segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Inferno (para Ana Farrah Baunilha)

O que o Inferno tem de melhor são os caminhos que a ele conduzem.

Higidez

Que esplêndido é o nosso exemplo.
Respiramos ainda, e andamos,
Embora nunca ao mesmo tempo.

Realidade

Sei, há muito tempo já, que sou no máximo, nas poucas vezes em que consigo algo parecido com literatura, um tantinho mais que medíocre.

Etiqueta

Se for tentado a se dizer poeta, um homem velho deve pedir desculpas, antes e depois.

A pergunta

Toda vez que você se vê no espelho, aquele resto de poesia que subsiste em você se apequena mais um pouco.

Literatura

Você não imaginou, nem poderia, que o seu sonho de menino estaria, tantos anos depois, irrealizado e nas mãos de um velho incompetente.

Início de "O destino bate à porta", de James M. Cain

"Eles me atiraram para fora do caminhão de feno lá pelo meio-dia. Eu tinha entrado no caminhão na noite anterior, perto do lago, depois da fronteira, e, assim que consegui me enfiar debaixo da lona, peguei no sono. Era o que eu bem precisava depois de três semanas em Tia Juana, quase sem dormir, e ainda estava roncando quando eles estacionaram para dar um tempo para esfriar o motor.Então, viram meu pé aparecendo e me puxaram para fora. Tentei fazer graça, mas os caras continuaram na deles, de modo que a piada não colou. Apesar de tudo, os sujeitos me deram um cigarro e eu comecei a andar pela estrada, procurando um lugar para comer."
(Tradução de Evelyn Kay Massaro, publicado pela Brasiliense.)

domingo, 24 de setembro de 2017

Se

Se mordesse logo no primeiro encontro, ao invés de trazer flores, o amor não seria o amor.

O ceifador

O amor mata os grandes poetas e às vezes até os nem tanto.

Norma

De vez em quando, o poeta deve falar de amor, para não pensarem que ele é sempre fútil em seus temas.

Confissão

Agora, que a idade te absolve de quase tudo, talvez tu possas admitir que foi a vaidade que te levou ao caminho da literatura.

Espaço

Cada um de nós é, de certo modo, histórico. Eu sou pré.

Na revista Rubem (www.rubem.wordpress.com)

Hoje eu falo de coisas de interesse muito duvidoso.

sábado, 23 de setembro de 2017

Rito de passagem

O pior que nos acontece quando nos tornamos adultos é que não podemos mais escrever só aquelas coisas bonitinhas.

Ora

Acho curioso dizerem que alguém se dedica inteiramente à literatura. Existe algum outro modo?

Amor antigo

Ser triste é, para mim, desde a adolescência, um compromisso. Era isso ou rir como os bocós.

A mágoa

O que me dói, mesmo, é duvidarem de minha tristeza.

No tranco

Alguns sofás custam a descobrir que sua vocação é a de servirem de afiadores de unha para o gato da casa.

Paizão

Nas histórias que conto, sempre arranjo um jeito de dar à tristeza o papel principal.

Lógica

Uma regra elementar de decoração é: o melhor sofá é o do gato. O resto se ajeita por si só.

Convicção

Mesmo quando se trata, como no meu caso, de uma vocação, ser triste é às vezes cansativo e exige certa força de vontade.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Traço essencial

É sempre com orgulho que me proclamo triste. Vejo nisso, não posso negar, minha única superioridade.

Aviso na porta

Não me venha com histórias tristes. Não consigo dar conta nem das minhas.

Hipótese

Se escrever fosse ao menos considerado um vício - e curável.

Reconhecimento

Como és incompetente. Outro teria te destruído na metade do tempo.

Dívida

Espero que minha melancolia tenha raízes polonesas. Ela é o que tenho de mais autêntico.

Mania

Minha tristeza é daquelas que só aparecem à janela em tardes de chuva.

Bicho do mato

Às vezes, gostaria que minha tristeza fosse um pouquinho mais sociável.

Antiguidades

Gosto de delicadeza na poesia. Sou antigo, preciso dizer? Quem, se não um velho, fala hoje em delicadeza? E em poesia?

Ainda que tardio

Um dia teu talento será reconhecido. Um dos teus netos, um homenzarrão de trinta anos, ou quarenta, encontrará aquela tua redação tão elogiada no tempo de colégio.

Literatura

Não se mate buscando a perfeição. Alguém já fez - ou fará - muito melhor que você.

Resumo

Sou todo mofo, menos aquela pequena parte de mim que ainda teima em não se resignar.

Majestade

O sol merecia ser um pavão, o mais vaidoso e performático de todos.

Sempre

A retórica sempre encontra um jeito de se pendurar no bico do passarinho quando ele vai iniciar o canto, com o pretexto de aprimorá-lo.

Sim, ou quase

Poesia talvez não seja o melhor que um homem pode fazer, mas é bem provável.

Volta

O caminho do poeta, por mais longo que seja, é sempre um retorno à simplicidade da infância.

Concretude (para Rose Marinho Prado)

Quando os frutos começaram a despencar sobre sua cabeça, o poeta concretista lamentou ter feito sua macieira com areia, tijolos e cimento.

Nenhum mais (para Silvia Galant François e Liberato Vieira da Cunha)

Nunca eu soube de outro poeta que, como Mario Quintana, andasse pela rua dizendo: não, obrigado, hoje não, quem sabe amanhã. Os passarinhos, mal o viam sair de casa, começavam a lhe oferecer canções.

Futuro

Um dia talvez eu aprenda a escrever. Aí será tarde.

Sempre, sempre, sempre

Escrever, escrever, escrever. Tem sido isso, todo o tempo. Quando você começou, era assim. Você não pressentiu que seria sempre assim? Escrever, escrever, escrever.

Dois terços

Chegou, soleníssimo. Tinha na mão direita a Constituição e, na esquerda,o Código Penal. Para ser uma pessoa jurídica perfeita, conviria que estivesse num tribunal, não num ponto de ônibus, e tivesse, pendurada no pescoço, a balança da Justiça.

Hoje no portal do Estadão...

... um capítulo da agradável vida em família.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/tudo-quase-otimo/

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Perfil sem retoques

Escrevo para agradar. Me empenho, me esfalfo, me mato. Se eu fosse um cão, seria o mais abjeto de todos, pior que o mais execrável dos homens. Um osso, por favor.

Educação artística

Orgulha-se de ter refinado sua tristeza com a literatura e a música.

Melancolia

Tem estado estranho. É capaz de chorar ouvindo um noturno de Chopin, e até sem ouvir música nenhuma.

Números

Não tem base estatística a afirmação de que as mais sinistras novelas policiais foram escritas com a mão esquerda.

Refúgio

As palavras difíceis, aquelas que nos fogem assim que as aprendemos, vão todas se esconder no dicionário.

Segundo turno

Falando com sinceridade, a esta altura de minha velhice já nem me importa ser um bom escritor. Bastaria que os leitores assim me imaginassem.

Item dispensável

A enfermeira contratada pela família do escritor setuagenário cuida dele há uma semana e tem achado muito fácil o trabalho. A maior parte das tardes ele passa no sofá. Quando acorda dos cochilos, pede só um chá morninho, os óculos e o jornal. No primeiro dia perguntou se ela poderia ir buscar o estilo, mas, porque ela não sabia o que era, ele se resignou e não repetiu o pedido.

Fortuna poética

No auge da carreira, o poeta parnasiano gabava-se de ter mais de cem cisnes no acervo.

A sombra (para Henrique Fendrich)

A mais abominável companhia que um homem pode ter é a de um escritor. Se o escritor for ele, pior ainda.

Luíses (para Liberato Vieira da Cunha)

Quem nasce para Luís Ferrabrás
ou para Luís Ladravaz
não chega nunca a Luís Vaz.

Vira-casacas

Quem descamba para o humorismo são, geralmente, aqueles que não veem mais futuro na tristeza.

Habilitação (para Rose Marinho Prado)

As provas para um poeta demonstrar sua autenticidade deveriam ser mais simples. Uma delas poderia consistir em verter para um soneto clássico, em quinze minutos, um poema concretista de dois metros e meio.

Comme il faut

O lançamento de uma antologia de poetas bissextos só pode ser legítimo se for feito num dia 31 de fevereiro - se bem que 32 fosse o ideal.

Iniciação (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Aos manuais de estilo só deveriam ter acesso os leitores que já houvessem demonstrado desvios de conduta próprios da abominável classe dos escritores.

Primeiro capítulo (para Inês Pedrosa)

Escrever é como tudo na vida: dar o primeiro passo e esperar que Deus aprecie frases tolas.

"Na mão de Deus", de Antero de Quental

"Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo, vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!"

