nós?

Futuro

Infinita é a nossa presunção. Supondo que lá estaremos, é sempre com ênfase e entusiasmo que falamos do reino dos mortos.

Aforismo

Aforismo é uma frase de nariz empertigado.

Um bocadinho mais de Millôr Fernandes

"O mal da ONU é que só tem estrangeiro."

"Eu só não sou o homem mais brilhante do mundo porque ninguém me pergunta as respostas que eu sei."

"A ociosidade é a mãe de todos os vices."

"Em qualquer roda  é fácil reconhecer um jornalista: é o que está falando mal do jornalismo."

"Tenho realmente a mais sincera admiração pelas pessoas que sabem perder. Sobretudo quando estou do outro lado."

(De Millôr definitivo, L&PM Editores.)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

VIP (para Ariovaldo Bonas)

Morituro é um candidato a morto prestando o vestibular.

Identidade (para Ana Clara Beauvoir e Ana Farrah Baunilha)

Eu quis ser Dostoiévski, mas acho que sempre estive mais para Bukowski.

Hoje no portal do Estadão

Um poema para as mulheres.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/poderosas-evas/

Legado

Sofrer por amor é um dos hábitos que restaram de minha época romântica. Ainda hoje, se eu fosse me apaixonar, a favorita seria aquela mulher que me parecesse a mais pérfida e cruel.

Revelação

Quando li Fernando Pessoa pela primeira vez, descobri quanto tempo havia perdido com a literatura.

Vocação

Na adolescência, eu dizia que seria Dostoiévski. Meus amigos,mais pretensiosos, sonhavam ser Garrincha, Gilmar, Pelé.

Notinha autobiográfica

Fui um menino promissor, mas cresci.

Descuido

Quem virá nos salvar?
Deus nos deu o endereço
Mas esquecemos de anotar.

Conto de fadas (para o Gianluca e a Nicole)

Finalmente aos cento e quarenta
teve seu sonho realizado:
casou com um vampiro de duzentos e sessenta
vestida de noiva e de papiro passado.

Notinha autobiográfica

Sou um homem que escreveu a vida inteira. Não sou um escritor. Escritor foi o que eu quis ser.

Inimigos íntimos (para Liberato Vieira da Cunha e Deonísio da Silva)

Do alto de minha estante
Borges me desmerece,
Ri de mim Dostoiévski,
Caçoa de mim Dante.

De Millôr Fernandes, sobre os escritores

"Antigamente, para ser um grande escritor, era preciso saber escrever. Hoje, basta ser adotado nas escolas."

"Conheço alguns escritores que morreram aos trinta anos e só conseguiram entrar pra Academia aos sessenta."

"Os escritores mortos são muito melhores do que os vivos porque não escrevem mais."

(De Millôr definitivo, L&PM Editores.)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Defesa do consumidor

Os poemas concretistas são agora fiscalizados pelo Inmetro.

Antimarketing

Se quem diz é um careca,
orelhudo e de pança,
fica difícil crer
que Deus ao nos fazer
nos fez à Sua semelhança.

Sob encomenda

A intenção de todo prefácio é transformar qualquer livrinho de trovas numa Divina comédia.

Fino sortimento

As matérias-primas que os parnasianos brasileiros usavam - a prata, o ouro, o mármore e até os cisnes - eram importadas.

Nobreza

Se encarcerarmos a poesia e não lhe dermos diariamente mais que um pãozinho, logo ela estará alimentando com as sobras pelo menos uma família de pombos.

Tecnologia

Os concretistas estão desenvolvendo uma nova geração de poemas, de mais fácil manuseio.

Regulamento

A política deveria praticar-se apenas em lugares públicos e ensolarados, como as praias, e aos participantes se permitiria usar só trajes de banho sem bolsos.

Opinião

Sou dos que acreditam que uma musa nórdica pode melhorar muito a obra de qualquer poeta.

Idade

Podem ver: quem diz que juventude é um estado de espírito é ou cinquentão ou sessentão.

Lógica

Com a idade de seis meses, Jesus Cristo era um bebê.

Faces

Há quem crie fama para se deitar na cama. E vice-versa.

Despacito

Todo país acaba dando um jeito de ter seu sertanejo universitário.

Dica

Se você for levar um poema em seu terno de defunto, que seja um soneto. Dizem que Deus é conservador.

Frases de Millôr Fernandes

"O gourmet é o comilão erudito."

"O trabalho de vez em quando tira férias. As despesas nunca."

"Ladrão que rouba pouco não vai longe na carreira."

"Todo economista acha que foi ele quem inventou a economia."

"Woody Allen: o infeliz que deu certo."

(De Millôr definitivo, L&PM Editores.)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

CLT

Minha velhice já tem tempo para se aposentar.

Manos

"Foi na última noite lá, com a turma, que eu puxei uns a mais e vi Deus."

"Como ele é?"

"Maneiro."

"Maneiro?"

'É. Que nem nós, assim. Barbudão e de cachimbo."

"Tatuado?"

"Agora você me pegou. Não reparei."

Receio do defunto

"Quem é aquele ali? Deve ser da família da minha mulher. Parece o Drácula! E vem vindo na minha direção!"

Paixão

Tudo que não é poesia me parece laico, prosaico, profano.

Desuso

Cautela, hoje, não é nada além de uma palavra que, quando aparece, vem sempre acompanhada de caldo de galinha, como se estivesse num cardápio.

Misturinha

Não sei como a minha velhice reagiria a um pouquinho de jovialidade. Talvez se desmanchasse como uma múmia indevidamente tocada. Ou quem sabe descambasse para a mais deslavada sem-vergonhice.

In extremis

O velho poeta parnasiano confessou ao padre que seu maior arrependimento era não ter sido um pouco mais perfeccionista.

Propriedade

É um poeta modesto e simpático. Tem só trinta e poucas quadrinhas, mas sorri como um latifundiário.

Obra

O concretista terminou o poema, contemplou-o e, dando-lhe três comovidas batidinhas, ordenou: fala.

O brasileiro, segundo Millôr Fernandes

"Ser brasileiro me deixa muito subdesenvolvido."

"O brasileiro é o único ser humano que acredita que pode se aperfeiçoar."

(De Millôr definitivo, L&PM Editores.)

terça-feira, 18 de julho de 2017

"Estadão"

Saudade do tempo em que o Eduardo Martins e o Walmir Venturini punham as vírgulas e as crases de castigo no Estadão.

Cotação do dia

Eu estou carente, sim.
Se fosse um poste, olharia
Para os cães e pediria:
"Por favor, mijem em mim."

Arrependimento do defunto

"Brrr! Nunca mais quero morrer no inverno."

Conceito

Frase perfeita é aquela que, mal a escrevemos, parece plágio de Shakespeare.

Oração

Que, pelo bem da literatura, os escritores sejam persistentes, e os leitores também. Amém.

Pensamento do defunto

"Se eu não estivesse morto, torcia o pescoço desse puto."

Aflição

Fico arrepiado quando penso quantas sinédoques já posso haver cometido sem ter a mínima noção do que seja uma.

De Millôr Fernandes

"OCTOGENÁRIO" - O cara que completa oitenta anos está, evidentemente, vivendo acima de seus recursos."

"ÓBVIO - Considere: se você acordou de manhã é evidente que não morreu durante a noite. Fique feliz com o óbvio."

"JUNTA - Reuniu-se a junta de médicos. O doente morreu por unanimidade."

"DINHEIRO - O dinheiro não é tudo. Mas permite à pessoa ser tão desagradável quanto queira."

"BÍBLICO - Sempre que te derem um pontapé, oferece a outra nádega."

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Opinião das velas

"Tantas de nós para só esse defuntinho aí?"

Por aparelhos

Você ainda não morreu.
Hoje, ouvindo a voz do amor,
Você saiu do torpor
E gemeu: aqui estou eu.

Comentário do rapaz do café

"Até aí estava achando que a loira era neta do defunto. Uma menina. Linda, linda. Quando eu descobri que ela era a mulher dele, quase joguei a garrafa térmica na cara do sacana, Nojento."

