sábado, 18 de novembro de 2017

Regulamento

Se, esteja onde estiver, em dez minutos um poeta não mencionar a palavra amor, deverá ser obrigado a apresentar seu crachá.

Verbos

Viver pela literatura é mais difícil e menos charmoso do que morrer  por ela.

O velho

Chega o dia no qual o velho, descrendo já irremediavelmente da literatura, da vida e da esperança, morreria sem queixa. Você tem pena, mas não pode fazer nada por ele. O velho é você.

Uns e outros

Os poetas antigos gabavam-se de sua intimidade com as flores e as estrelas. Os modernos fingem não conhecê-las.

RSVP

Queiramos ou não,
Gostemos ou não gostemos,
Morrer é nossa obrigação.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

MM

"A Marilyn Monroe era uma delícia. Como uma taça de champanhe", exemplifica o velho poeta, dando um gole satisfeito e babando guaraná em sua gravata parnasiana.

Belle époque

O velho poeta suspira quando se refere às estrelas de Hollywood da década de 1960. E discorre sempre sobre a tese segundo a qual, para homenageá-las como mereciam, também as rosas e os diamantes dessa época foram os mais preciosos de todos os tempos.

Sobre a inutilidade (para Silvana Guimarães)

Esperar é um dos verbos que já não me dizem nada. Tudo em que haja uma insinuação de esperança é hoje incompatível comigo, como o apelo do menino indiano que vai morrer amanhã e a canção pousada no bico de um passarinho empalhado.

Rima de ouro (para Rose Marinho Pado)

O supremo feito do preciosismo poético foi alcançado por Júlio Salusse, quando rimou cisne com tisne.

Frutos

Provei apressadamente demais os frutos da juventude. Não me lembro do esplendor e do gosto que tinham, e os adjetivos com que tento reavivá-los me soam falsos e ineptos como soa tudo mais em minha amarga velhice.

Cotação do dia

Vontade de morrer um pouquinho e voltar só quando terminar esta má fase.

Criação

Ouvindo qualquer romancista explicar seu  processo de criação, fica-se imaginando como Deus conseguiu fazer tudo aquilo que Lhe atribuem.

Frase de Guimarães Rosa

"Mas, com o comum correr cotidiano, a gente se aquieta, esquece-se de muito."
(De Primeiras estórias, publicado pela Nova Fronteira.)

Hoje no portal do Estadão

Falo de um pequeno drama familiar com lances dignos da Idade Média.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Por pouco (para Rose Marinho Prado)

O concretismo quase cumpriu seu objetivo de fazer a poesia retroceder à era da pedra lascada.

Saudade

Saudade do tempo em que, ainda não viciado pela literatura, eu podia dizer simplesmente: estou cansado. Assim, sem adjetivos nem advérbios.

Representante

Um gato, seja o tempo qual for, e esteja onde estiver, sempre responderá pela beleza, se perguntarem por ela.

Noviciado

Cheguei a acreditar que tivesse algo a dizer. Eu era um menino, então, tolo como todos foram em todos os tempos.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Abjeção

Ter a literatura como passatempo nos dá engulhos quando lembramos tantos escritores que se consumiram por ela.

O pesadelo

A literatura só lhe deixou pesadelos. Num dos mais frequentes, ele está à mesa. No prato, uma rosa. Ele a apanha e enfia na boca murcha. Morde-a, engole-a. Sente gosto de sangue. Pega o guardanapo e imprime nele o desenho de seus lábios de vampiro.

Ouropéis

O que há de pior nas frases de efeito é poderem dar a impressão de que a literatura deve concentrar-se em produzir esses brinquinhos que brilham por um instante nas mãos dos vendedores de bijuteria.

Contagem

Se formos falar em cicatrizes
tenho meia dúzia e tantas
mais muitas que não contei
e outras tantas das quais escapei
por apenas alguns trizes.

Paraíso (para Luiz Roberto Guedes)

Sonho, certas noites, com salas embriagadas de ópio. Sou estranhamente jovem, nos sonhos, e neles surgem, desnudamente angelicais e demoniacamente despidas, virgens com tranças de ouro.

Direito (para Mariana Ianelli)

Seja de qual escola for o poema, sempre deve haver espaço nele para uma flor.

Para sempre (para Silvana Guimarães)

Se você alguma vez lidou com a poesia, ainda que apenas como leitor relutante, sempre haverá quem descubra isso, anos depois, pelo modo de você olhar para uma rosa, ou de ela olhar para você.