(Extraído da coleção Nossos Clássicos, Livraria Agir Editora.)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Atualização

Hoje, a frase de Buffon seria: "O estilo é o homem, e a mulher é a literatura."

Physique du rôle

Às vezes até eu acho ter certo jeito de escritor.

Bula (para Ana Farrah Baunilha)

O amor ainda é remédio que se receite, desde que nos deixe gozar todas as contraindicações.

Composição escolar

São Paulo é aquela cidade onde mora o Corinthians.

Conjunto Nacional

Foi atingido pela beleza na escada rolante do  metrô. Se quisesse diminuir aquilo, como costuma fazer com tudo que lhe ocorre, diria que foi o sol nos olhos, no fundo nada mais que isso, nada que pudesse ser comparado a um instante de ouro ou uma cintilação. Estava na Paulista, e era espantoso que o milagre da poesia se revelasse a ele num lugar tão prosaico. Sorriu ao chegar ao topo da escada. Se tivesse pensado em voar, conseguiria.

Poesia (para Celina Portocarrero)

Feliz pode não ser o termo. Aliviado, quem sabe. Parece que começam a compreender sua tristeza. Talvez esteja aprendendo a usar as palavras. Pode ser que poesia seja isso.

Missão (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Nos dias em que não tem nada para escrever, escreve qualquer coisa. Atingiu a autossuficiência daquelas árvores que, mesmo quando não têm um fruto a oferecer, balançam seus galhos, sob o pretexto de que o vento as fustiga.

A verdade (para Silvana Guimarães)

Poesia propriamente nenhuma.
Fiz só poses de poeta
No tempo em que todos
Precisavam ter uma.

Síndrome de Borges

Em 2013 uma canadense ganhou o Nobel de Literatura. Não foi Margaret Atwood.

O sonho

Teve o sonho há uma semana. Acha que ele se repetira, quer que se repita, e, como se fosse uma incitação, vai rememorando os detalhes. Está diante de um prédio, à noite. Não há uma luz acesa. Acende-se uma, no terceiro ou quarto andar. Como se fosse um filme e houvesse um corte, ele se vê num apartamento, dançando com uma mulher. Ela o beija e lhe oferece uma bebida. Ele pega o copo e, na cena seguinte, está fora do prédio, agora completamente escuro, e se afasta. Na próxima vez, prolongará o beijo, não aceitará a bebida e continuará dançando, como se o sonho, chegando a esse ponto, não pudesse ir a mais ponto nenhum.

A causa

Penso, ainda hoje, que todos os meus infortúnios tiveram como origem a minha malograda tentativa de ser poeta. Foi há muito tempo, muito. Até agora não consegui melhor desculpa.

Sete versos de Margaret Atwood

"Ao observar o poeta - o poeta conhecido -
saquear suas entranhas, expondo
todo seu estoque de pensamentos destrutivos
e vergonhosas lascívias,
seus ódios rançosos, suas ambições fracas mas estridentes,
você não sabe se sente desdém ou gratidão:
ele está fazendo nossa confissão por nós."
(Do poema "Leitura de poesia", do livro A porta, tradução de Adriana Lisboa, publicado pela Rocco.)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Declaração

Eu gostaria, sim, de ser um símbolo sexual. Tentaria, até, ser verossímil, como tentei quando quis ser poeta.

O maligno

Se alguém ainda me instiga é o Diabo. Ele vem e sugere que eu feche os olhos e me solte. Um segundo depois me vejo em bordéis onde mulheres nuas dançam com sapatos de salto altíssimo e, quando me notam, me chamam como lobas: Raul, Raul, Raul. Eu corro para elas e, ao chegar ao centro do palco, estou de alpargatas - nu também, e feliz como um garoto no seu primeiro dia de praia.

Literal

Hoje o que lhe causa prazer são as palavras: seios, coxas, umbigos, lábios, nucas. Ele se deleita com elas. Deleitar-se é o termo exato. Tem a ver com líquido, espuma, borbulhas, leite, mornidão.

Sabedoria

Entre um poeta gordalhufo e um poeta magricelo, as mulheres costumam preferir um personal trainer ou um jogador de futebol.

Definições (para Ana Farrah Baunilha)

Nem sempre o amor é só química, como dizem. Às vezes é só física e trabalhos manuais.

Justiça

Pode-se achar que não é sincero quem se diz abjeto, reles e asqueroso, mas convém louvar o capricho com que escolhe seus sinônimos.

E se...? (Para Ana Farrah Baunilha)

Tenho medo de chegar ao Inferno e fazerem pouco dos meus pecados.

Prenda de anos (para Inês Pedrosa)

Inês, é hoje, então? Bem senti que a brisa queria dizer-me algo. Como podes ter um amigo assim velhote e mouco?

Marlene Dietrich (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

De uns tempos para cá lhe surge em sonhos uma vampira deliciosamente loira, como Marlene Dietrich, que vestida de corista dança e canta para ele um fox cheio de erres arrepiantes e exibindo maravilhosos dentes diz que vai devorá-lo. Nessa hora ele sempre grita que não quer, que não vai deixar, e acorda decepcionadíssimo.

De bombacha

Se fosse em Porto Alegre se entenderia, mas é aqui, num casarão da Paulista, que vem aparecendo recentemente um fantasma que deixa na sala um cheiro de chimarrão e no ar um grito: "O povo quer de volta o Getúlio!"

Ritual

Ficou na ponta dos pés, olhou para o céu, disse Deus me ajude, fez o sinal da cruz e atirou-se na piscina.

História dos três ratinhos (para o Gianluca e a Nicole Drewnick)

Eram três ratinhos. O primeiro morreu de fome, o segundo de sede. O terceiro teve o fim mais óbvio: foi almoçado pelo gato da casa.

Transporte

Com o modernismo, os poetas desceram das nuvens e foram obrigados a usar condução.

Vice-deuses

Infinita é nossa presunção. Chegamos outro dia ao planeta e já nos achamos responsáveis pela sua sobrevivência - ou por sua destruição.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Documentário

Nos anos finais, José Saramago parecia um leão exibido pelos circos do mundo.

Medida

Nossos sonetos poderiam ser considerados até bons, se não tivessem chegado antes Shakespeare e Camões.

Poeminha urbano

Atirado à correnteza, o sofá,
Sem remos e sem destreza,
Não sabe se sobe ou desce o rio
Ou se escapa por um desvio.

Símiles

Somos da mesma laia.
Mereces também sobre a tua
O raio que em minha cabeça caia.

O trunfo (para Silvana Guimarães)

Sim, o que te poupou da morte
foi a tua poesia -
se é esse o nome que dás
a essas algaravias rimadas
com que os deuses
entre gargalhadas
pacificam a dispepsia.

Ceticismo

Se um passarinho pousar em sua ameixeira, não se entusiasme. Será certamente um daqueles que, pela aspereza do canto, são expulsos de todos os lugares, pelos homens e pelos próprios passarinhos.

O jeito

Cada um tem seu jeito de tentar parecer melhor ou menos insignificante do que é. Eu escolhi a literatura, embora as pessoas não tenham percebido.

domingo, 17 de setembro de 2017

Concurso

Depois da celebração magistral
ao ganhador principal
dos louvores
aos vice-ganhadores
e das referências interelogiosas
aos julgadores
chegará tua vez
e a de mais vinte e três -
os afagos genéricos
e as menções honrosas.

Pavor

E se Deus, no dia do Juízo Final, quando chegar tua vez, perguntar: "Este é então o homem dos sonetos?"

Uma frase do "Diário íntimo", de Henri-Frédéric Amiel

"É um alegre banquete, o banquete da borboleta que brinca e se alimenta nos prados. Ora, a alma também é uma borboleta."
(Tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicado pela É Realizações.)

sábado, 16 de setembro de 2017

No portal do Estadão

Uma crônica sobre cartas e cartomantes.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/intuicao-feminina/

Talião

Escrevamos, por que não?

Nossos amigos escrevem,
Nossos inimigos escrevem.

Por que abdicaremos nós
Ao direito de retaliação?

Um poema de Moacir Amâncio

"a nau aportará um dia neste cais
vazio sempre mas jamais de passageiros
todos à espera desse algum por tudo incerto
tanto a partida qual também toda chegada
seja amsterdã ou mesmo o bósforo
ainda recife pode ser constantinopla
onde seremos por demais talvez em rhodes
faremos lá a nossa língua e outras folhagens
entanto até jerusalém porto será
para os jamais desencontrados mal seguros
como se o mar um ladrilhado logos fosse
mas com porém lugar aberto a bambos pés
novos caminhos quando nunca sendo os mesmos
e os tantos olhos cegos a buscar navios."
(Do Caderno 2 do Estadão, 16/9/2017.)