Plenitude

Que tedioso
um ovo
sempre igual
em seu feitio primoroso
em seu repetir-se vicioso

Nada de novo
da frente para trás
de trás para a frente
ovo invariavelmente ovo
palindrômico ovo

Observação do agente funerário

"Ô família pechincheira. Mais um pouco e quem pagava o enterro era eu."

Observação do preparador de cadáveres

"Os defuntos estão cada vez mais velhos e feios."

Advogando em causa própria

Em tudo que tenho escrito falo cada vez mais em defuntos. Estou preparando o terreno.

De Millôr Fernandes, sobre a pornografia

"Pornografia é tudo aquilo que excita os moralistas."

"Certas decisões do Congresso só deviam ser exibidas na televisão depois da meia-noite. E vendidas em sacos plásticos."

"Um filme pornô é tão igual a outro pornô que é muito difícil descobrir o pedaço em que a gente entrou."


domingo, 16 de julho de 2017

Na revista Rubem

Hoje faço uma mixórdia dos diabos.
https://rubem.wordpress.com/2017/07/16/uma-mixordia-e-tanto-raul-drewnick/#comment-9796


Conclusão do defunto

"Estou morto, só posso estar. Nenhum homem vivo ia aguentar este frio."

Opinião da mosca

"Aquele velho ali deve ser gêmeo do defunto. Parece mais morto do que ele."

Suspeita do padre

"Que defunto acabado! Parece que andou três noites na farra."

Observação do motorista do carro funerário

"Sou capaz de jurar que esse é o mesmo defunto orelhudo que eu transportei no Natal do ano passado."

Observação da funcionária da limpeza

"Hoje vai ser difícil eu ver um morto mais feio."

Comentário da viúva

"Filha, você não acha que a gravata do seu pai está, sei lá, viva demais?"

Um bocadinho de Joyce Carol Oates

"Sempre tive a impressão, e ainda tenho, de que é uma espécie de arrogância, ou de insolência - afirmar ser escritor, ser artista. No universo da classe trabalhadora  subliterária dos meus pais e avós, tal afirmação teria sido encarada com descrença, se não escárnio.

sábado, 15 de julho de 2017

Curriculum vitae

Tudo bem, eu admito:
não consegui nem entrar
no labirinto.

Indignação

No concurso de poesia concreta, o terceiro colocado censurou a comissão julgadora e recusou-se a receber seu prêmio: o Paralelepípedo de Bronze.

País do futebol

Quando um escritor brasileiro receber o Nobel, um ano depois estará sendo censurado por não ganhar o bi.

Início de "Um furto", de Saul Bellow

"Clara Velde, para começar descrevendo o que era mais conspícuo nela, tinha cabelos louros e curtos elegantemente cortados, que brotavam de uma cabeça anormalmente grande. Numa pessoa de caráter indolente uma cabeça desse tamanho talvez parecesse uma deformidade; em Clara, dotada de personalidade tão forte, passava a ideia de uma bela assimetria. Precisava daquela cabeça; uma mente como a dela exigia espaço."
(Tradução de Lia Wyler, Editora Rocco.)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Amor, uma definição

O amor é oito ou oitenta. Vive só nos extremos. No meio fica a mediocridade. O morno não combina com o amor. É gelo ou fogo.

Honra ao mérito

A alguns defuntos cai tão bem o papel que se tem o impulso de aplaudi-los.

Comentário de viúva

"Olha como ele está confortável no caixão. Em casa, reclamava do sofá."

Probabilidade

Quantas vezes você já pensou que a vida é uma longa e monótona inutilidade? Aqui entre nós, acho que você estava certo em todas elas.

No portal do Estadão

Um menino pedindo amor.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/a-tristeza-de-pedir/

Cotação do dia

Já nos demos melhor com os deuses.

Início de "O intruso", de William Faulkner

"Era meio-dia em ponto da manhã de domingo quando o xerife chegou à cadeia com o Lucas Beauchamp, e toda a cidade  (e de resto também todo o condado) já sabia desde a noite anterior que o Lucas tinha matado um branco."
(Tradução de Leonardo Fróes, edição do Círculo do Livro.)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O morto em flor

Que defunto aprumado
que elegância
que garbo
que porte supino

Está com quase oitenta
mas que rosto fresco ostenta
parece um anjo
um menino

Se a mãe o visse
diria eu disse
eu me cansei de dizer
que você seria rei meu filhinho.


O início

Estilo consiste no seguinte: eu escrevo boa alma, você escreve alma boa, e nós dois acreditamos ter ao menos um dos requisitos que tornaram Shakespeare imortal.

O "x" e o "s" da questão

Entre esotérico e exotérico, há mais diferença do que pode sugerir simplesmente a grafia.

Coerência

Os sorrisos dos sovinas são todos meia-boca.

Modernidade

Logo haverá um gps para frases indecisas.

Do prefácio de Moacyr Scliar para "Jovens polacas", de Esther Largman

"Médico recém-formado, trabalhei como clínico num asilo para idosos mantido pela comunidade judaica de Porto Alegre. Entre os residentes, havia uma mulher que me chamava particularmente a atenção; embora apresentasse um grau avançado de demência, era uma pessoa  alegre - passava os dias cantando - e, se assim posso me expressar, sensual: eu sempre a via penteando-se, ou diante do espelho, se arrumando como podia. Mais que isto, acreditava-se sedutora: quando eu ia a seu quarto, examiná-la, não me identificava como médico, e sim como um visitante qualquer. Que moço elegante,  dizia então, senta aqui na cama, vamos conversar um pouco... Inevitavelmente seguia-se uma investida; de modo que, para examiná-la, eu precisava que uma atendente a segurasse."
(Publicado pela Editora Rosa dos Tempos.)

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O problema

Em outro tempo devo ter sido um sujeito um pouco menos insignificante. Meu problema, em todas as épocas, sempre foi essa memória que nunca ajuda.

Sociologia

Pobre é um ser portador de várias necessidades especiais.

Vestibular

Para o que me espera, o único preparativo que parece ter alguma sensatez são sonecas cada vez mais longas.

Mérito

Louve-se a tenacidade dos poetas românticos. Eles se esforçavam para merecer a morte.

Perfeição

Alguns defuntos aparentam tanta naturalidade que levantam a suspeita de terem andado treinando às escondidas.

Papéis

Consoantes não são mais
que coadjuvantes trabalhando
para o estrelismo das vogais.

Prudência

Que nosso arrependimento
nunca seja tão cabal
tão integral
tão total
que não possa
ser substituído por outro
que venha a nos parecer
embora possa não ser
um melhor
mais cabal
mais integral
e total
arrependimento.

Proustiana

No baú da infância
em busca do tempo perdido
não achei a ampulheta
nem meu reloginho preferido.

Início de "Eugênia Grandet", de Honoré de Balzac

"Há, em certas cidades de província, casas cuja vista inspira uma melancolia igual à que provocam os claustros mais sombrios, as charnecas mais desoladas ou as ruínas mais tristes. Talvez haja a um tempo nessas casas o silêncio do claustro, a aridez da charneca e as ossadas das ruínas; a vida e o movimento, ali, são tão tranquilos que um forasteiro as julgaria desabitadas, se não topasse de súbito com o olhar mortiço e frio de uma pessoa imóvel, cujo rosto quase monástico surge na janela ao rumor de um passo desconhecido."
(Tradução de Moacyr Werneck de Castro, Editora Abril.)

terça-feira, 11 de julho de 2017

Dúvida crudelíssima

Se perdermos a confiança nos nossos defuntos, quem nos passará os números da megassena?

Nada a ver

Hipocondria parece, sim, mas não é doença de cavalo.

Igualdade

A gramática histórica é prova de que não somos pioneiros no sofrimento.

Physique du rôle

Zeugma é o tipo de palavra que justifica tudo que pensarmos a seu respeito.

Passado

Gostaria de saber como eram, quando não eram o que são, as frases feitas.

Metamorfoses

Não é verdade que os poetas românticos sabiam transformar pedras em flores. Os concretistas, sim, chegaram perto disso. Transformavam flores em pedras.

Perfeição

Um autoelogio nunca fica no meio do caminho, jamais perde o rumo de casa.

Cotação do dia

Sinto-me oco
vazio sem assunto
como o cérebro de um defunto.