Cicatriz (para Celina Portocarrero)

A poesia há de permanecer em alguma parte do nosso corpo, mesmo que só nós saibamos onde ela está,  como um daqueles sinais que cada um de nós guarda para provar que foi menino um dia e andou descuidadamente de bicicleta.

A lei (para Marisa Lajolo)

Até a retórica abandona os cães velhos. Há muito não lato para as caravanas.

Camões, por que não?

"Tu só, tu, puro Amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."
(Os lusíadas, canto III, Livraria Figueirinhas, Porto.)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Reputação (para Tadeu Afonso)

Nunca puxei um fuminho. Mas não espalhem, por favor.

Estorvo

Os mais detestáveis fantasmas são aqueles que, por diferença de fuso horário ou desvio de caráter, nos aparecem no café da manhã, com bafo de uísque e fome de mil leões.

Utilidade redescoberta

Quando o fantasma o acordou de madrugada e disse chamar-se Bill, ele, com um gesto, lhe pediu que esperasse e abriu o criado-mudo para pegar o manual de conversação em inglês.

Cautela

Siga o Diabo, mas nunca se deixe levar por pessoas que dizem amar o vernáculo. São capazes de chamá-lo de xucro e de açoitá-lo na primeira esquina, por causa de um pronome mal colocado.

!!!

"Nossa! Que linda você está!", exclamou a exclamação.
"Linda está você!!!", exclamou a outra.

Horror

À meia-noite, na casa adormecida, a galinha sem pescoço começa a berrar, na natureza-morta da sala.

Dons

Custei a entender que a tolice e a ingenuidade são, em mim, riquezas de caráter.

Gosto

O poeta come ovos só à noite, porque os prefere estrelados.

Suspeita

O que se pode esperar de uma frase em que o sujeito está oculto?

É o que é

Convém dar o nome certo às coisas. Sempre que a gramática nos chama para conversar, já sabemos: lá vem aporrinhação.

Camus relatando sua chegada ao Rio em 1949

"A névoa desaparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o Pão de Açúcar, com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso."
(Tradução de Valerie Rumjanek Chaves, publicado pela Record.)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Amigos

O sol afeiçoou-se ao gato, e toda tarde vem cochilar uns minutos com ele, no sofá.

Baú

O gramático avarento guarda suas vírgulas no sótão.

Índole

Um poeta de verdade sempre tem vaga para uma rosa.

Uma pitada de Guimarães Rosa

"Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! - tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria."
(De Primeiras estórias, Nova Fronteira.)

Cárcere

Quando a língua de sua torturadora estalava, ele deixava a pele abrir-se como uma  flor à chuva.

Sintonia fina

Havemos de ter tal entendimento com o Amor que só o morderemos com a certeza de sermos recompensados.

Mestre

Ninguém melhor que o Amor para nos iniciar nas doçuras da tolice.

O preço

O Diabo, nos seus tempos de aprendiz, andou nos oferecendo riqueza. Depois descobriu que nos vendemos por menos: por uma glória qualquer, mesmo que seja uma gloriazinha municipal.

Cotação do dia

Se o concurso fosse hoje, ninguém no mundo me tiraria o título de defunto do ano.

Deixe estar

Se uma frase estiver lhe parecendo boa, faça o seguinte. Proíba a entrada dos oportunistas de sempre: os adjetivos e os advérbios.

Necrológio

Com as redes sociais, não precisamos mais esperar o jornal do dia seguinte para saber qual é a opinião que temos sobre certos defuntos.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Mario Quintana tinha uma cara de anjo travesso (ou diabrete?) casamenteiro.

Jeito

Os antigos sabiam lidar melhor com algumas  possibilidades poéticas, como mulheres e flores.

domingo, 12 de novembro de 2017

Presente de domingo

O caderno "Aliás", do Estadão - que domingo a domingo vem mantendo a proeza de se igualar  em qualidade ao pranteado "Sabático"-, traz hoje, entre outros, tão bons quanto, um gostosíssimo artigo de Paulo Nogueira sobre o mestre Nabokov.

Valor (para Antero Greco, Carlos Roberto Motta e Wagner Kotsura)

Tão bem-posto estava
o escritor no caixão
que ao menos como defunto
merecia uma reimpressão.

Reflexão do cágado

"Antes ser esdrúxulo do que paroxítono."

Causa própria (para Alfredo Aquino)

Minha simpatia pelos fracos foi sempre, mais que um princípio filosófico ou uma posição literária, uma atitude de autodefesa.

Prerrogativa

Uma das vantagens dos defuntos é que ninguém mais é capaz de lhes tirar o sono.

Mesa-redonda (para Marcos Micheletti, Maurício Noriega e Milton Leite)

Do defunto apaixonado por futebol disseram, no velório, uns com maldade, outros com compaixão, que estava indo para a segunda divisão.