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Lavoisier

Nada se perde,
tudo se transforma.
Pastichamos Shakespeare
com similar conteúdo
e semelhante forma.

Conselho

Não te preocupes em tornar tua literatura refinada. Com essa cara cretina que tens, o que os outros esperam de ti é o que tu mesmo esperas: nada.

Na forma da lei

Não nos censuremos por avaliar severamente os outros. Na maioria dos casos, ainda que não saibamos, pode tratar-se de legítima defesa.

Música à meia-noite

Talvez já se imponha uma fiscalização sobre a atividade dos fantasmas, principalmente daqueles que, em dupla, vêm perturbando o sono de famílias com cantorias sertanejas apresentadas sob o disfarce de canções medievais.

Autenticidade

Tudo bem, fantasmas são fantasmas. Eles têm status multissecular. Mas, francamente, esses que sem mais nem menos vão se apresentando como Shakespeare ou Dostoiévski me deixam tentado a lhes pedir o crachá.

Um pouco mais de Henri-Frédéric Amiel

"A minha indiferença é antes adquirida que original. O que é antigo em mim é a desesperança, e a reflexão preferida à ação. O mal de Hamlet é também o meu mal. É, igualmente, a tendência de uma grande parte dos pensadores alemães, e o fundo búdico da doutrina de Schopenhauer. O impulso animal e a vontade são inferiores ao pensamento."

"Que importa a opinião cega, o teu caráter desconhecido, as ingratidões sofridas? Tu não és obrigado a seguir os exemplos vulgares, nem a seres bem-sucedido. Faze o que deves, aconteça o que acontecer, Tens um testemunho, a tua consciência; e a tua consciência é Deus que te fala."

"Como triunfar do mau humor? Primeiro, pela humildade: quando se conhece a própria fraqueza, por que se irritar de a perceberem os outros? São pouco amáveis, sem dúvida, mas estão dentro da verdade. A seguir, pela reflexão: afinal de contas permanecemos o que somos, e se demasiado nos estimávamos, isso é apenas uma opinião a modificar; a incivilidade do próximo nos deixa tais como éramos. - Sobretudo pelo perdão: há somente um meio de não detestarmos os que nos fazem mal e são conosco injustos, é fazer-lhes o bem; vencemos a cólera pela benignidade; não os mudamos, a eles, com essa vitória sobre os nossos próprios sentimentos, mas dominamos a nós mesmos."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nunca (para Inês Pedrosa, Paula Giannini e Veronica Stigger)

Jovens, não creiam que os velhos possam ensinar-lhes a arte da literatura. Se a conhecessem, eles a encerrariam na mais inacessível das gavetas, aquela na qual estão os objetos que conquistaram em sua barganha com o Diabo.

Querelas (para Silvana Guimarães)

A mais inflamada polêmica entre os românticos e os concretistas consistiu em definir qual das correntes fez os mais belos (e os mais sólidos) castelos de areia. Enquanto isso, os simbolistas se ocupavam em salvar Ismália.

Impunidade

O poeta romântico e o concretista fizeram uma aposta para ver qual deles conseguirá produzir o melhor arco-íris em casa. Por muito menos se acendia o sagrado fogo da Inquisição.

Como seria

Se os merecêssemos, os poemas cairiam como frutos das árvores sobre nós quando nos deitássemos à sombra delas.

Alerta

A laboriosa classe dos fantasmas divulgou um comunicado em que alerta a população para os impostores que, em crescente número, vêm manchando a imagem dos seus associados.

Início de "O assassino cego", de Margaret Atwood

"Dez dias após o fim da guerra, minha irmã Laura despencou com o carro do alto de uma ponte. A ponte estava sendo consertada: ela passou direto pela placa de Perigo. O carro caiu de uma altura de trinta metros na ribanceira, batendo nas copas das árvores cheias de folhas novas, depois pegou fogo e rolou até o riacho lá no fundo. Pedaços da ponte caíram sobre ele. Não restou quase nada dele além de fragmentos carbonizados."
(Tradução de Léa Viveiros de Castro, publicação da Rocco.)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Luiz Gonzaga

A família começou a perder o medo do fantasma na meia-noite em que ele assobiou um baião.

Mas

Era um fantasma discreto. Não acordava o casal, dormia na sala. O problema era o bodum que deixava no sofá.

Quase 100%

Seria um fantasma silencioso, se não tropeçasse em cada degrau.

Pro verba

Quem não encheu a mala
sabe muito bem
como é difícil carregá-la.

Estilo (para Rose Marinho Prado)

Pela mania de rimarem tudo, os poetas românticos arranjaram para cada fantasma uma asma.

Vaudeville (para Luiz Carlos Cardoso, Regina Helena Paiva Ramos e Oswaldo Mendes)

Os mais folgados são os fantasmas que chegam, não cumprimentam e, dizendo que estão com frio, vão logo se enfiando na cama.

Fantasma histórico

Uma noite, entrou no quarto um fantasma de cachimbo e ceroula que parecia saído de uma comédia e fez três perguntas a Ismênia: se ali era Londres, se Winston Churchill morava lá e onde ficava o banheiro.

Desdetalhes

O fantasma assemelhava-se a Lima Barreto. Não falava tupi nem javanês.

Características

O último fantasma usava suspensórios e deixou no criado-mudo de Ismália um reclame da liquidação de móveis do Mappin.

Etiqueta

Os fantasmas antigos nunca chegavam antes da meia-noite e traziam seu próprio pijama.

Best seller

Minha ignorância é uma dessas de vigésima edição, revista e ampliada.

Sobre gatos

Escrever sobre gatos talvez não salve uma biografia, mas é sempre agradável.

Rumo

Não temos nada a dizer
Que já não esteja dito:
Esse rumo estreito, estrito,
Entre o viver e o morrer.

Retórica (para Inês Pedrosa)

Retórica é tudo aquilo que você julga ser necessário dizer quando não diz simplesmente que um passarinho voa.

Promessa

Se um dia eu vier a ser um desses alegres que andam por aí, deixarei crescer um bigodinho, para enfeitar meus sorrisos.

Mérito

Erisipela, se não fosse o que é, teria lugar assegurado entre as figuras gramaticais.

Despedida

A mãe, setenta e nove anos, olha com cautela para todos os lados e aperta amorosamente a bochecha do filho, cinquenta e nove: "Não é por você estar morto, você sabe. Eu gosto dos seus irmãos, mas você sempre foi o mais querido. Vá com Deus, Juninho."

"Manuscrito encontrado num livro de Joseph Conrad", de Jorge Luis Borges

"Nas terras trêmulas que exsudam o estio,
O dia é invisível de puro branco. O dia
É uma estria cruel numa gelosia,
Um fulgor nas praias e uma febre no sítio.

Mas a antiga noite é funda como um jarro
De água côncava. A água se abre a infinitos rastros,
E em canoas ociosas, de frente para os astros,
O homem mede o tempo livre com o cigarro.

A fumaça esmaece em cinza as constelações
Remotas. O imediato perde pré-história e nome.
O mundo é um par de ternas imprecisões.
O rio, o rio primeiro. O homem, o primeiro."
(De Obras completas, tradução de Josely Vianna Baptista, Editora Globo.)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Na revista Rubem

mais um capítulo de minha dispersão (www.rubem.wordpress.com).

Melhor nada (para Sabrynna Angel e Ana Farrah Baunilha)

Sobre o amor, é melhor ignorar que saber. Não deixar sob a guarda da memória nada que ela possa usar como suplício, quando vierem as tardes vazias.

Ideologia planaltina

Nunca estar com a esquerda
nem com a direita
nem com o centro.
Hoje como ontem
e amanhã como agora
estar sempre à espreita,
estar sempre dentro
para nunca estar fora.

Início de "Paraíso perdido", de James Hilton

"Tinham-se apagado os charutos e começava a apontar em nós aquela espécie de desilusão que de ordinário perturba antigos condiscípulos ao se encontrarem de novo, homens feitos, e descobrirem que já não existe entre eles a mesma afinidade."
(Tradução de Francisco Machado Vila e Leonel Vallandro, Editora Abril.)

domingo, 10 de setembro de 2017

Lacuna

Um sofá sem um gato dá sempre certa impressão de tristeza.

Marasmo

Todos os ismos
de tantos modernismos
são hoje um só
comodismo

Que instituições destruir,
que revoluções deflagrar?
Nas outras vezes havia burgueses
para espantar.

Frase de Henri-Frédéric Amiel

"Todos os grandes edifícios  religiosos ou políticos têm o crime por fundamento, a injustiça e a fraude por alvenaria e o sangue humano por cimento."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicado pela É Realizações.)

sábado, 9 de setembro de 2017

Marketing

A tristeza é hoje nele
a embalagem dourada
o rótulo
a marca registrada.