Reconhecimento

Assim que viu Victor Frankenstein
o bebê feioso gritou
bom trabalho papai.

Cláusula

O morto perderá os benefícios, sem apelação, se for apanhado rindo ou sorrindo no exercício da função.

Mais Henri-Frédéric Amiel

"A inteligência de assimilação antecipa quase sempre a experiência íntima e pessoal. Assim, falamos de amor muitos anos antes de conhecê-lo, e acreditamos conhecê-lo, porque lhe damos um nome, ou porque repetimos o que dele dizem os outros ou o que dele contam os livros."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicado pela É Realizações.)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Mais do mesmo

Também a poesia falhou.
Ficou triste, condoeu-se,
Mas não nos salvou.

Esperteza gramatical

Para não perder o apoio nem de um nem do outro, o presidente do sindicato das categorias gramaticais usa em suas manifestações de rua tanto o alto-falante quanto o altifalante.

Querela literária

Diziam as más-línguas, na época, que as pombas de Raimundo Correia tinham vindo da França e mal falavam português.

Nota sobre os devotos

Nutrindo sentimentos mofinos - a mesquinhez, a cobiça, a cupidez -, nós os transformamos em monstros e, depois, em monstros sagrados. Tornando-os assim objeto de devoção, fomos por eles extaticamente imolados e devorados com mútua satisfação.

Bênção

Agradeço a Deus pelos cada vez mais longos períodos de sono com que vem me presenteando nesta última etapa de vida. Imerso neles, já não tenho tempo para lastimar os pecados que cometi contra a poesia, nem para entusiasmar-me a cometer outros.

Estratégia

Entre viver e morrer,
Esse "e", essa conjunção,
Fica entre ser e não ser,
Entre esse sim e esse não.

Amém

Uma boa forma de morrer é levar um golpe de vista de uma mulher de olhos fatais.

Ah!!!...

Que pitéu seria Brad Pitt para as mocinhas daqueles romances antigos, que tinham sempre como único possível marido um pároco viúvo sem nenhum sal e pouquíssima pimenta.

Início de "Vernônia", de William Kennedy

"Subindo a estrada tortuosa do Cemitério de Santa Inês na traseira de um velho caminhão barulhento, Francis Phelan percebeu que os mortos, mais ainda que os vivos, instalam-se em bairros. O caminhão viu-se de repente rodeado de um mar de monumentos e cenotáfios de formas semelhantes e tamanho impressionante, guardiães de mortos privilegiados."
(Tradução de Sonia Botelho, Editora Francisco Alves.)

domingo, 9 de julho de 2017

Peculiaridade (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

A gramática perde o acento, mas não perde o pelo.

Tal qual

A gramática é como certos vírus. Modifica-se, altera-se, transforma-se continuamente, para nos atormentar. Haja vacina.

Má fama

De todos, o sindicato mais ranheta é o das categorias gramaticais.

Conselho de mãe

"Meu filho, só mais uma coisa. Você é tão bonzinho, respeitador, educado. Não fique andando por aí em má companhia. Escolha melhor seus substantivos."

Recíproca

Em algum ponto do caminho, muito tempo atrás, por pura bravata dissemos que a beleza não era essencial. A partir daí, a lógica nos fez olhar com desdém a poesia. Elas, a beleza e a poesia, têm-nos retribuído com cisnes que parecem patos de tiro ao alvo em parques de diversões e arcos-íris com duas cores e meia.

De Millôr Fernandes, sobre a política

"Em política nada se perde e nada se transforma - tudo se corrompe."

"Política é a mais antiga das profissões."

(De Millôr definitivo, publicado pela L&PM Editores.)

sábado, 8 de julho de 2017

Essência (para Liberato Vieira da Cunha e Deonísio da Silva)

A um texto vazio
pode faltar tudo
menos a falta de conteúdo.

Prioridade

Todo o dinheiro que havia no edifício em chamas foi resgatado. Não houve tempo para salvar as pessoas.

Modo

O que Rousseau dizia pode ser contestado. Mas como ele dizia bem tudo aquilo.

Missão

Os passarinhos antigos, quando eram chamados a levar mensagens amorosas, julgavam estar salvando a poesia. Tolos!

Início de "Persuasão", de Jane Austen

"Sir Walter Elliot, de Kellynch Hall, Somersetshire, era um homem que, para seu próprio deleite, não se ocupava de nenhum livro senão o do baronato. Aí encontrava ocupação para suas horas de ócio e consolo para os momentos de tristeza; aí sua mente se exaltava em admiração e respeito, ao contemplar os pucos remanescentes dos mais remotos títulos; aí quaisquer desgostos e preocupações domésticas convertiam-se naturalmente em compaixão e desprezo."
(Tradução de Luiza Lobo, Editora Francisco Alves.)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Emergência

Tentaram salvá-lo, mas a caminho do hospital as três enormes feridas abertas no pescoço pelos dentes da ciumenta amante fizeram sua vida derramar-se inteira na ambulância.

Obviedade

Vocês, se têm um, vão entender: o meu gato, tenha-o eu ou não, será sempre o mais bonito.

A história de sempre (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

A última reforma sumiu com um bocado de hifens. A nova, presumivelmente, irá repô-los.

A dose (para Henrique Fendrich)

A racionalidade é perigosíssima. Na literatura, principalmente na poesia, pode ser fatal.

Confissão (para Rose Marinho Prado)

Eu gostaria de ser um poeta melhor. Na verdade, eu gostaria de ser um poeta.

Compromisso

A fidelidade ao Corinthians há de ser canina: latir, se preciso; morder, se inevitável.

Hoje no portal do Estadão

Falo de um Mário e de um Fernando que somavam quase quinhentos.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/marios-e-fernandos/

De Millôr Fernandes sobre o crime

"O crime não compensa: o cara pode roubar, corromper e se locupletar. Mas acaba a vida cercado de lindas mulheres puxa-sacos, morando em horrendos palácios com mil criados ambiciosos e naufragando num iate superluxuoso, cheio de quadros e obras de arte."


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Jeito de fazer

Poemas são feitos
de ninharias que o poeta
pega aqui
recolhe ali
e junta
ou de ninharias
que não havendo poeta
se juntam por si.

Como convém

Os eufemismos deveriam ser trazidos como lenços perfumados no bolso e puxados lentamente, como se pedissem desculpa por se mostrarem.

Linha reta

Desde que sou o que sou,
Só tive um modo de ser.
Fiz o que pude fazer.
Fazendo o que fiz estou.

Visita

Os mortos perguntarão
Se fomos para ficar.
Depois de tanto tardar,
Podemos dizer que não?

Paixão

Um verbo indiscreto
beija um substantivo, rebeija,
e o chama de objeto dileto.

Como uma luva

Aos gramáticos calha bem serem chamados de déspotas esclarecidos.

Exatidão

O gramático é aquele único, entre centenas, que olha o relógio da praça e pode dizer categoricamente se é meio-dia e meio ou meio-dia e meia.

Adolescência

Havia sol naquele tempo, imagino que sim. Mas eu andava encerrado na masmorra que me impus, lendo poetas mortos.

Conhecimento tardio

Hoje sei que a vida é uma atividade para jovens. Pena não ter sabido disso na minha juventude.

Início de "A história de uma viúva", de Joyce Carol Oates

"Voltando para o nosso carro, estacionado de qualquer jeito - por mim - em uma rua estreita perto do Princeton Medical Center - eu vejo, enfiado no limpador de para-brisa, o que parece ser uma folha de papel duro. Na mesma hora meu coração é tomado de desalento, de apreensão acompanhada de culpa - uma multa? Uma multa de estacionamento? Numa hora dessas?"
(Tradução de Débora Landsberg, Editora Alfaguara.)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

En français

O papagaio de Flaubert papagueava
bonjour mon chéri
bonsoir ma chère
bonne nuit
madame bovary.

Autoestima

O travessão é um hífen com mania de grandeza.

Como fazer

Devemos manter a paciência. Ciente de sua beleza, a poesia tem os passos curtos. Talvez chegue a nós, se alguém melhor não a chamar.