De Guimarães Rosa

"No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade."
(De Primeiras estórias, Editora Nova Fronteira.)

sábado, 11 de novembro de 2017

Hospital

Que seja um número ímpar
O quarto em que irei agonizar.
Os pares me dão azar.

O sonho

Não o mereço e provavelmente não o terei. Mas sonho com um final desses que chamam de morte de passarinho.

Classificado (para Rose Marinho Prado)

Se é conforto o que você quer,
do piso ao teto,
escolha um poema concreto.

Analfabetismo digital

Na hora de morrer,
meu medo é me enganar,
o botão errado apertar
e nada me acontecer.

Cotação do dia

Um cretino igual a cem
que quando morrer
não fará falta a ninguém.

Haicai (para Celina Portocarrero e Jiro Takahashi)

Com medo de não chegar
no meio do caminho
resolveu voltar.

Arrependimento

Se eu tivesse economizado
metade dos meus tempos idos
e tão mal vividos.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Subitamente apaixonado, e querendo impressionar a amada com o antigo truque da poesia, ele, depois de naufragar em meia dúzia de tentativas, fez o mesmo que tantos jovens já há algumas décadas: furtou Mario Quintana.

Reflexão de Albert Camus

"Tristeza por sentir-me ainda tão vulnerável. Daqui a 25 anos, terei 57. Portanto, 25 anos para fazer a minha obra e encontrar o que procuro. Depois, a velhice e a morte. Sei qual é o mais importante para mim. E encontro, ainda, o meio de ceder às pequenas tentações, de perder tempo em conversas vãs ou passeios estéreis. Dominei duas ou três coisas em mim. Mas como estou longe dessa superioridade de que tanto necessito."
(De Diário de viagem, tradução de Valerie Rumjanek Chaves, publicação da Record.)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Cotação do dia (para Angela Brasil)

A minha é a alma de um lacaio. Submissa, complacente, serviçal. Se ninguém a lanceta, a espeta, a violenta, eu tenho o ímpeto de perguntar a Deus: por quê? Nasci para as derrotas e para o menosprezo que as acompanha. Fui feito para servir bebida aos vitoriosos, elegantemente apoiado em minhas patas de trás.

Hoje no portal do Estadão

Falo de pastéis, legumes, frutas e de assobios.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/que-bom-e-assobiar/

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Garantia

Por definição,
um fantasma deve ter pelo menos
duzentos anos de profissão.

Ode

Tempos magníficos, ideais!
Alegrias compartilhadas
e pecados virtuais!

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Proporção

Em matéria de amor, é preciso ser tolo na medida exata.

Saudosismo

Tenho apreço ainda a coisas antigas. Uma delas é o amor.

Convicção

Um provérbio que se preze só sai à chuva se quiser se molhar.

Principiante

Equívoco é o nome dado a um erro que não atinge a plenitude.

Custos

Os trabalhos de manutenção e limpeza são dois itens que encarecem um poema concretista.

Não tanto assim

Se bem que possa parecer, e até muito, hebdomadário não é uma espécie de camelo.

The end

Morrer de amor
deveria ser o fim
de toda biografia.

Sentido oculto (para Rose Marinho Prado)

Tratando-se de literatura, e especialmente de poesia, o leitor deve estar disposto a supor que, se uma palavra, uma frase, uma página, e até um livro inteiro parecerem sem sentido, talvez nisso mesmo estejam sua beleza e seu significado.

Início de "Para você não se perder no bairro", de Patrick Modiano

"Quase nada. Como uma picada de inseto que parece bem fraca no começo. Ao menos é o que você se diz, em voz baixa, para se tranquilizar. O telefone tocou por volta das quatro horas da tarde na casa de Jean Daragane, no quarto que ele chamava de 'escritório'. Tinha adormecido no sofá do fundo, para se proteger do sol. E aquela campainha, cujo som ele perdera o costume de ouvir havia muito tempo, soava ininterruptamente Por que tanta insistência? Talvez tivessem esquecido de desligar o fone do outro lado da linha. Por fim, resolveu se levantar e se dirigiu ao canto do quarto onde ficavam as janelas e o sol batia muito forte."
(Tradução de Bernardo Ajzenberg, publicação da Rocco.)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Conselho

Se você quer saber o que é o amor, pergunte a um tolo.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Birra (para Flavia D'Angelo

O que mais a vida me diz é que não sou bem o número dela.

Solução (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Em períodos de indecisão
nada como um sujeito determinado
e um verbo de ação.