Filme

Pode haver dez gatos numa cena. Nenhum deles será coadjuvante.

Argumento

Como negar que os gatos são especiais? Que outro matador de passarinhos nós perdoaríamos com tanta facilidade?

Corpo e alma

Ela pensou que ele quisesse o seu corpo
e sem piedade
em nome de um recente pudor o negou
e da imemorial castidade.

Depois ela pensou ser sua alma que ele quisesse
e premeditando também recusá-la
se pôs cinicamente a valorizá-la -
como se a tivesse.

Frases de "Diário íntimo", de Henri-Frédéric Amiel

"Vestir luto por si próprio é ainda uma vaidade; só devemos lamentar a perda do que vale, e lamentar a perda de si próprio é demonstrar, sem saber, que nos dávamos importância."

"Toleramos os outros, por que não tolerar a nós mesmos?"

"No leito de morte, não deve mais o espírito ver senão as coisas eternas."

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Desperdício

Por muito tempo me empenhei, quase ferozmente, em me autodepreciar. Que tolice! Que loucura! Que presunção! Sempre fui tão reles, tão ínfimo, tão nada. O que mais eu queria alcançar na escala da insignificância?

Nada além

Pragmaticamente considerada, uma morte é apenas o resultado de uma série, lógica ou não, de acontecimentos.

Desatualização

Sou um desses mortos lentos. Disseram-me hoje (praticamente me garantiram) que morri em 2010.

Hoje no portal do Estadão

falo de rostos e caricaturas.

Virtude

Chamarem-me de poeta é algo que já há algum tempo eu venho considerando indício de ainda não estar de todo extinta a generosidade.

Grau de pureza

Os melhores poemas, os mais puros, costumam ser aqueles bem curtos, nos quais a retórica não encontra espaço para a sua costumeira contaminação.

Autoavaliação

Sou um velho impertinente que me aturo cada vez menos.

Início de "O deserto dos tártaros", de Dino Buzzati

"Nomeado oficial, Giovanni Drogo deixou a cidade numa manhã de setembro para alcançar o forte Bastiani, seu primeiro destino.
Pediu que o acordassem de noite ainda  e vestiu pela primeira vez o uniforme de tenente. Quando terminou, olhou-se no espelho, à luz de um lampião de querosene, mas sem sentir a alegria que imaginava. Na casa reinava um grande silêncio, ouviam-se apenas vagos rumores vindos do quarto vizinho; sua mãe estava se levantando para despedir-se dele."
(Tradução de Aurora Fornoni Brenardini e Homero Freitas de Andrade, Editora Nova Fronteira.)



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Exação

Há tantos ladrões hoje, por aí, que qualquer levantamento sério exige pelo menos uma recontagem.

Nova fase

Agora escrevo pouco para não desagradar muito.

CLT

No feriado minha tristeza merecia ganhar dobrado.

Linhagem

Dos cisnes parnasianos
dois e meio em cada três
dançavam balé
e falavam francês.

Pauta

O ideal é você escrever textos que lhe deem a impressão de feitos por um garoto de quinze anos sem nenhuma vocação ou pretensão literárias. Textos que falem de coisas miúdas ou, de preferência, de coisa nenhuma.

Comodidade

Se você já tivesse morrido, não precisaria mais pensar no assunto.

Início de "O que é isso, companheiro?", de Fernando Gabeira

"Irarrazabal chama-se a rua por onde caminhávamos em setembro. É um nome inesquecível porque jamais conseguimos pronunciá-lo corretamente em espanhol e  porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminhão cheio de cadáveres. Era um tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da Praça Nunoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher."
(Editora Codecri.)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sem dúvida

Mãos ao alto é uma das mais inequívocas frases de efeito.

Bloguerias

Todos nós, hoje, temos um blog, com exceção dos que têm dois ou mais.

Ser e não ser

Proclamar que uma rosa é bela não fará de você um poeta, mas certamente você estará dizendo o que alguns dos maiores poetas do mundo falaram dela.

Gentileza

A um morto não se negue o respeito devido a quem está à nossa frente na fila.

A cota

Cinco ou seis palavras diárias, hoje, me bastam. Se fizerem sentido, ótimo. Se louvarem um amor, que não seja um desses bisonhamente carnais.

Elo

A única relação que mantenho com a literatura é o fato de ter querido ser poeta.

Início de "O amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos

"Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Florêncio propôs, então, o nono, argumentando que esse talvez trouxesse uma solução geral."
(Editora Abril.)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cotação do dia

Dou-me importância demais, eu sei. É um vício antigo, quase um defeito de nascença, como se eu pertencesse a uma família de aristocratas.

Belle époque

Na sua época áurea, os românticos tinham cartões em que se declaravam poetas. Com eles, as flores que compravam a crédito e os versos apaixonados, conquistavam muitas mulheres célebres, se bem que não todas as que diziam.

O prêmio

Para os escritores, especialmente os poetas, um bom prêmio, depois de um dia de trabalho, seria um prato de sopa e umas fatias de pão. Falando simbolicamente, é claro.

Manoel de Barros

Uma impressão que tenho é a de que Manoel de Barros rabiscava os poemas em tirinhas arrancadas do papel em que o pão vinha embrulhado e as colocava dentro de um açucareiro provavelmente vazio.

Circunstância

Nem todos os poetas de vanguarda tiveram a sorte de não ver o amadurecimento dos seus frutos.

Quilo certo

João Cabral não concordaria, mas a poesia parece feita sob medida para tipos amalucados como os poetas.

Circo

Prestigiei-me, por que não?
Permitiram-me opinar
E eu, sem pudor nem tardar,
Me empreguei como bufão.

Anamnese

O que escrevo diariamente poderia ter algum valor se fossem anotações destinadas ao estudo psicanalítico de uma personalidade ora afogada na autonegação, ora entregue a delírios de glória.
Quase me envergonho daquilo que tenho de racional. Felizmente é pouco. Devo, preciso ser, só emoção. Fui feito para berrar, gemer, me lastimar. Sou uma dessas criaturas nascidas para despertar culpa nas outras. Faço com que se sintam responsáveis por mim e por meu sofrimento, e tenham o ímpeto de me puxar para o colo. Nisso há talvez um tanto de premeditação, mas muito mais de intuição. Até dormindo induzo ao remorso

De gatos

Me agradaria escrever sobre gatos. Só sobre gatos. Sei que me abominariam: tantas crianças sofrendo no mundo, e eu indiferente? Pois bem, eu escreveria sobre gatos que sofrem. E há tantos no mundo. Saberemos nós quantos?

De Ruy Castro, sobre Betty Faria

"O lado general de Betty não pode ser minimizado: criada praticamente na caserna, ela derrotou o tabu da virgindade, de trabalhar no que gostava, casar sem se casar, posar nua, criar filho sozinha, jamais esconder a idade e, já madura, namorar rapazes trinta anos mais jovens. E nunca bateu continência para ninguém."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ignorância seletiva

Sou tão desatualizado quanto a maioria das pessoas, mas escolho assuntos mais interessantes.

Mestre

Woody Allen é o melhor antologista de Nova York.

Soemos (para Silvia Galant Franços)

Como a folhagem de uma árvore, não nos neguemos a soar a cada toque da brisa. Não tenhamos a pretensão de ser juízes da beleza. Soemos sempre, sem ardis nem premeditações. Sejamos como deve ser um instrumento.

Preparativos

Gastemos nossas interjeições de ódio, repulsa, rancor. Livremo-nos do fogo que temos acumulado com zelo de agiota. Guardemos, para levá-las em nossa última viagem, só palavras que exprimam a beleza que talvez ali encontraremos.

Vantagens (para Celina Portocarrero e Marisa Lajolo)

Uma mente infantil eu não sei, mas um coração juvenil é uma bênção para um poeta, em qualquer idade.

Decepção

Desistiu de entender a gramática ao descobrir que, contra a lógica, os chamados vícios de linguagem não eram os palavrões.

Instrumento fiel

Que haja algo para ser escrito amanhã, que eu o escreva e não veja desdém em nenhuma das palavras, depois de fixar a última no texto.

Qualificação

Sofrer é um exercício pelo qual a alma deve passar continuamente, para poder ser útil ao poeta quando ele a chamar. Almas alegrinhas são indicadas só para aldeões e sanfoneiros.

Negócio (para Luciana Nobre)

Quando  morrermos, quem assumirá a gerência da fábrica de sonetos e responderá às manifestações de protesto?

Temeridade

Não acredito que alguém tenha tido coragem de dizer a Jorge Luis Borges que o melhor da festa é esperar por ela.