Os pecados

Ela vem ouvindo falarem tanto do Juízo Final que anda atenta aos pecados que comete. O de hoje: na farmácia, furou a fila com a desculpa de ter deixado em casa, sozinho, o marido com Alzheimer. O marido está morto há dois anos, aquele velho chato.

O pior

O pior que pode nos acontecer
É estarmos outra vez desprevenidos,
Darmos à vida novamente ouvidos
E ao seu falso discurso de viver.

Precaução

No dia em que o poeta saiu com o chapéu, ao voltar para casa notou que nele havia se aninhado uma flor mirrada. Na manhã seguinte, embora tão fria quanto a anterior, saiu sem o chapéu. Deixou-o na sala, com a flor. Pensou: se num dia me vem uma flor, quem sabe se no outro não me virá um passarinho estropiado? Achou que estava velho demais para assumir certas responsabilidades.

De Henri-Frédéric Amiel

Sobre a morte - "Estou calmo diante da destruição, mas trago a morte na alma porque sinto esta vida falhada, e nada espero em compensação. Nada, nada, nada! Nada."

Sobre a escola parnasiana - "Ela desgosta o leitor dos seus deuses e do seu culto, porque sob essas grandes palavras aparece a perfeita frivolidade. Este pseudopaganismo é apenas uma atitude. Não empolga o homem atual. Não é mais do uma poeira de ouro lançada sobre um cadáver."

terça-feira, 4 de julho de 2017

Despotismo (para Deonísio Da Silva)

O Volp vive mudando de opinião:
põe o hífen na quinta
e tira na sexta edição.

Estatística

Há os poemas de amor e os outros, que de vez em quando são apresentados para desmentir a teoria do tema único.

Geração espontânea

Às vezes as palavras, por conta própria, se embaralham e formam uma metáfora que os poetas costumam assumir sem nenhum constrangimento ou modéstia.

Frutos

Sacudir a árvore da Poesia pode ser um risco. São pesadas certas odes e pontiagudos alguns sonetos. Os haicais, não. Se passa uma brisa, eles se misturam a ela para celebrar silenciosamente a leveza.

Mau gosto

Por que maus poemas atraem tantas flores e passarinhos?

Equidistância

O equilíbrio da beleza
com toda a certeza está
num gato numa ponta e outro gato
na outra ponta do sofá.

Castigo

Quando o neto de onze anos se pôs a falar da paixão que tem por Dostoiévski, a avó lhe perguntou se era aquele escritor da machadinha e, recebendo a resposta que temia, persignou-se, ao mesmo tempo em que se culpava por seus pecados da juventude.

Questão de gênero

Ele disse "sou um merda" e começou a rir. Notando que não tinham entendido, zangou-se: "Vocês não perceberam? Eu troquei o sexo da merda."

O conselho

Um escritor tão velho e obscuro quanto eu me aconselhou, como se adivinhasse minha intenção, a não negociar a alma com qualquer diabo, por mais verdadeiro que pareça. Quando lhe pedi que me esclarecesse a razão do conselho, ele deu um suspiro longo e dolorido e, com as rugas do rosto ainda mais evidentes, disse: "É uma história muito antiga e muito boba. Não vou contá-la."

Modo de ver

Habituei-me de tal forma aos infortúnios romantizados que os reais me parecem indignos, e até repulsivos.

Decadência

Já tive melhores safras de tristeza. As atuais são mofinas. Venho precisando mentir cada vez mais ignobilmente e é com crescente desconfiança que eu as rego com minhas lágrimas, bem menos autênticas que as antigas.

Carbono 14

Concluí agora há pouco um poema
tão maravilhosamente prescrito
tão totalmente perempto
que parece ter sido escrito
em 1800 ou mais verossimilmente
em meados de 1700 -
ou até anteriormente.

Um bocadinho de T.S. Eliot

"E acima das árvores que se agitam
Movemo-nos na luz sobre a folha simbólica
Ouvindo no solo úmido
Embaixo, o sabujo e o javali
Fiéis a sua forma como outrora
Reconciliados entre os astros.
(...)"
(Tradução de Idelma Ribeiro de Faria.)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Segurança

Um gramático ostenta sempre aquele sorriso de quem pode, a qualquer provocação, tirar do bolso algo mais terrível que uma crase.

Alterinferioridade

Ter tido um alter ego
Não me favoreceu.
Ele era simpático, não nego,
Mas escrevia pior que eu.

Receita certa

O poeta romântico finalmente acertou. Escreveu tão doce poema que, mal pôs nele o ponto final, a caneta, a mão e a folha de papel se encheram de formigas.

Franqueza

Ao repórter o concretista revelou que tinha decidido ser poeta não por qualquer incitação mística ou misteriosa inspiração. Simplesmente lhe dera na telha.

Crase

Quem imaginaria que juntar um artigo com uma preposição poderia causar tanto desagrado e tão furiosos protestos?

Hábito

Quando a mãe lhe disse que não adiantava mais regar a rosa, porque ela estava morta, a menina foi buscar uma caixa de sapatos para enterrá-la, como havia feito, ali mesmo no quintal, com a gatinha cinza.

Rancor

Lavaram e desinfetaram a caçamba, mas uma semana depois o vingativo cheiro do gato persistia.

Honra ao mérito

Certos defuntos parecem entender melhor que outros seu novo estado e, pela compostura que imediatamente passam a ostentar, influem na qualidade das piadas contadas no velório, quando não conseguem inibi-las.

Início de "O planeta do Sr. Sammler", de Saul Bellow

"Pouco após o alvorecer, ou pelo menos o que poderia ter sido o alvorecer num céu normal, o Sr. Artur Sammler passou uma vista de olhos nos seus livros e papéis espalhados pelo quarto que ocupava na zona oeste da cidade, com um sentimento íntimo de que eramos livros errados, os papéis errados. De certa forma, não tinha realmente muita importância para um homem de seus setenta e tantos anos, dispondo de inúmeras horas de lazer."
(Tradução de Denis Vreuls, Editora Abril.)

domingo, 2 de julho de 2017

Pormenor

O que impressionou a menina não foram as lágrimas do palhaço. Foi elas serem coloridas.

Nesses termos

Final de carta anônima recebida por um gramático insubornável: ide à puta que vos pariu.

Arte

A menina desenhou mais uma estrela, perto da lua. Era a quinta. Achou que bastavam. Estava um belo céu. Quando ia assinar, um dos cisnes queixou-se de frio. Ela pegou então o lápis amarelo e desenhou um sol.

Razão de ser

Certos domingos não livrariam a cara se não houvesse Corinthians.

Cotação do dia

Sinto-me como alguém que ouve gritarem "homem ao mar" mas que, tendo-se afeiçoado subitamente às ondas, finge não ouvir e deixa-se levar.

Providências

Hoje esvaziei o paletó que usarei no último dia. Foi rápido. Eram só algumas folhas com frases leves, que lancei ao vento. Já não importa que cheguem, ou não, à destinatária. Melhor será se elas se perderem. Ninguém lhes criticará o estilo ou a ingenuidade.

Na revista Rubem eu...

... exibo hoje mais uma vez minha única unidade: a dispersão.
https://rubem.wordpress.com/2017/07/02/palavras-frases-nao-muito-mais-raul-drewnick/

Sorte

Benevolentes são os leitores de poesia. Enquanto eu gozo as delícias da impunidade, penso em quantos homens morreram acusados de transgressões menores, como a adulteração de rum ou o furto no peso do pão.

Início de "Labirinto negro", de Lawrence Durrell

"Nos primeiros dias de junho de 1947 um pequeno grupo de excursionistas ficou aprisionado no então recentemente descoberto labirinto de Cefalu, na ilha de Creta. O grupo havia penetrado na teia de cavernas e corredores conduzido por um guia fornecido por uma agência de turismo, com a intenção de examinar a chamada Cidade da Montanha, cuja descoberta, nos primeiros dias do ano anterior, marcara data na carreira arqueológica de Sir Juan Axelos. Devido a um súbito e imprevisto acidente, o guia encarregado de cuidar do grupo morreu. O desmoronamento separou diversos elementos do grupo do seu núcleo principal e foi por mero acaso que um deles, Lorde Graecen, encontrou uma saída."
(Tradução de Daniel Gonçalves, Editora Record.)

sábado, 1 de julho de 2017

A escolha

Ismália não era esperta.
Das duas, jamais soube
Qual era a lua certa.