Como convém

Despediu-se no apogeu.
Criou fama, deitou-se na cama,
Inflou-se todo e morreu.

Na língua

Nunca lambi estrelas
nem mordi o dorso da lua.
Para a história do palato
mofina é minha contribuição.
Na língua tenho ressaibos de rua,
de calçadas enxovalhadas,
de detergentes baratos
e de panos de chão.

Datas

Morrer é uma fatalidade
muito mais antiga
do que a humanidade.

Ocaso

Não mais como antes
o fulgor a chama o esplendor -
apenas caules claudicantes.

Uma colherada de Joseph Conrad

"Destino. Meu destino! Coisa esquisita é a vida - esse misterioso arranjo de lógica cruel para um objetivo fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si mesmo - que chega tarde demais - uma colheita de inextinguíveis arrependimentos."

domingo, 5 de novembro de 2017

Traços

Sou um homem sucinto.
Não me exprimo nada além
Do que me sinto.

Poeminha pré-primário

O cachorro late para a lua
e a lua rebate:
é a tua, é a tua.

Poeminha pré-primário

Com as garras no sofá
o gato afasta o sol:
vai para lá.

Poeminha pré-primário

Se tivesse uma
como daria a girafa
o laço em sua gravata?

Poeminha pré-primário

Como pode uma formiga
entre mil no formigueiro
reconhecer sua amiga?

Poeminha pré-primário

Até a última gota
ama sempre o perdigoto
a sua perdigota.

Na revista Rubem

Exponho algumas das ninharias de que é feita minha vida.
www.rubem,wordpress.com.


De Julio Cortázar

"Dez anos depois, enquanto eu me distancio pouco a pouco de O jogo da amarelinha, uma infinidade de rapazes aparentemente chamados a estar longe dele se aproximam do risco de seus quadrados de giz e jogam a pedra em direção ao Céu. E esse céu, e isto é o que nos une, eles e eu chamamos de revolução."
(De Papéis inesperados, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, publicado pela Civilização Brasileira.)

sábado, 4 de novembro de 2017

O mensageiro

O amor-próprio é aquela parte de nós
aquele nosso último território
ao qual não voltaram ainda
nossos informantes com seu relatório.

Devemos estar perdendo
como estivemos sempre
mas essa parte de nós
esse território último
entre os derradeiros
julga ouvir gritos de vitória
vindos de onde devem estar vindo
nossos abençoados mensageiros.

Praga (para Cássio Mattar)

Há quantos domingos aquela ameaça (sempre concretizada) de pobreza cultural: $$ vem aí!

Preço (para Márcia Fiúza)

Com o tempo, ainda que não queiram, os olhos assumem certa castidade.

Memórias do cárcere

Passei os oito últimos anos aqui, recluso neste blog. No início foi não muito mais que um passatempo. Transformou-se aos poucos em um projeto literário e depois em obsessão. Todas as decepções pessoais, que exigiam respostas também pessoais, acabaram vindo para este espaço, com a minha conivência. Na tentativa de me enganar e iludir também os leitores, fui introduzindo as banalidades de minha vida aqui, como se fossem literatura. Não eram, não foram, não são. Pode falar de vida quem há oito anos vive encarcerado, escravizado por uma estapafúrdia ambição?

You do something to me

Pode alguém ouvindo Cole Porter
jurar amor se não for
jurar amor até a morte?

Ao vivo

No encontro ele descobriu que Elis
era a forma resumida de Elisabete
e que era mais bonita na internet.

Concentração

O último erro
que deve evitar  um morto
é perder a hora do enterro.

NY

Você me diria I love you
e como se estivéssemos
num filme antigo da metro
na quinta avenida estrondaria
a mais bela cacofonia -
rhapsody in blue.

Início do conto "Miss Algrave", de Clarice Lispector

"Ela era sujeita a julgamento. por isso não contou nada a ninguém. Se contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade. Mas ela, que morava em Londres, onde os fantasmas existem nos becos escuros, sabia da verdade.
Seu dia, sexta-feira, fora igual aos outros. Só aconteceu sábado de noite. Mas na sexta fez tudo igual como sempre. Embora a atormentasse uma lembrança horrível: quando era pequena, com uns sete anos de idade, brincava de marido e mulher com seu primo Jack, na cama grande da vovó. E ambos faziam tudo para ter filhinhos sem conseguir. Nunca mais vira Jack nem queria vê-lo. Se era culpada, ele também o era."
(Do livro A via crucis do corpo, Editora Artenova.)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Perversidade

Tenho a índole rancorosa dos órfãos.
Agradeço o alimento que me vem de mãos alheias
mas sempre que para mim se estendem
imagino que não me importaria
se as visse retorcidas em agonia
depois de me darem o pão
todo em migalhas dividido
como se eu fosse seu bicho preferido.