Num alfarrábio

Uma frase de Deus, segundo uma fonte não identificada: "Pode ser que eu me engane, mas..."

Mario Quintana

Não sei o que Bilac dizia quando conversava com as estrelas, mas posso imaginar pelo menos uma das frases que Mario Quintana cochichava para elas: "Que sorte vocês têm de estar no céu de Porto Alegre!"

Praticidade

Os concretistas costumavam manter, no local dos seus poemas, um plantão de vendas.

Grandeza (para Rose Marinho Prado)

Depois de ter um poema seu definido como colosso por um crítico, o concretista disse que estava preparando um mais monumental ainda, de três andares.

Conceito

Obscurantistas são os escritores que tapam o sol com a peneira.

Item

Eu já deveria ter aprendido que a persistência, mesmo que seja uma de seis décadas, não garante, por si só, a qualidade da poesia.

Profissão de fé

Minha energia, toda essa pouquíssima que ainda tenho, está concentrada em escrever. É um exagero dizer que vivo para isso, mas eu digo, com plena honestidade. Não significa que eu me considere um artista. Significa que mantenho essa aspiração, quase tão antiga quanto eu mesmo, e me orgulho dela, apesar de todos os risos que com essa paixão possa provocar.

Início de "Perturbação", de Thomas Bernhardt

"No dia 26 meu pai saiu às duas da madrugada para visitar em Salla um professor que encontrou moribundo e deixou já morto, voltando a sair em seguida para Hillberg, a fim de tratar ali de um menino que, na primavera, tinha caído numa gamela cheia de água fervendo e que agora, tendo recebido alta no hospital, estava há várias semanas em casa com os pais."
(Tradução de Hans Peter Welfer e José Laurenio de Melo, publicado pela Rocco.)

domingo, 3 de setembro de 2017

O início (para Alexandre Brandão)

Naquela noite, descobri que não havia tantas estrelas quantas diziam haver os românticos e que a lua, bem observada, tinha manchas, como os pulmões de um fumante condenado. Foi aí que começaram a me assediar as ideias de suicídio.

Permissão

Que ninguém se aproxime de mim, a não ser com intenções estritamente amorosas.

Dedicação plena

Está disponível para o amor todos os dias - dia sim dia sim.

Autoanálise

Ele se considera um lacaio que não merece a honra. Nunca recebeu uma moeda a mais do rei ou afago da rainha para não revelar certos segredos.

Avanço

Depois que assumiram a forma esférica como legítima alternativa, os concretistas passaram a escoar mais rapidamente a produção.

Metamorfose (para Alexandre Brandão)

Os poetas antigos só precisavam dar conta de poucas e pequenas coisas: flores, passarinhos, o simbolismo de um cisne num lago escuro ou de um violino soando à meia-noite numa casa onde jamais houve algum. Depois, decidiu-se que os novos tempos exigiam algo mais dos poetas. E eles se armaram de escudos contra essas tentações fáceis. Hoje são todos prósperos prosadores e usam expressões como carpintaria do texto.

Compreensão

Um dia alguém nos entenderá, talvez. E compreenderá por que há tanto tempo nos execramos.

Maturidade

A literatura é um sonho esdrúxulo que alguns adolescentes mantêm até o fim da vida.

Resolução

Estou velho demais para começar a aprender seja lá o que for. Preciso continuar fingindo que acredito em mim como poeta.

Gravidade (para Rose Marinho Prado)

Poemas concretos não caem do céu. Felizmente.

Prioridade

A primeira escolha dos poetas românticos não era viver pelo amor. Era morrer por ele.

Divisão de tarefas (para Silvana Guimarães)

Os poetas parnasianos entravam com o lago, o cisne e a lua. Os leitores, com o estoicismo.

Regulamento

Aos domingos, certos poetas deveriam, por norma escrita, abster-se de seu ofício, ainda que relutassem em cumpri-la. Não tanto para terem um descanso, mas para poupar os leitores.

Lógica

Se todos nós fôssemos mesmo poetas, o Brasil seria a maior poetaria do mundo.

De Ruy Castro, sobre Ivan Lessa

"Nasceu em São Paulo, mas saiu de lá aos sete anos, com péssima impressão de um sujeito de óculos chamado Mário de Andrade, que se sentava a sua mesa na lanchonete e ficava de olho no seu frapê de coco."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

sábado, 2 de setembro de 2017

Quanto valho

Venho desfazendo de mim desde a adolescência. Hoje, rascunhando um balanço que imagino ser o definitivo, descobri que não fui justo. Deveria ter desfeito um pouco mais. Deveria ter começado antes.

Arrependimento

Se eu houvesse sido um pouco menos ridículo... As pessoas têm cada vez melhor memória. O que dizem de mim? O que dirão quando eu estiver morto?

Como se fosse

Eu gostaria de ter outro rosto, que não fosse tão incompatível com a ideia que se costuma ter dos poetas, se eu ousasse me apresentar como um.

Desde há muito

Tenho pena de mim. É um sentimento antigo, que trago de minha infância desventurada. Com o tempo eu o venho aprimorando, em meu benefício.

Physique du rôle

Vi na infância um morto que parecia um general russo, com seu bigodão branco. Na verdade ele era fiscal da prefeitura. Chamava-se Ivan. Do sobrenome não me lembro. Alguma coisa como Ivanov ou Romanov. Ou Drewnick.

As boas frases

As boas frases são mais comuns do que se pensa. Algumas caem diariamente nos ônibus, como moedinhas, e às vezes não há ninguém que julgue valer a pena abaixar-se, para recolhê-las. Uma, dita hoje num celular, no Vila Morais: "Pelo andar da carruagem eu chego amanhã, se não morrer nenhum cavalo."

Ah, sim

O melhor caminho é quase sempre aquele que devíamos ter tomado quando escolhemos outro, dez ou vinte anos atrás.

Botânico

Apesar do que dizem os céticos, ao amor perfeito  talvez só falte um hífen.

14h30

Talvez não desagradasse ao morto ouvir as pragas que o carro fúnebre e os que o seguem começam a provocar, a dez quilômetros do cemitério.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Mario Quintana tinha dois jeitos principais de ser: um simples, muito simples; o outro, mais simples ainda.

Travessura terceiretária

Nada me dá maior prazer do que fechar os olhos e brincar de morrer.

Terminologia

Um psicanalista pode não resolver todos os nossos problemas, mas sempre dá um nome mais imponente a cada um deles.

Conduta

Um adjetivo honrado não deve andar na companhia de qualquer adjetivo, principalmente daqueles que têm hábitos noturnos.

Cotação do dia

De tanto ver nulidades triunfando, achamos que podemos também.

Bar errado

Um bêbado desconhecido entrou no velório, tropeçando. Empurrado e censurado por todos, equilibrou-se por um momento diante do morto: "E você? Você não diz nada, cidadão?"

Inconveniente

Uma pena: morto célebre não dá autógrafo.

Sobre odores (para Celina Portocarrero, Marisa Lajolo e Silvana Guimarães)

Pior poeta não é aquele cujas axilas exalam odor caprino. É aquele cujas axilas cheiram como rosas.

Sem queixa

Uma das dívidas deixadas pelo morto será paga até com satisfação pela família: o terno escuro com o qual foi enterrado, adquirido uma semana antes, sem que se suspeitasse como viria a ser útil para desmentir uma tradição de defuntos desmazelados.

Início de "Malone morre", de Samuel Beckett

"Logo enfim vou estar bem morto apesar de tudo. Talvez mês que vem. Vai ser abril ou maio. O ano ainda é uma criança, mil sinaizinhos me dizem. Quem sabe esteja errado, quem sabe consigo chegar até o dia da festa de São João Batista ou até mesmo o quatorze de julho, festa da liberdade. Qual o quê, sou bem capaz de durar até a Transfiguração, me conheço bem, ou até a Assunção."
(Tradução de Paulo Leminski, Editora Brasiliense.)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Do camelô, sobre a morte

Morrer não requer prática nem habilidade.

Opinião de estilista

Não há defunto que fique chique no verão.

Aviso

O humorista: só aceito morrer se for num 31 de fevereiro.

Prevenir

Enquanto é tempo, paremos de reparar na palidez dos defuntos, na sua barriga, na sua gravata. Que mania temos de lhes dar nota. Um dia seremos nós a atração.

Show

O defunto estava num dia feliz. Uma surpresa para parentes e amigos. Um irmão metido a poeta comentou: que carisma.

Falta de educação

Tudo se arranja para eles, aluga-se o local, põem-se flores, e quem diz que já viu um defunto agradecido?

Segurança pública (para Silvana Guimarães)

Mortos não escrevem trovas
Mas pelo sim pelo não
Tomemos a precaução
De serem fundas as covas.