Soberba

Começamos a perder os leitores quando dizemos a palavra literatura como se ela se referisse a um milagre ao qual apenas nós tivéssemos inteiro acesso e do qual oferecêssemos de vez em quando um pedacinho a eles, para terem noção da grandeza que devem reconhecer em nós.

Início de "Macunaíma", de Mário de Andrade

"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tupanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
   Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
   - Ai! que preguiça!...
   e não dizia mais nada."

(Livraria Martins Editora.)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A voz rouca

O velho poeta sente, cada vez mais atenuado, o impulso de causar ainda espanto. Tenta novos temas, testa outras formas, pensa que lhe voltou o ímpeto da juventude. Substitui seus cisnes e seus lagos por vertiginosas cenas e nelas introduz uma vigorosa cacofonia urbana. Mas o único espanto que consegue provocar nos jovens é a pergunta: como certos mortos mantêm a capacidade de respirar e escrever?

Intimidades

O bobo da corte diz que a rainha tem, próximo do umbigo, um J artisticamente inscrito. O nome do bobo da corte é Francis. Só aos amigos ele revela que é Francis James e que, nas peripécias noturnas, a rainha Lisbeth implora que ele a chame de Fofa.

Modelo

Hoje ele imita Deus com tanta veracidade que lamenta não ter começado antes. Talvez fosse possível a perfeição.

Hoje no portal do Estadão eu...

... ofereço um poema. Nada tenho de melhor.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/aceitam-um-poema/

"Sob as pontes do amor", de René Depestre

"Vejo-te aos quinze anos amante de tua prima
para ti sua beleza é um fio telegráfico
onde teus desejos pousam seus gritos de pássaro...
Com ela por vezes engolfas-te num rio
que corre sobre a efígie das chamas de seu corpo
e nossas delícias se unem em um rápido sol
e são como luar sobre a noite dos peixes...

Aos quinze anos te vejo unido à Bem-Amada
que fertiliza as famintas glebas de teu sangue...

Oh Bem-Amada então eu não sabia
de mais negra e radiosa missa do que aquela
que baixinho teus seios celebravam
no âmago de minhas veias no âmago de minhas veias!

Ai de mim!

Uma tarde, lembras-te? ela retoma
as chaves de seu corpo adolescente
chaves de meus horizontes
e eis que estás arruinado eis que estás condenado."

(Tradução de Idelma Ribeiro de Faria, Editora Hucitec.)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Orfandade

Quem dos humanos tem dó?
Por acaso merecemos
Sofrer tudo que sofremos
Para nos tornarmos pó?

Tal mas talvez não qual

A sinonímia não é
Por si só plena e certeira.
Fé não parece tão fé
Se dita de outra maneira.

Convicção

Por uma tradição que vem passando desde a primeira até a mais recente das gerações, os cisnes acreditam que a lua e todos os lagos do mundo existam unicamente para lhes realçar a beleza.

Drama

Morrer faz parte do enredo,
É fato mais do que fato.
Uns morrem no terceiro ato,
Os outros morrem mais cedo.

Jesus via Net

Me ajuda, meu  bom Jesus.
Tua senha deste-me um dia
Que eu busco hoje em agonia.
Não sei, Senhor, onde a pus.

Solidariedade

Nada há de mais cristalino.
Um sino imita outro sino.
Se um toca, os outros também;
Blém um, blém dois, três blém.

Gêmeas

Quando Ismália enlouqueceu,
Ismênia não se condoeu
E pôs-se na torre a cantar:
"Se era para uma das duas pirar,
Antes ela do que eu."

... embora pareça

Não, tonitruante não é o nome de um astro de Hollywood.

Suor

Salgada e precisa,
No meio de um e outro seio,
A gota desliza.

Início de "O homem duplicado", de José Saramago

"O homem que acabou de entrar na loja para alugar uma cassete vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso. Ao Máximo e ao Afonso, de aplicação mais corrente, ainda consegue admiti-los, dependendo, porém, da disposição de espírito em que se encontre, mas o Tertuliano pesa-lhe como uma lousa desde o primeiro dia em que percebeu que o malfadado nome dava para ser pronunciado com uma ironia que podia ser considerado com uma ironia que podia ser considerada ofensiva."
(Publicação da Companhia das Letras.)

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Apogeu

O velho parnasiano atingiu a perfeição em sua técnica. Transforma qualquer tossezinha seca em acessos de gloriosos dodecassílabos.

Cotação do dia

Cada dia a mais de convívio com meu corpo me impõe a certeza de que, se a poesia um dia resolver voltar, precisará crer na existência de pelo menos um fiapo de alma, ainda, em mim.

De corpo inteiro

O amor é como o Diabo. A essa altura da história da humanidade, não há como pintá-lo pior.

Façanhas

Você diz ter morrido tantas vezes. Que falta de humildade, que desperdício. Pode vir a lhe fazer falta, no dia.

Vindita

Lhe agradaria ter sido
Um escritor rejeitado,
Humilhado, desprezado,
Pelo Nobel redimido.

Lojinha da Poesia

Não, hoje não tenho nenhum
enjambement. Se ainda precisar,
por favor passe amanhã.

Iluminação

Conhecer Fernando Pessoa nos devolve imediatamente à infância. Como nos soa pueril tudo que escrevemos.

Penúltimos passos

Que gozo estarmos assim
Longe das mesquinharias,
Do reles, das ninharias,
E tão perto já do fim.

Sic transit

César foi tão poderoso.
Que inveja de nós teria
Se nos visse hoje, num dia
De sol tão pleno e glorioso.

Modo de ser

Mil vezes pugnas que paz.
A dor é o que me constrói.
Execro o que não me dói,
O que me dói me perfaz.

Início de "A incrível e triste história da cândida Eréndira e sua avó desalmada", de Gabriel García Márquez

"Eréndira estava banhando a avó quando começou o vento de sua desgraça. A enorme mansão de argamassa lunar, perdida na solidão do deserto, estremeceu até os fundamentos com a primeira investida. Mas Eréndira e a avó estavam acostumadas aos riscos daquela natureza desatinada, e mal notaram a intensidade do vento no banheiro adornado de pavões-reais repetidos e mosaicos pueris de termas romanas."
(Tradução de Remy Gorga, filho, publicação do Círculo do Livro.)

terça-feira, 27 de junho de 2017

Titanic

Faz tempo que o Brasil afunda.
Num ano a corrupção sobeja,
No outro a bandalheira abunda.

Mario Quintana

A poesia de Mario Quintana nos recebe sempre simpaticamente, como o desenho de um sol sorrindo na folha inicial do caderno de desenho de um menino de seis anos.

Círculo

Os poetas nos encantam quando fazem o sol sorrir ou uma fonte cantar. As crianças não se entusiasmam tanto. Estão habituadas a essas fantasias tão caras à poesia. Logo serão instadas a adotar a linguagem dos adultos. Quem, dentre elas, vier a se dedicar o ofício da poesia precisará recuperá-la quando for o tempo.

Ajeitadinha

Sugeriram ao poeta concretista que, antes de lançar a segunda edição de seu livro, desse ao menos uma boa mão de tinta nele.

Crueldade

O crítico desconstruiu o poema concretista pedra por pedra

Atenuante

Poemas abomináveis cometidos entre os quinze e os vinte e cinco anos deveriam ser classificados na categoria dos pecadilhos literários.

O mistério

O que você sente hoje é que deve continuar escrevendo. Qual é exatamente o motivo você já soube, mas há muito tempo.

Meteorologia

Com mil trovões!
Quem semeia tempestades
Se afoga em inundações.

Início de "Tia Júlia e o escrevinhador", de Mario Vargas Llosa

"Nesse remoto tempo, era eu muito jovem e vivia com meus avós numa quinta de paredes brancas da Rua Ocharán, em Miraflores. Estudava em São Marcos, direito, acredito, resignado a ganhar a vida mais tarde com uma profissão liberal, embora, no fundo, teria preferido chegar a ser escritor. Tinha um trabalho de título pomposo, salário modesto, apropriações indébitas e horário elástico: diretor de informações da Rádio Panamericana."
(Tradução de Remy Gorga, filho, Editora Nova Fronteira.)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Estações

O passarinho o que espera?
Por que tanta hesitação?
Se já não fez primavera,
Como irá fazer verão?