Do meu tamanho

A rosa dos ventos,
quem dela precisa?
A mim me basta
uma flor qualquer
soprada por qualquer brisa.

Ressurreição

Acenos dúbios já não me atraem,
Recusas de amor já não me ferem,
Estou pronto agora para os anjos,
Se depois de tudo os anjos ainda me quiserem.

Cotação do dia (2)

Deixar de respirar seria a solução mais condizente com a minha inexpressividade. Quem sabe. Falta-me algum treino.

Cotação do dia

Sou o produto mais antigo da lojinha de saldos. Já ninguém me apalpa. Sinto-me como a má consciência de um estuprador de freiras na África da década de 1960.

Tipos (para Silvana Guimarães)

Além das rimas toantes e das consoantes, há as irritantes.

Xiita (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

O pior tipo de gramático é o que chega e, com aquele olhar vencedor, nos pergunta não se conhecemos o idioma, o que talvez nos fosse possível, mas o santo vernáculo.

Os novos (para Silvana Guimarães)

Despojaram a poesia de todos os ornamentos e viram que ela parecia um musical sem música. Souberam então que era aquele o caminho.

Hoje no Estadão

A ciumenta Jussara interpreta um sonho.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/jussara-lendo-sonhos/

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Fantasia

Eu estaria morto, mas ela, sempre alheia ao que se refere a mim, me perguntaria algo a que eu, ainda sem me dar bem conta do meu estado, daria uma resposta. Ela diria "nossa, que voz, você parece um morto". E eu lhe agradeceria por me haver prestado atenção.

Rom-rom (para Aden Leonardo, Arlene Colucci, Arlete Franco e Tuca Kors)

Às vezes penso que gostaria de ser um gato bem gordo e dorminhoco. O nome não importa muito. Teria sido dado pela dona e soaria bem, como tudo mais que ela dissesse.

Tarefa final

Tenho talvez ainda algum tempo para escrever minhas memórias. Felizmente estão todas num arquivo só, sob um título sucinto: infortúnios.

Esmola

Ela me deu um pão mastigado
que tinha cheiro de homem
e gosto de dente cariado.

Quase

Fui visitar a Poesia
e quem me recebeu foi um serviçal:
que eu não a levasse a mal,
mas que pena, estava de quarentena.

Aviso aos consumidores

Não tenho tempo para burilar,
para abrandar a forma dura.
Minha poesia é vulgar,
meus poemas in natura.

Desmascaramento

Que choque sentiremos nós
que aflição
quando alguém na multidão
nos chamar de farsantes
e quem nos chamar
nos chamar com a nossa voz.

No mínimo (para Silvana Guimarães)

Um bom poeta lírico deve ter no currículo pelo menos meia dúzia de infortúnios amorosos - reais ou inventados.

O morto em maiúsculas (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Nunca lembra se o defunto se chamava Adolfo, Astolfo ou Rodolfo. Nem sequer o conheceu. Viu o nome num anúncio fúnebre grande e, porque estudava gramática na época, imediatamente se pôs a rir. Os pais não entenderam. O que podia haver de engraçado assim no jornal? Ele apontou o nome: era um cacófato! Continuaram sem compreender, apesar da maiúscula evidência das letras: ADOLFO (OU ASTOLFO, OU RODOLFO) DIAS.

Will

Consta que em manobras amorosas
Shakespeare tinha o sestro
de ser meio ambidestro.

Modo de ver (para Silvana Guimarães)

Olhares eróticos devem ser lentos, mornos e, se possível, razoavelmente dissimulados.

Valor (para Silvana Guimarães)

Um poeta deve ter sempre um truque merecedor ao menos de meia entrada, ainda que velhos sejam seu coelho e sua cartola.

Perfil (para Alexandre Brandão)

Mulheres que faltam a encontros costumam ter maridos bigodudos.

Laia (para Rose Marinho Prado)

Certos rufiões ainda esperam da literatura casa, comida e roupa lavada.

Arrependimento

Que triste é hoje recordar aquelas palavras
- paixão, calor, fogo, obsessão -
que nos ditava o amor
com seu tom exacerbado.
Devíamos tê-las ignorado.

Quem?

Alguém pode me informar
se Lox(ch)as se escreve
com x ou com ch?

Não mais

Termos buscado a beleza é uma desculpa quase sempre bem aceita para os fracassos artísticos. É assim como uma formalidade social. Não gosto de usá-la. Soa-me falsa mesmo quando exibo minhas feridas.