Notinha gramatical

Paixão desmedida sempre me pareceu um pleonasmo.

Tradição

Das famílias reais costumam provir os defuntos com maior sucesso de público.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Que outro poeta, além de Mario Quintana, você acha que ficaria bem com um algodão-doce na mão?

Do que estávamos falando

Se você teve infância, deve lembrar-se do que é amor.

Quarenta graus

O amor é uma dessas erupções que pipocam nos adolescentes.

Impressão

O defunto parece inquieto, como se esperasse o benefício da dúvida.

cem anos de paixão - raul drewnick

Tanto amor, tanto, desvairado, tresloucado, único.

Hoje no portal do Estadão

Faço variações em torno da palavra êxtase.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/em-torno-da-palavra-extase/

Arranha-céus

Alguns poemas concretos são mais arrogantes, às vezes, que o empinado nariz dos seus autores.

Amor, s.m.

Amor é uma palavra que teríamos pronunciado menos, se conhecêssemos a indignidade de nossos lábios.

Réplicas

Depois dos vanguardistas
vêm os detratores
os oportunistas
e os colecionadores.

De Ruy Castro, sobre Paulo Francis

"Quando Francis era bom, era ótimo. Mas quando era mau, era melhor ainda."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Apocrifia

Ele é um lacaio de costas e ombros dilacerados, em cujas cicatrizes ninguém além dele identifica marcas de amor.

Notícia do dia

Continuo vivo. Abro a janela. Resta-me algum ânimo. Corações piedosos, tapem os ouvidos da poesia.

O que você quer (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

É isso que você quer? Isso mesmo? Isso que esses jovens dizem querer também? Olhe para você. Olhe para eles. Que incompetente deus concederia a um homem trôpego, de cujos lábios escorre essa baba bovina, o dom da poesia?

Cântico

Há um segredo
que os vivos ainda não
mas os mortos conhecerão.

Tarefa

Escrevamos alguma coisa, qualquer coisa. Por quê? Para quê? Fizemos essa pergunta ontem. Fizemos essa pergunta hoje. Escrevamos alguma coisa, qualquer coisa. Perguntemos novamente amanhã.

Incômodos (para Rose Marinho Prado)

Ainda não se definiu qual é o som mais irritante: se a tosse de um soneto parnasiano, se o guincho das dobradiças de um poema concreto.

Estilo

A sorte de Deus quando ciou o mundo foi não haver ainda, na época, um crítico de arte.

Método (para Aden Leonardo, Arlene Colucci e Tuca Kors)

Algumas palavras melhoram se, antes de passadas ao texto, recebem um afago: seda, cetim, brisa, gato.

Como ontem (para Alfredo Aquino)

Tenho sentido a tentação de escrever como quando estava com oito anos. Gastei a vida procurando palavras, assuntos, modos de dizer, e nunca achei melhor frase para definir o sol do que a primeira: o sol é bonito.

Meio ambiente (para Silvana Guimarães)

No estômago do pinguim
vedada ao mar e ao sol
uma embalagem de Andy Warhol.

Início de "O sonho dos heróis", de Adolfo Bioy Casares

"Ao longo de três dias e de três noites do carnaval de 1927, a vida de Emílio Gauna alcançou sua primeira e misteriosa culminância. Que alguém tenha previsto o terrível termo combinado e, de longe, tenha alterado o fluir dos acontecimentos é um ponto difícil de resolver. Decerto, uma solução que assinalasse um obscuro demiurgo como autor dos fatos que a pobre e apressada inteligência humana vagamente atribui ao destino, mais do que uma nova luz, acrescentaria um novo problema."
(Tradução de Andréa Ramal, José Olympio Editora.)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O teste

Um bom poema lírico deve suportar ser lido até sob o som de uma música junina tocada por um sanfoneiro exibicionista.

Na medida (para Moema Kuyumjian)

A maior conquista do sistema decimal foi o sanduíche de metro.

Faça isso

Abrace-me e me chame de seu gato. E não se desculpe. Deixe que eu decida se isso foi ridículo ou não. Mas antes me chame de novo de seu gato.

Ah, George (para Ana Farrah Baunilha)

Se eu fosse o George Clooney, não estaria ao relento. Você já teria me levado para a sua casa e me chamaria por um nome tão fofo quanto o do seu cachoreo mais querido.

Números

Este blog tem mais textos do que uma mente razoavelmente insana se orgulharia de produzir.

Juízo definitivo

A insatisfação com que me vejo é uma dessas que não admitem prova em contrário.

Resposta

No dia em que finalmente ela disse que sim, ele já não se lembrava do que tinha pedido.

Sequência

Para quem acredita em lógica e em continuidade, boa morte deve ser aquela que ocorre no meio de um cochilo.

Estágios

Apesar dos meus espasmos de ridículo humorismo, eu gostaria de ser considerado um escritor sério. Claro, para isso seria preciso admitir, primeiro, que eu seja um escritor.

Análise psicológica

Sem querer ser cômico, digo que minha vocação para morrer é tanta quanto minha aptidão para viver: nenhuma. Nos dois casos, falta-me força de vontade.

O oposto

Dizem que menosprezo o concretismo. Curioso. Duvido que alguém, nos últimos anos, tenha falado mais dele.

De Ruy Castro, sobre Angela Ro Ro

"Na opinião deste departamento, Angela Ro Ro foi o grande talento de uma turma de boas cantoras surgidas na mesma época, como Simone, Elba Ramalho, Fafá de Belém e Zizi Possi. Se tivesse investido em sua carreira metade da energia que aplicou em sofrer por namoradas, acordar a vizinhança e ser espancada por PMs - tudo isso regado a milhões de birinaites -, Ro Ro estaria há muito no poder. Mas, então, não seria Angela Ro Ro. E aposto que ela não se trocaria pelo sucesso de ninguém."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

De Will Gompertz, sobre a colagem

"Você se lembra das precárias criações que fazíamos nas aulas de arte na escola? Aquelas em que recortávamos coisas de revistas e jornais e as colávamos num pedaço de cartolina? Parecia tão óbvio, tão fácil, tão infantil. Mas antes de Braque e Picasso ninguém, absolutamente ninguém, tinha pensado nisso como um forma de arte. Sim, as pessoas já tinham feito recortes e os prendido em alguma outra coisa - coleções de lembranças num livro de recortes, por exemplo. Os antigos chegavam até a decorar suas pinturas com joias, e Degas enrolou um pedaço de musselina e seda no corpo de sua escultura Bailarina de 14 anos (1880-81). Mas a ideia de que materiais corriqueiros e ordinários podiam ser usados no altar sagrado do cavalete do artista era totalmente nova."
(Do livro Isso é arte?, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, publicado pela Zahar.)

Futuro artístico

Creio que eu estaria mais próximo da arte se parasse imediatamente de escrever e me pendurasse como um leitão num açougue pelo qual costume passar um desses meninos ou uma dessas garotas que tiram fotos de segunda a sexta e as expõem no sábado e no domingo.

Datas

Em 29 de agosto de 2017 ele vê o Nobel mais distante do que em 20 de dezembro de 1957, quando começou a ambicionar o prêmio e o fixou como meta depois de ganhar um concurso de contos da associação de moradores do bairro de Vila Nova Cachoeirinha.

A causa real

Como você se sentiu quando lhe disseram que suas lágrimas só eram aceitas, quando eram, mais por educação que por compaixão?

Confissão

Sou ambicioso e persistente. Desde a infância, venho tentando convencer-me de que a minha é a mais preciosa de todas as tristezas.

História (para Inês Pedrosa)

O menino Jorge Luis Borges esperou a vida inteira pela visita de Papai Nobel.

Crença (para Alfredo Aquino e Chico Resende)

Há quem espere ainda, ano a ano, a visita de Papai Nobel.

Tal pai

Este blog está para completar oito anos. O que posso dizer dele? Que pai falará mal de seu filho? Ele talvez não me represente, mas não me nega. É ingênuo como eu. Ingênuo é, obviamente, um eufemismo. O que ele é, mesmo, é - Deus me perdoe - um tonto, um sonso, um idiota.

Deturpação

A mosca pousa na tela
e a natureza-morta
não é mais aquela.

Honra ao mérito

Foram os concretistas os que primeiro tentaram a quadratura do círculo.

Característica (para Rose Marinho Prado)

Um concretista não tem estilo, tem impressões digitais.

Lançamento

O concretista espatifou a garrafa de champanhe no poema e ordenou: "Fala!"

Afronta

O concretista indignou-se quando um leitor lhe perguntou se usava materiais de primeira.