Peculiaridade

Num poema parnasiano, as borboletas flutuam como se não fossem de mármore.

Aquele, lembra?

A má fama o acompanha. Décadas se passaram, seu rosto mudou, tudo nele está diferente, mas sempre há quem, vendo-o seja onde for, aponte: "Não é aquele dos sonetos?"

Mal-entendido

Houve tempo no qual se acreditava que os poetas fossem seres místicos. Foi com muito custo que eles se desfizeram dessa fama.

Opinião

Considero a falta de lirismo uma falha de caráter.

Paz

Num haicai, o silêncio, se for perturbado, há de ser no máximo pelo rumor, mais adivinhado que real, de uma borboleta.

O melhor dos dias

O escritor acordou sorrindo. Era domingo e ele tinha acabado de receber o Nobel. Espreguiçou-se, bocejou. Olhou para o alto e para os lados, como se estranhasse o quarto. O sorriso se desfez. No instante anterior, estava em Estocolmo. No seguinte, no Parque São Lucas, sem discurso nem Nobel. Domingos deveriam estar imunes a sonhos cruéis.

Equívoco

Não. Pesporrência não é um jorro disso que você pode estar imaginando.

"Polaca de Aspäker", de Eric Axel Karlfeldt

"Por que permanecemos sentados, imóveis e silentes,
as palavras caras já se esgotaram todas?
Os lábios jovens já foram todos beijados,
esses que sorriem em torno desta mesa?
Já se casaram todas as jovens donzelas,
que andam a curtos passos pela sala?
Já não há mais lares a ser constituídos?
Não há corações que ardam à nossa volta?

Vou urdir a lã, enrolar as meadas,
fabricar a manteiga e tosquiar as ovelhas.
Meus lábios nunca, nunca receberam beijos,
e talvez não os recebam ainda este ano.
Colherei bagas, tecerei o burel,
e trabalharei tanto que ficarei esguia.
Se tiver um esposo quando já for velha,
é a ti que escolherei, desde que estejas jovem."

(Tradução de Ivo Barroso, da coleção Prêmios Nobel de Literatura, Editora Delta.)

domingo, 25 de junho de 2017

Autenticidade

O concretista pesporrento
dá três pancadinhas no poema:
"É puro cimento!"

De qualquer jeito

Contra a gramática não há salvação. Ela nos pega pela regra ou pela exceção.

O que é

Não, definitivamente. Trepanação não é um ato sexual que envolve três ou mais participantes.

Fama

Se não fossem os poetas, de que se gabariam hoje a lua e as estrelas?

A dúvida

Tantas décadas depois, não sei se continuo escrevendo por alguma fé que possa ter ainda na literatura, ou por um desses hábitos que nos velhos são tão comuns quanto seu mau humor.

Cotação do dia

Tristezas passadas, movendo ainda inúteis moinhos.

Bem ali

A lojinha era ali, bem na esquina. Hoje é uma academia de ginástica. Ele se lembra das prateleiras impecavelmente arranjadas, dos artigos de bazar e papelaria. Tinham sido bons anos. Veio a derrocada, e o que resta de tudo são as dívidas, que ele ainda paga mês e mês. Ficou também a foto da placa, no celular. Às vezes ele olha para ela: Loja do Wellington. Contempla as letras vermelhas e suspira: eu fui o Wellington.

Comme il faut

Ama os outros
na medida certa.
É filantropo
ma non troppo.

De Ruy Castro, sobre James M. Cain

"James Cain teve um grande problema como escritor: passou a vida sendo comparado a Ernest Hemingway, Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Qualquer escritor normal adoraria que isso lhe acontecesse, mas essas comparações faziam Cain sofrer como o diabo. E com um agravante: ele era comparado favoravelmente. Hemingway, Hammett e Chandler, que não eram trouxas, nunca reclamaram por serem escalados em sua companhia. Mas Cain talvez tivesse razão de sofrer: ele preferiria que o comparassem a Dostoiévski."

(Da apresentação do livro O destino bate à porta, Editora Brasiliense.)

sábado, 24 de junho de 2017

Para Inês Pedrosa

Ilibada Inês
hurra uma
hurra duas
e mais uma vez.

Refrão de cançoneta

O capitão morreu subitamente
e o imediato também
imediatamente.

Reverência

Há uma torre em Pisa
ao redor da qual
o vento se faz brisa.

Presente

Eu te daria a lua
se ela não fosse outra dessas ninharias
que há tanto tempo
os poetas vêm oferecendo
em seus poemas
com o carimbo de cortesia.

Obra

Quando se mudou de Pedra Abaixo para Pedra Acima, o poeta concretista precisou de três caminhões dos maiores para transportar seus poemas. Felizmente, estava com vinte anos na época.

Cerimonial

O sol da tarde, antes de se deitar no sofá, pergunta à gata: "Posso, Majestade?"

Da poesia

Havemos de transmitir a poesia com a modéstia que sempre deve caber a quem não é senão um instrumento de uma voz superior.

Penúria

Era mais pobre do que poderia imaginar e querer para si o mais fervoroso dos poetas românticos.

Fora de época

Deveríamos ter tentado antes. Tanto tempo desperdiçado. A quem enganaremos agora, com estes olhos que lisonjeiam para pedir a condescendência devida aos morituros?

Agradinho

Não há nada que agrade mais aos poetas que um bom afago, embora eles sempre digam que não o querem e não o merecem.

Mania

Gramático é aquele tipo capaz de chamar três simpáticas palavras - ontem à noite - de locução adverbial de tempo, ou coisa pior.

Início de "A louca da casa", de Rosa Montero

"Estou acostumada a organizar as lembranças da minha vida em torno de um rol de namorados e de livros. Os diversos relacionamentos que tive e as obras que publiquei são as referências que marcam minha memória, transformando o ruído informe do tempo em uma coisa ordenada."
(Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, publicação da Ediouro.)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Equilíbrio

Um cuidado que o poeta deve ter é o de não se encantar excessivamente com a beleza do seu ofício a ponto de ser tentado a assumir como tema único, ou principal, as peculiaridades do seu trabalho.

Oratória

Se deixarem um poeta se lastimar, ele em cinco minutos demonstrará ser mais injustiçado que Jesus Cristo, e mais virtuoso.

Sonho

Eu gostaria de ter sido um escritor amado por seus leitores, tivessem sido eles quantos tivessem sido. Não me importaria o ano ou o século em que eu houvesse vivido. É estranho isso, eu reconheço. Parece uma aspiração retroativa, uma dessas esquisitices típicas de um homem a quem o futuro já não diz muito.

Defesa da rosa

A rosa não esconde o desapontamento quando é citada em livros de botânica. Invoca a majestade que lhe atribuíram os poetas e diz que a rosa dos textos de botânica não é ela, é no máximo uma prima distante.

Unidos pelo consumo (para Silvana Guimarães)

Com expressões furiosas,
cada qual com seu argumento,
queixa-se o poeta romântico de um
e o poeta concretista de outro aumento -
um do preço da dúzia de rosas,
outro do preço do saco de cimento.

Do mesmo saco

Os poetas concretistas jamais admitiram, mas o que pretenderam sempre foi também terem sua torrezinha de marfim.

Bem-aventurança

O mais venturoso dos tolos é aquele que nada sabe de sua tolice. O apaixonado é o exemplo clássico.

Uma colherada de Henri-Frédéric Amiel

"A minha indiferença é antes adquirida que original. O que é antigo em mim é a desesperança, e a reflexão preferida à ação. O mal de Hamlet é também o meu mal. É, igualmente, a tendência de uma grande parte dos pensadores alemães, e o fundo búdico da doutrina de Schopenhauer. O impulso animal e a vontade são inferiores ao pensamento."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicado pela É Realizações.)

No portal do Estadão

Hoje escrevo sobre uma das paixões da minha vida: o haicai.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/no-haicai-a-alma-japonesa/

quinta-feira, 22 de junho de 2017

COTAÇÃO DO DIA

Sinto-me como se há muitos anos estivesse esperando um gato cuja entrega tivessem adiado, adiado, adiado. Hoje me avisaram que o gato morreu um dia depois de prometido.