Talvez alma

Um poeta deve julgar que tem algo especial, ainda que nunca venha a saber o que é.

Juízo falso

Há os que me censuram por eu me subestimar. São os que não me conhecem.

Coautoria

Um lapso associado a outro lapso perfaz um colapso?

De Milan Kundera, sobre umbigos

"As coxas, os seios, a bunda têm em cada mulher uma forma diferente. Esses três lugares de ouro não são apenas excitantes, eles exprimem ao mesmo tempo a individualidade de uma mulher. Você não pode se enganar sobre a bunda de quem ama. Você reconhecerá a bunda amada no meio de uma centena de outras. Mas não poderá identificar pelo umbigo a mulher que ama. Todos os umbigos são parecidos."
(De A festa da insignificância, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, Companhia das Letras.)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Justiça seja feita

Que boas mães são as mulheres que faltam a encontros. Sempre cuidando dos filhos.

Apatia (para Ana Clara Beauvoir)

A obediência a preceitos morais é às vezes questão apenas de falta de vitaminas e sais minerais.

Inocuidade

Por favor, não me mandem fotos de homens e mulheres pelados, ou quase. Já passei da fase.

Ah, é? (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Desculpa clássica de quem escorrega numa crase: no meu tempo não era assim.

Sovina

Era tão avarenta
que tendo a arca abarrotada
comia só pão e polenta
e não vestia Prada.

Má índole

Avaliando bem, muito bem,
há quem não mereça
o câncer que não tem.

... espeto de pau

Na casa do gramático também falta no tapetinho de entrada o hífen de bem-vindo.

Modelo (para Ana Clara Beauvoir)

Eu gostaria de ser um velhote simpático, desses que aparecem lambiscando colheres de pau nas embalagens de chocolate em pó.

Delicadeza

Não se preocupe com o que virá.
Se você vier a ser um defunto desmazelado,
quem lhe dirá?

Na praia (para Silvana Guimarães)

Sonhar com gaivotas
tem sido meu sonho mais comum.
Elas passam e gritam
idiota idiota idiota
embora eu seja só um.

Conhecimento

Suicida consciente
não compra corda
aleatoriamente.

"Deus", poema de Djanira Pio

"Criamos
um Deus justo.
E agora temos medo dele."
(Do livro Condição, Edizione Universum.)


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Catálogo (para Liberato Vieira da Cunha e Deonísio da Silva)

Sexo prazeroso -
salvo engano -
é um pleonasmo vicioso.

Ideal

Morrer deveria ser
como tomar um banho morninho,
deitar e adormecer.

De pó para pó

Nossos mortos nos estranharão:
cadê aquele sorriso lindo,
aquele cabelão?

O tempo certo

O cansaço e a castidade
são duas conquistas
da terceira idade.

Enquanto

Enquanto eu me enturmava com os doutos
as marias flertavam com os outros.

Recíprocos

Só ao chegar saberemos
se nossos mortos têm por nós
o amor que por eles ainda temos.

A fórmula

Para ganhar convém estar
ou no lugar certo
ou ainda mais perto.

De "O despertar dos mágicos"

"Sabei, dizia um mestre alquimista, sabei vós todos, os investigadores dessa Arte, que o Espírito é tudo, e que, se nesse Espírito não está encerrado outro Espírito semelhante, esse tudo para nada serve."
De Louis Pauwels e Jacques Bergier, tradução de Gina de Freitas, Editora Bertrand Brasil.)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Ainda que os mesmos

Como eu gostaria de ter hoje algum ideal, mesmo que fosse um daqueles antigos, que tão decepcionantes se mostraram.

Aquilo de sempre

De mim não tenho a dizer
Nada sério ou importante:
Viver, padecer, morrer -
Nada belo nem brilhante.

De Milan Kundera

"Por que aproveito todas as ocasiões para me sentir culpado?"
(De A festa da insignificância, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, Companhia das Letras.)

sábado, 28 de outubro de 2017

Bretão

Futebol é só um jogo, que é preciso ganhar hoje, e amanhã, e depois, e de novo.

Balcão

O lugar dos romances de capa e espada é ocupado hoje pelos manuais de copa e cozinha.

Linhagem

Não, perdigotos não são o produto da união de um perdigão com uma perdiz.

Pouco

Um morto só,
ainda que muito sério,
não justifica um cemitério.

Patente

Todos os provérbios -
uns mais, outros menos -
têm instintos ditatoriais.

Aula de literatura

Shakespeare morreu
mas desafortunadamente
só depois que matou Romeu.