Do livro "Isso é arte?", de Will Gompertz

Roger Fry, sobre o pós-impressionismo:
"É a descoberta da linguagem visual da imaginação."

Camille Pissarro, sobre Vincent Van Gogh:
"Muitas vezes eu disse que esse homem iria ou enlouquecer ou nos ultrapassar. Não pensei que faria as duas coisas."

(Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, publicado pela Zahar.)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Trumpiana (para Rose Marinho Prado)

Um concretista não faz muito. Dois fazem pouco. Três podem fazer um muro.

Falha inicial

Se Deus tivesse tido um assessor parnasiano, o mundo não estaria precisando de tantos retoques.

Noturno

Esta noite o poeta concretista teve um sonho romântico: transportava a amada num carrinho de pedreiro, num estrelado canteiro de obras.

Datação

As flores de plástico foram introduzidas na literatura pelos poetas concretistas.

Proporção

Diz que Deus é responsável por 60% do valor daquilo que escreve, quando se trata de prosa. Quando é poesia, atribui à inspiração divina 40%. Se lhe perguntam a razão dessa diferença, explica: "Ele não está se adaptando muito bem ao modernismo."

Porcentagem

Dos dez escritores aos quais se fez a pergunta, três disseram que não matariam a mãe para ganhar o Nobel e um pediu um tempo para pensar.

Inocuidade

Toda poesia hoje
para mim seria
como a pulseira santificada
que a avó mandou
e por ação inadequada
ou omissão do correio
chagou só a tempo
de ser usada
pela neta doente
dentro do caixão.

Lema parnasiano

Pompa, em qualquer circunstância.

Ideal

Poeta maldito deveria ser um pleonasmo.

O único

Nas novelas policiais ninguém, a não ser o mordomo, se sente muito seguro.

Desejo oculto

Quer ser um desses defuntos que param o trânsito como os semáforos enguiçados e as inundações.

Possibilidades

Alguns defuntos se impressionariam com o necrológio publicado no dia seguinte pelos jornais, se não estivessem mortos e soubessem ler.

Página virada

O melhor de ganhar o Nobel é não precisar mais cobiçá-lo.

Prêmio

Para dizer a verdade, o Nobel nos importa tanto quanto o Jabuti: muito.

Tanto melhor

Os mais perfeitos imitadores de Fernando Pessoa são os que nem chegam a tentar.

Ofício

Teoricamente, cada um de nós faz o que Machado de Assis fazia.

Sem remédio

Sou muito burro e estou velho demais para procurar essas pessoas que ensinam outras a escrever.

O caminho

Se você for um frango com pretensões artísticas, vá aconselhar-se com um poeta condoreiro.

Obviedade

Mencionar a solidez dos poemas concretos é uma coisa que nem os críticos mais novatos fazem.

Traços

Os poetas concretistas são (quase todos) engenheiros inacabados e o Lego foi (para alguns ainda é) o brinquedo predileto.

Semelhança

Há escritores que mais parecem cabeleireiros: vivem penteando o texto.

Ainda

Talvez eu ainda tenha algo a dar: os gemidos da hora final, quem sabe mais convincentes do que todos os anteriores, livres da retórica que acreditei ser a essência da literatura.

Início de "A festa do bode", de Mario Vargas Llosa

"Urania. Seus pais não lhe haviam feito nenhum favor. Seu nome dava ideia de um planeta., um mineral, de tudo, menos da mulher alta e magra, traços finos, pele brilhante e grandes olhos escuros, tristonhos, que o espelho refletia. Urania!"
(Tradução de Wladir Dupont, Editora Mandarim.)

domingo, 27 de agosto de 2017

Soneto do fruto tantas vezes negado (versão final)

Hoje afinal compreendemos
Que jamais termos provado
O gosto do amor negado
É uma vantagem que temos.

Agora ciência detemos
De que o fruto desejado
Tinha sido mordiscado
Por quantos não saberemos.

Louvemos quem nos magoou
Quando beijos recusou
À fome de nossos lábios.

Quem nos diz que apreciaríamos
O gosto, que sentiríamos,
De Ândersons, Ivos e Fábios?

Hoje na revista Rubem,

falo de farelos e similares.
https://rubem.wordpress.com/2017/08/27/sobre-uma-porcao-de-coisas-raul-drewnick-2/

Costume

Com a internet, todos nós nos vimos obrigados a ter uma opinião formada. Ou deformada.

Expressão asquerosa

Eles vivem maritalmente.

O instrumento

Deixa dormir teu violino. Que ele esteja pronto para os dias de tristeza. Para a alegria - esse camponês embriagado pelo mais barato dos vinhos -, serve esse tambor persistente, encantado com seu som: tum, tum, tum.

Relatos (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Não poucas rainhas, algumas insuperavelmente belas, traíram seus reis para se entregar a poetas - segundo os próprios poetas.

Opinião

Alguns críticos, talvez com certa ironia, comparam a fase inicial do concretismo às manifestações artísticas da Idade da Pedra Lascada.

Cronica forense

Em mais de um caso, peritos criminais classificaram poemas concretos como objetos perfurocortantes.

O toque (para Rose Marinho Prado)

Creio que, se tocada, a pedra fundamental do concretismo possa provocar algo mais que coceira na mão de quem tem a ventura de tocá-la. Mas não é uma crença muito forte.

Velho Will (para Henrique Fendrich)

Tenho algum conhecimento de literatura - o suficiente para saber que só me aproximarei de Shakespeare em momentos como este, em que o procuro na estante.

Dissipação

Que Deus me salve:
na minha última bebedeira
tomei rum com uma caveira
que parecia Castro Alves.

Empenho

Para ser um poeta romântico
fiz tudo que pude:
melhorei as rimas
e píorei a saúde.

Vende-se

Um poema concretista espetacular
com excelente vista -
de frente para o mar.

Excesso

Num haicai, um adjetivo já é retórica.

Estocolmo (para Alfredo Aquino e Mariana Ianelli)

No sonho, ele estava recebendo o Nobel. Um senhor corado, aparentemente sueco, enaltecera a excelência de sua poesia, sublinhara a circunstância de que era o primeiro brasileiro a conquistar o prêmio e, dirigindo-se diretamente a ele, o parabenizou, sob uma explosão de palmas. Foi nesse momento que ele acordou, confuso, sentindo-se como se pudesse levitar. Tinha sido chamado de Paulo Coelho.

Tête à tête

Quando estou comigo, às vezes reconheço, a contragosto, que nunca mereci nem metade de tudo aquilo que, por achar-me credor, eu exigi dos outros.

Danuza Leão, vista por Ruy Castro

"Uma mulher para todas as estações. Um gênero em si. Uma lenda. A independência em pessoa. A verdadeira musa de Ipanema. Uma mulher sempre à frente de seu tempo."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

sábado, 26 de agosto de 2017

Afinco (para Rose Marinho Prado)

Tijolinho a tijolinho
construíram haroldo e augusto
seu castelinho.

Prodígio (para Mariana Ianelli)

Um toque de João Cabral, e a pedra se reconhecia capaz de poesia.

Oráculo (para Silvana Guimarães)

Rejeitareis a poesia -
e a poesia morrerá.
Conquistareis a verdade -
e a verdade vos entediará.

Astenia

Que tipo de poesia se pode esperar quando ela é prometida pelos lábios murchos de um velho? Que música há de oferecer a ameixeira se os passarinhos a desertarem e não a tocar a brisa?

Consciência

Sentado no sofá com o gato, ao velho ocorre um desses pensamentos que só a maturidade traz: dos três, o menos importante é ele.

Coerência

Considerava-se tão inferior que só não se matava por temer que achassem seu suicídio um ato de extrema presunção.

Valor

Tenho tão baixa estima por mim que, se me chamarem de medíocre, tomarei isso como elogio.

Inaptidão

Era um parnasiano bisonho, indigno de alimentar, ainda que por um dia só, as pombas de Raimundo Correia.

Limite

Um homem não deve ser jamais tão idiota que cheguem a pensar na hipótese de ele ser poeta.

Diferença

Antigamente, todos os poetas, pelo menos nas entrevistas, diziam ser movidos pelo ideal. E alguns falavam com sinceridade.

Musa

O concretista prometeu à amada um poema com três quartos e piscina.

Talento

Convenhamos: ninguém fez maquetes melhores que as dos concretistas.

De Ruy Castro, sobre Arnaldo Jabor

"Diante da câmera, Jabor não se envergonha de misturar Marx, Freud e Chacrinha para exercer sua histórica impaciência para com o que considera burrice da esquerda, da direita e do centro."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Os nomes (para Rose Marinho Prado)

augustos haroldos
sólidos artistas
concretos tribalistas
à emoção imunes
arnaldos antunes
sujeitos objetos
assassinos do lirismo
e do romantismo
todos confessos
todos impunes.