Explicação (para Inês Pedrosa)

A paradinha que certas palavras precisam dar para recompor a respiração recebe o nome de hiato.

O hiato (para Rose Marinho Prado)

O hiato é a indecisão que sentem certas palavras.

O ponto (para Ana Farrah Baunilha)

O que há de melhor no pecado do amor é reincidir.

Democracia

Tudo bem que, se tiver alguma reclamação a fazer, um cachorro se ponha a latir. O problema é que os cachorros do meu bairro andam com uma pauta de reivindicações ampla demais.

Técnica

Como meio-termo entre um ponto e dois, Emily Dickinson preenchia o espaço com um traço.

Imagem

Eu gostaria de poder mostrar ao mundo algo mais que este olhar apatetado de quem descobriu que a vida não é lá essas coisas.

Companhia

Era um poeta execrado pelos outros. Andava sempre acompanhado por maus sonetos.

Tradição

A gramática tem essa má fama desde que farmácia se escrevia com "ph".

Amizade

Enquanto eu estiver respirando,
Do superlativo serei amicíssimo.
Quem mais, podendo me chamar de vivo,
Me chamará de vivíssimo?

De Robert Bréchon, sobre Fernando Pessoa

"Pessoa amou uma mulher, Ofélia, a ponto de pensar em casar com ela, ou de fingir que pensara nisso. Sua obra é cheia de poemas e de páginas de prosa que exaltam a mulher amada - sempre virgem, se possível mãe, e de preferência ausente. É um devoto do Eterno Feminino, mas esse culto da feminilidade,em si, situa-se num espaço imaterial, longe da esfera dos sentidos, fora do corpo. Pergunto-me se sua vocação inconsciente não seria satisfazer simultaneamente duas exigências contraditórias, que um Gide, entre outros, conseguiu perfeitamente conciliar: casar com a alma de uma mulher e com o corpo de rapazinhos."

(Do livro Fernando Pessoa - Estranho e estrangeiro, Editora Record.)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Reticências (para Marcos Júnior Micheletti)

Reticências são lenços perdidos no céu por estrelas descuidadas.

A PERGUNTA

Toda manhã você se olha no espelho e pergunta: "Você é o tolo que se exauriu de amor?" E cada dia você se entende melhor, e seu sorriso se abre mais: "Sim, você é o tolo que se exauriu de amor."

Mania

Ainda hoje as vírgulas invocam direitos da época em que eram consideradas preciosos ornatos e, se deixarmos, penduram-se nos textos de ponta a ponta, como brincos.

Paraíso

Como eram leves, livres e alegres as aliterações antes de começarem a lhes apontar tantos tremendos defeitos.

Mão fechada

A poesia não nos atende mais quando lhe pedimos pão. Já nos conhece e sabe quanto, depois do pão, lhe exigiremos.

... enquanto dure

O ideal seria
que o amor fosse fortuito -
mas não muito.

Sob tortura

Era uma crase tão pavorosamente desgrenhada que eu disse ao gramático: "Tudo bem. Eu me entrego."

No dia

Quem acenderá uma vela para um soneto meu? E para os outros cento e tantos?

Impasse

Um sujeito indeterminado
Deixa um gramático possesso.
Como terminar um processo
Sem determinar um culpado?

Início de "Sonhos de Bunker Hill", de John Fante

"Meu primeiro encontro com a fama não foi nada memorável. Eu era ajudante de garçom na Confeitaria Marx. Foi em 1934. O lugar ficava na esquina da Rua Três com a Hill, em Los Angeles. Eu tinha vinte e um anos e morava num mundo que fazia fronteira com Bunker Hill, a oeste, a leste com a Rua Los Angeles, ao sul com Pershing Square e, ao norte, com o Civic Center. Eu era um ajudante de garçom inigualável, com grande estilo e talento para a profissão, e embora fosse terrivelmente mal pago (um dólar por dia, mais refeições), chamava considerável atenção enquanto girava de mesa em mesa, equilibrando a bandeja numa mão e arrancando sorrisos de meus fregueses."

(Tradução de Marilene Felinto, Editora Brasiliense.)

terça-feira, 20 de junho de 2017

MODO DE AGIR

Que você nunca se queixe de nada que deu ao amor. E, se você for tolo, como parece, perdoe tudo que ele não lhe deu.

Nem tanto assim (para Luiz Roberto Guedes)

Muito do que nos velhos é atribuído à experiência, principalmente em sexo, deveria ser creditado à imaginação.

Completo (para Herena Barcelos)

Ele é famoso porque, nos lances sadomasôs, seu chicote estala notas de La Cumparsita.

No caderno Viagem do Eatadão

Gilberto Amendola num texto supergostoso hoje, cheio de humorísticos naufrágios e navegações à deriva.

Anacronismo

Só recentemente compreendi que desde 1960 as histórias de amor não provocavam nada mais excitante do que bocejos.

Contraste

Os castelos dos poetas românticos se esvaíam. Os dos concretistas desmoronavam.

Ordem

O parnasiano guardava na gaveta de materiais poéticos o cisne, a lua e as estrelas.

A diferença

Poetas com mania de grandeza não fazem quadrinhas. Fazem quarteirões.

Amor filial

Um gramático, assim como um juiz de futebol, deve pensar na própria mãe sempre que for emitir uma opinião.

Sonho

Escrevi com pseudônimo um livro de sacanagem de tanto sucesso que nunca mais precisei usar meu nome.

Modus operandi

Se você abriu a janela esta manhã e um passarinho se pôs a cantar, ele, você e o sol terão sido mais uma vez vítimas da propaganda enganosa da Vida.

Dependência

De uns tempos para cá, só consigo rir quando consulto o manual. Gargalhar, nunca mais.

Bukowskiana

Lá pelas cinco
peguei as duas no trottoir
e fomos para o quarto
fazer ménage à trois.

Início de "A brincadeira favorita", de Leonard Cohen

"Breavman conhece uma garota chamada Shell cujas orelhas foram furadas para poder usar brincos compridos e filigranados. Os furos infeccionaram e agora ela tem uma pequena cicatriz no lóbulo de cada orelha. Ele as descobriu por baixo dos cabelos dela."
(Tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Cosacnaify.)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Razão de rusgas

Minhas namoradas tinham ciúme do Corinthians.

Soneto dos prazeres da cama (versão final)

Dos outros agora são
As alegrias da cama,
O fogo súbito, a chama,
Os gozos, a possessão.

Dos outros é agora a mão
Que toca, pede, reclama,
A boca que grita que ama
E exige a consumação.

Ontem era ele que arfava,
Que estremecia, gozava
E sempre queria mais.

Hoje ele lembra somente
De tudo só vagamente
E bem sabe que jamais.

COTAÇÃO DO DIA

Um morto, se bem treinado, sorriria melhor que eu.

Cotação do dia

Em nos devorar
em porções ou inteiro
o amor é useiro
e vezeiro.

Coro

Falemos de flores, por que não? E de amores. Por que desdenharíamos os temas que tão caros foram sempre aos nossos irmãos poetas? Se estivessem ainda entre nós, cantariam conosco.

Estágio avançado

Hoje lido bem com o amor. Atiro-o para o alto, bem alto, e recolho-o graciosamente. Não tenho receio de que caia e se espatife. Se cair e se espatifar, sei que é da natureza dele. Logo estará de pé, inteiro, pedindo aplausos. O amor é um saltimbanco.

Espécies

Quem quer morrer pela literatura pode escolher entre dois modos: o poético e o prosaico.

Definição

Amor é hoje só uma dessas tantas palavras que os jovens vão buscar no google.

Gaveta

O amor é uma das bobagens que guardo daquele tempo, conservadas em naftalina.

Bruxa

São Paulo é uma cidade de homens mesquinhos e mulheres secas. Um arco-íris só floresce aqui por engano meteorológico e geográfico.

Na praia

Deste-me sempre tanto azo
A me perder em teu mar.
Pobre de mim! Fez-me o acaso
Em teu raso me afogar.