Início de "A festa da insignificância", de Milan Kundera

"Era o mês de junho, o sol da manhã surgia das nuvens e Alain caminhava lentamente por uma rua parisiense. Ele observava as moças que, todas, mostravam o umbigo entre a calça de cintura muito baixa e a camiseta cortada muito curta. Estava encantado; encantado e até mesmo perplexo: como se o poder de sedução delas não se concentrasse mais nas coxas, nem na bunda, nem nos seios, mas naquele pequeno buraco redondo situado no meio do corpo."
(Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, Companhia das Letras.)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Cotação do dia

Por mais lastimável que seja seu presente, os morituros hão de ser dignos do seu futuro.

Destino

Não esmoreço.
Sigo a sina dos morituros.
Persisto. Amadureço.

No portal do Estadão

Hoje falo de um marido escritor, provavelmente malogrado numa coisa e na outra.

http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/parabens-querido/

De Giorgos Seféris

"A cada manhã me lembra a água morna
que não tenho junto a mim mais nada vivo."
(De Poemas, tradução de José Paulo Paes, Nova Alexandria.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Heróis

Escrever é aquela outra façanha que alguns velhos ousam, além de respirar.

DF

Qual é a língua portuguesa que se fala em Brasília?

Melhores amigos

Gostaríamos de dar aos arcos-íris nomes como Lulu ou Totó e adestrá-los de tal forma que saltassem graciosamente para apanhar os ossos que nossa generosidade lhes atirasse.

Índole

Para uma barriga burguesa
vale muito menos uma ambrosia
que um bifão à milanesa.

Relato (para Luiz Vita)

Venho morrendo com certo gosto e assiduidade.

Penduricalhos (para Gabriel Perissé)

Retórica é tudo aquilo com que se tenta, como se fosse possível, melhorar uma rosa ou um passarinho.

Ocasião

Não tardes, menina.
Melhor me veres andando na joão mendes
que deitado na vila alpina.

De Giorgos Seféris

"Um pouco mais
e veremos as amendoeiras em flor
o brilho dos mármores ao sol
o mar cheio de ondas

um pouco mais
elevemo-nos um pouco mais."

(De Poemas, tradução de José Paulo Paes, Nova Alexandria.)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Michê

São paulo puta rampeira
me comes na brigadeiro
na barão na conselheiro
na travessa e na ladeira.

Tradição

Porque é preciso rimar,
Nos poemas todo fantasma
Tem de tossir e ofegar
Como se sofresse de asma.

Frase de Giorgos Seféris

"Os dias roem nossa vida sem alarde."

Autossuficiência

Sou minha trajetória completa:
meu mais dileto algoz
e minha vítima predileta.

Pauliceia

Minha odisseia passa
pelo brás bexiga pompeia
casa verde água rasa e largo da lapa.

Descrença

Penso em mim como quem pensa
num trabalho longo que não trará
nem prêmio nem recompensa.

Tarefa

Tenho feito de mim o que faz um homem que se detesta, com o empenho de quem pretende ser perfeito em tudo que faz.

Autoconhecimento

Quem me conhece bem, como eu, não me acha grande coisa.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Gafe

No meio do velório
alguém comenta que o defunto
foi um vivente finório.

Nos trinques

Excetuando a maquiagem
e o ar apalermado
era um morto irretocável.

De Inês Pedrosa

"Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu."
(De Os íntimos, publicado pela Alfaguara.)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Significado

Entendo sua revolta, amigo, mas nefelibata não é a puta que pariu.

Diferença

Um poeta velho não se descobre assim como se descobre uma América.

Quintana (para Silvia Galant François)

Quando viam Mario Quintana, as estrelas ficavam com a cabeça nas nuvens.

Mérito

Quando chegar a hora de pôr o burro na sombra, não hesite. Você merece.

QI zero

Se você não morreu de amor, está perdendo seu tempo, bocó.

Perfil (para Alexandre Brandão)

A melancolia, como a formiga, deve ser lenta e trabalhadora.

Milagre

De todos os poetas, mesmo do mais insignificante, se deve sempre esperar que a qualquer momento possam ser redimidos por uma palavra que, saindo dos seus lábios, desenhe no ar uma borboleta.

Postura municipal

Ainda que se trate só de um busto, e não de uma estátua, e a praça seja a mais humilde da cidade, a petição em que se sugerir essa homenagem para um poeta deve ser aprovada por pelo menos um cachorro, um gato e um bem-te-vi da vizinhança.