... e em bom som (para Rose Marinho Prado)

Com presunção e calma
o concretista declarou:
não tenho esse negócio de alma.

Fim (para Raul Drewnick)

Triste o espetáculo dos poetas velhos que, metidos a declamar, transformam rosas em perdigotos.

Para que (p/ Rose Marinho Prado)

Para que não me caiam mais rosas murchas dos lábios quando falo de poesia.

Questão de gosto

Que meus despojos sejam removidos, de preferência, por uma mulher.

Uma lembrança do "Estadão"

No portal conto hoje três histórias e falo de Décio de Almeida Prado.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/dr-decio-em-tres-atos/

3x4

Fecho-me em mim.
Para os outros sou pleno morto
Ou quase todo, assim.

Solidez

As bases do concretismo
não são emoção nem sentimento.
São cálculos, planilhas, projeções,
areia, tijolos e cimento.

Frase de Lucio Cardoso

"Não sou um escritor, sou uma atmosfera."
(Do livro Ela é carioca, de Ruy Castro, publicado pela Companhia das Letras.)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Pressentimento

Ela faz entrar o homem e o beija. O gato põe-se a rasgar preventivamente o sofá.

Lição (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Para ser acolhido, o menino aprendeu: em vez de tocar as campainhas, arranha as portas e late.

Passarinhões (para Silvia Galant François)

Alguns passarinhos cantavam ao ver Mario Quintana. Outros, os estragados pelo romantismo, gorjeavam presunçosamente.

Aleluia

Que bênção eu não ter tido um gato, na época em que você chegou e foi matando um a um meus sonhos, e depois, uma a uma, até minhas mais prosaicas realidades.

Quem?

Quem dirá a um respeitável senhor que respeitável senhor é só um lugar-comum?

Registro estatístico (para Rose Marinho Prado)

Mais que os demais,
os poemas concretos sofrem
a fadiga dos materiais.

Quando

Que sejam as mãos, os olhos, os lábios. Haverá sempre algum motivo para lançar-lhes culpa. Que não seja seu coração - cujo único pecado talvez tenha sido o da ingenuidade - o primeiro a exalar o odor da morte, quando ela vier fazer sua inevitável visita.

Sonhos (para Ana Farrah Baunilha)

Tenho alma de órfão, de cachorro abandonado. Sonho com lareiras, seios fartos, tigelas transbordantes de comida.

Clandestinidade (para Shirley Souza)

Quando me aproximei, as duas orientadoras pedagógicas baixaram ainda mais a voz. Falavam do Marquês de Sade e de Monteiro Lobato.

Curriculum vitae

Sempre fui lacaio. Tenho isso no sangue, é minha nobreza. As mulheres sempre me amaram, por meus préstimos e minha delicadeza. Todas, assim que me conheceram, desfizeram-se de seus cachorros.

Autorretrato

Tenho espírito de clown. Tudo que eu quis foi agradar aos outros. Chamaram-me de presunçoso por isso, e a inveja dos rivais me matou.

Procedimento

Pense que seus dedos são os dela. Beije-os com a reverência e o vagar que merecem. Coloque-os no pescoço, e aperte-o. Parece-lhe uma brincadeira? Talvez seja melhor essa metáfora do que toda essa choradeira pseudopoética que você vem usando.

Regulamentação

Monteiro Lobato agora -
assim como álcool, fumo e coito -
só para maiores de dezoito.

A escolher

No âmago do escuro
depois do trigésimo beijo
e do undécimo amplexo
a pergunta:
sexo puro
ou puro sexo?

Para uma adorável matadora

Eu te agradeço por teres
Com suprema perfeição
Mostrado que és tu, e eu não,
O mais mesquinho dos seres.

De Will Gompertz,sobre Marcel Duchamp

"Havia uma outra opinião muito disseminada que Duchamp queria desmascarar como falsa: a de que os artistas são de certo modo uma forma mais elevada da vida humana. Que merecem o status elevado que a sociedade lhes confere por supostamente possuírem inteligência, perspicácia e sabedoria excepcionais. Duchamp considerava isso um disparate. Os artistas se levam e são levados a sério demais."
(De Isso é arte?, tradução de de Maria Luiza X. de A.Borges, editora Zahar.)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Registro

Depois que os infortúnios amorosos passaram a ser seu tema principal, lamenta que eles não tenham sido tantos.

Cotação do dia

Continuo aquele idiota de ontem - com um pouco mais de experiência.

Origem (para Shirley Souza)

Quer saber a sapeca Emília
De que velha
e bela boneca é filha.

Modo de ler

Com cachimbo ou sem, o leitor deve abrir um livro policial sempre com extrema suspeita.

Pontos de vista (para Rose Marinho Prado)

Os concretistas nunca entenderam as queixas dos românticos contra as mulheres com coração de pedra.

Declínio (para Deonísio da Silva

Já tivemos ideais,
já fomos melhores:
oh tempora, oh mores.

Ufa!

Com esse nome, ainda bem que um verbo defectivo não é conjugado em todos os modos, tempos e pessoas.

Saída honrosa

Se você não sabe gramática, é bom ter alguns truques para esconder essa falha de caráter. Um deles é, depois de receber algum comentário desairoso sobre crase ou outra dessas aberrações, perguntar, com altivez estudada: "Mas isso depois da última reforma, não é?" Hoje ouvi um respeitável senhor usar esse recurso. Funcionou bem, até ele completar: "Digo isso porque houveram muitas ultimamente..."

Poeminha rancoroso

Maligna eva
erva daninha
princesa da treva
ignóbil rainha
a deus agradeço
a graça que não mereço
de teres a mãe que tens
e ela não ser a minha.

De Ruy Castro, sobre Ipanema

"Se os colégios de Ipanema conseguissem reunir em seus aniversários todas as futuras celebridades que eles ajudaram a formar, essas reuniões seriam um who's who da vida moderna brasileira. Mas só os bedéis, as freiras e os professores mais antigos saberiam o que sofreram com aqueles rapazes e moças quando os tiveram como seus alunos."
(De Ela é carioca, Companhia das Letras.)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Inverno (para Shirley Souza)

Com este frio, só um gato feliz: o de botas.

Infância (para Shirley Souza)

Quando o Lobato líamos,
nós pecávamos
e não sabíamos.

E no entanto (para Inês Pedrosa)

A ninguém confessaremos,
Mas não temos mais ideais,
E gozamos, e vivemos,
Há cinquenta anos ou mais.

Melhor ir ver

Tirocínio e descortino são coisas que não podemos dizer se temos ou não antes de pegar o dicionário.

Esclarecimento (para Ana Farrah Baunilha)

O que me leva a não aceitar os convites para escrever um livro sobre sexo é estar desprovido, já há algum tempo, do principal instrumento para isso: a memória.

Década de 1960 (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Já uma brisa morna, sexual, eriçava certas peles, porém o mais pecaminoso sonho dos românticos era tocar o mimoso queixinho de Audrey Hepburn.

Amnésia (para Celina Portocarrero e Marisa Lajolo)

Um dos mais rápidos efeitos do Nobel de Literatura sobre aqueles que o recebem é a perda de memória: todos dizem, na cerimônia de entrega, que nunca haviam pensado na hipótese.

Querela (para Alfredo Aquino e Jiro Takahashi)

Está sendo atribuída à maledicência parnasiana a frase, divulgada nas redes sociais, segundo a qual não há sequer um poeta concretista, entre os três conhecidos, que não tenha telhado de vidro.

Logística (para Mariana Ianelli e Silvana Guimarães)

O motorista da gráfica empilha no carro os cem primeiros exemplares da antologia Poemas de pau e pedra, para levá-los à editora. Segue estritamente as instruções para transporte de poesia concreta. Cada um dos livros exibe em letras maiúsculas na embalagem a advertência, que alguém não versado em literatura poderia tomar como título: ESTA PARTE PARA CIMA.

Início de "O condenado", de Graham Greene

"Ainda não fazia três horas que Hale estava em Brighton quando compreendeu que pretendiam assassiná-lo. Com os seus dedos sujos de tinta, as unhas roídas, o jeito nervoso e escarninho, sentia-se logo que ele era um estranho - estranho àquele sol dos primeiros dias de verão, ao vento fresco que vinha do mar, à multidão festiva."
(Tradução de Leonel Vallandro, Editora Globo.)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Alcova

Que os jovens só se deixem cavalgar pela literatura enquanto essa puta escrota tiver, ou fingir ter, algum truque além de fornicar e relinchar.

Intensidade

A luxúria nunca deve ser morninha, dessas que nos deixa no meio do caminho para o Inferno, batendo os dentes de frio.