Dois poemas de Emily Dickinson traduzidos por Idelma Ribeiro de Faria

"Oh, mel de um instante
Não conheço o teu  poder!
Proíbe-me.
Até que meu dote diminuto,
Minha flor não frequentada
Te mereça."

                    ***

"O fruto proibido é saboroso e pode
Dos pomares legais escarnecer.
Como é enjoativa a doçura da ervilha
Encerrada na fava do dever."

Do livro T.S. Eliot, Emily Dickinson e René Depestre, Editora Hucitec.)

domingo, 18 de junho de 2017

O contrato

O CONTRATO - Começamos renunciando a ninharias. Aprendemos a negociar. Persistimos. Acabamos renunciando a tudo. Viver não é tudo. Conviver é o lema.

Poeminha para se ler de lábios molhados (p/ Ana Clara Beauvoir)

Molly Boom
duplo sinônimo de antirrecato
nome de se falar lento
com a língua no palato.

Cotação do dia

Depois que aprendeste a fingir, já não te cobram como antes. És como os outros. Vives.

Conteúdo (Para Edilaine Lopes e Inês Pedrosa)

Exceto aquele 1% de ginástica e contorcionismo, o amor é todo emoção e lirismo.

Hoje na revista Rubem,

falo de definições e, para ser justo, de indefinições.
(www.rubem.wordpress.com)

Cotação do dia

Pode ser só impressão minha,
Mas acho que não vou durar.
Cansam-me coisas comezinhas
Como andar e respirar.

Autoria (Para Inês Pedrosa)

Responda depressa:
Quem escreveu Dom Casmurro?
Não me venha com Eça.

Competência

Se conheces um rouxinol
não perguntes a um pardal
o que é um si bemol.

Datas

Em 1900 e tantos
ela lhe prometeu
que seria sua amada.

Às vezes ela ainda promete
mas é já 2017 -
e até agora nada.

Quando

O que será de nós no dia em que os verbos se conjugarem e se voltarem contra nós?

Reconsiderando

Não, bispote não é uma autoridade religiosa secundária.

Do manual do escritor

Ser lido ou não ser lido pode não parecer nada hoje. Amanhã, será a razão de ter sido ou não ter.

Detalhe

Um olhar atento veria
que o terno do defunto
era o mesmo do casamento.

"Um herdeiro de Carlito", de René Depestre

"Dá a teu lirismo calças largas
grandes sapatos um jaleco estreito
uma bengala um bigode e um chapéu
e armado desses fogos desce à rua
para ajudar a esperança e a pálida ternura
a levar sem recuar seus alforjes de cinza."

(Tradução de Idelma Ribeiro de Faria, do livro T.S. Eliot, Emili Dickinson e René Depestre, Editora Hucitec.)

sábado, 17 de junho de 2017

Altri tempi (para Rose Marinho Prado)

Ganhei a vida dizendo ser revisor e fingindo ser gramático. Não tive a mesma sorte como poeta.

Reconhecimento

Venturoso foi o tempo em que aos poetas se dava desconto na compra de flores e nos exames pulmonares.

Simples

- O que é poder de síntese? Ora...

Tecla em desuso

Jovens poetas malogrados apresentam cada vez menos a alegação de terem sido corrompidos por velhos sonetistas.

Nova fase

Quem frequenta os bastidores da gramática assegura que ela, finalmente preocupada com a opinião pública, pensa em negar toda relação com a crase e os verbos irregulares.

MÉRITO

Quando o amor nos deixou e afinal olhamos para nós, depois de por tanto tempo havermos olhado só para ele, soubemos por que ele estava indo embora. Porque nós não o merecíamos.

Procon

Se provarem que rir é mesmo o melhor remédio, quanto custará cada gargalhada?

Rotina

O poeta é capaz de ver a imagem de Deus num arco-íris e julgar isso um fato corriqueiro, ligado ao seu ofício.

Medida

Um poeta não deve se comover até às lágrimas. Sempre se espera algo mais dele.

História

O amor era um costume bastante disseminado até meados do século XIX.

Obstinação

Os poetas herméticos não se revelam nem nos autos de um processo.

Haja!

Todo edificante mantém ao menos um pé no paulificante.

Moderno Parnaso

Os poetas não contam mais sílabas, não rimam e - afortunadas são as mulheres de hoje - desistiram de fazê-las musas.

Obrigação

Quando exaltam o amor, é preciso reconhecer que os poetas estão defendendo seu ofício.

Hábito

Os gatos hoje sonham mais com pacotes de ração que com passarinhos.

Estatística

Meninos moradores de rua não costumam fugir de casa.

"Todos os reconhecem", de René Depestre

"Em todos os cantos do mundo
os reconhecem
pelo leite que emana de seu riso.

Os reconhecem
por seu coração dilacerado
por seus músculos sem repouso.

Os reconhecem
por suas pernas delgadas
seus pulsos de rijo metal
e pelos rouxinóis que em sua garganta fazem ninho.

Em todos os cantos do mundo.
Negros de tristes tempos."

(Tradução de Idelma Ribeiro de Faria, do livro T.S. Eliot, Emily Dickinson, René Depestre, publicado pela Editora Hucitec.)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Alô, Molly (para Silvana Guimarães)

Querida molly
cismática senhora bloom
se fosses fonte
e me aceitasses
eu te exauriria gole a gole
minhamolly
e pouco me importaria
se depois me exaltasses
ou me execrasses
minhabloom
em teus monólogos de fogo
ou em monólogo nenhum.

Spleen

O Sol foi acometido por um tardio acesso de romantismo e anda se queixando: ah, Deus, que tédio. Mais um dia!

Tipos

Pior que o declamador que tosse e para no meio do poema é aquele que vai até o fim.

Tesouro

Guardemos um pouco de nossa pureza. Para que os nossos mortos não nos censurem quando formos visitá-los.

Labirinto (para Cassionei Niches Petry)

Sou mesmo um tolo.
No Bloomsday
Saí procurando Leopoldo.
Todos o viram,
Só eu não o encontrei.

Caos

E se as categorias gramaticais entrassem todas em greve?

Lógica

O pior que pode acontecer a um sujeito oculto é ser descoberto por um gramático.

... direi quem és (p/ Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha0

Há verbos de muito boa índole desencaminhados por sujeitos de mau caráter. Apalpar, por exemplo.

Limite

Quando parecemos estar nos dando bem com a gramática e enfiamos a mão por dentro de sua saia, ela nos espeta com uma crase.

Ostracismo

Que despeito deve sentir o defunto quando nota lá pelas tantas que todos já perderam o medo e o respeito e que não é mais ele o assunto.

Ampulheta

Cuide do rango seu
que eu cuido do meu
enquanto Deus na cozinha
assa nossa batatinha.

Imagem

A gramática parece uma bruxa velha com cachimbo e azia.

Anticlímax

As asas azuis da borboleta escapam do poema e enredam-se num parequema.

Como?

O que que você disse ser mesmo parequema?

Névoa

Não confio mais na memória. As palavras me vão fugindo e zombam de mim como crianças provocando um cão velho. Não me importo se perder a congruência, o tirocínio, a credibilidade, o descortino, o solipsismo e outras empertigadas preciosidades. Que me restem algumas palavrinhas com as quais eu possa ao menos, ainda que por passatempo, continuar sem alarde e sem pretensão exercitando minhas riminhas de ocasião.

Norma

Casos que tenham como objeto a crase deveriam ser julgados não por um, mas por uma junta de gramáticos.

Hoje no portal do Estadão...

... beijos são o assunto da crônica. Espero não ter escolhido mal.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/beijos-ah/

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Fernandônimos (para Inês Pedrosa)

Repeti Fernando Pessoa ao meu jeito. Fui mais de cem, como ele, com uma diferença: fui um pior que os outros.

Aquela aflição

Aquela aflição que nos dá a beleza, quando se revela. Aquele instante que acabou de passar, que não se repetirá e que nos deixará para sempre a pergunta: terá havido mesmo aquilo? E a resposta: não. Como nós mereceríamos, ainda que por um momento, sentir-nos como deuses?

De lua (para Ana Clara Beauvoir)

Sou instável. Estou sempre sujeito a chuvas, trovoadas e principalmente aos ensolarados sorrisos da moça do tempo.