Lembrança

Que de nós fique uma frase, ao menos, que alguém possa lembrar quando não pudermos mais dizer nenhuma. E que seja uma dessas frases comuns, cotidianas, com as quais se costuma cumprimentar um amigo. Pode nem mesmo ser uma frase com início, meio  e fim, mas um monossílabo como oi. E que no sorriso de quem vier a lembrá-la se possa ler alguma coisa assim como: ah, aquele jeito que ele tinha quando chegava...

De Sylvio Floreal, sobre o Brás

"O Brás, durante o dia, é um verdadeiro poema homérico de atividade e trabalho. É a ânsia em marcha, desabusada e audaciosa. É a luta em assomo febril de indômita avançada, penetrando, dominando todas as esferas da vida. O esforço aguerrido pela fúria de enriquecer multiplica-se de mil modos, toma aspectos e proporções espantosas, criando iniciativas, tramando expedientes, urdindo invenções, inventando meios que o conduzam ao triunfo monetário."
(De Ronda da meia-noite, publicação da Boitempo Editorial.)

domingo, 22 de outubro de 2017

22 de outubro

Amigos, vos agradeço
Por tudo que me atribuís.
Sei bem que não vos mereço,
Mas ah! Como estou feliz!

(Para todos, todos, todos os que me levaram a ver, hoje, que um homem pode ser amado pelo que faz, ainda que faça só algo que imagina ser poesia.)

Palavras (para Ana Clara Beauvoir)

"Sofrer pela poesia, morrer por ela? Poesia é uma palavra, só."
"E amor, o que é?"

Cotação do dia (para Ana Farrah Baunilha)

Um lacaio que, despedido por entornar chá em uma condessa, se arrepende ainda hoje, trinta anos depois, por não tê-lo bebido no soberbo colo adornado por um colar.

Hoje, na revista Rubem,

eu trato de um desmoronamento de frases. (www.rubem.wordpress.com)

De Saul Bellow

"Tristeza, Senhor, é uma espécie de frivolidade."
(De Herzog, tradução de Sílvia Rangel, Edições Símbolo.)

sábado, 21 de outubro de 2017

Diagnóstico

As reticências são um surto de megalomania do ponto final.

Boa companhia (para Rose Marinho Prado)

Dou-me bem com os infortúnios, e eles não se dão mal comigo.

Autopreservação (para Silvana Guimarães)

Se não zelarmos por nós
se não nos cuidarmos
se não resistirmos
se acabarmos morrendo
o que pensarão de nós
esses cujas melhores gargalhadas
dependem de nós
das piadas que somos
quando como agora eu
latimos e dizemos
que estamos latindo poesia?

Progresso (para Rose Marinho Prado)

Com o desenvolvimento dos meios de transporte e do sistema de pronta entrega, os poemas concretistas atingiram sua fase de maior sucesso.

Vintage

O que tenho a oferecer são, ainda, alguns sonetos. Batem-me à porta como cães escorraçados. Parecem todos da década de 1960.

Cotação do dia (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Sinto-me desnecessário e decorativo como um ponto e vírgula.

História (para Silvia Galant François)

Conversar com estrelas era coisa de poetas desocupados.

Meu papel

Por muito tempo imaginei que perder fosse a minha sina. Tudo que me acontecia dava a impressão de ser irrevogável. Não havia substituto para mim. Eu era o personagem ao qual cabiam os infortúnios. Habituei-me a eles, passei a apreciar as calamidades. Quando, já no meio da peça, notei sinais de mudança, precisei lutar como nunca havia feito, para conservar meu papel na peça.

Soneto do meu tirano (para Celina Portocarrero e Marisa Lajolo)

Eu, que do amor sou vassalo,
Se cometo algum pecado,
Não é o de não celebrá-lo,
É louvá-lo demasiado.

Tenho sido um bom cantor.
Desde que a ele me afeiçoei,
Só o chamo de meu senhor,
De majestade e meu rei.

Podendo me desmentir,
Provou o amor a nobreza
Que persisto em lhe atribuir:

Como escravo me mantém,
Conserva minha alma presa
E meu coração também.

Início de "O apelo da selva", de Jack London

"Buck não lia jornais; caso contrário, teria sabido das dificuldades que o aguardavam, de Puget Sound a San Diego, a ele e a todos os cães que fossem rijos de músculos e tivessem pelo abundante e aconchegador. Tudo porque alguns indivíduos, tateando as trevas do Ártico, tinham topado com um metal amarelo; e, propalada a descoberta aos quatro ventos por companhias de navegação e outros transportes, homens aos milhares se precipitaram para o norte. Ora, esses homens precisavam de cães, e os cães de que precisavam não podiam deixar de ser possantes, de ter músculos poderosos para o trabalho e pelo grosso que os protegesse da geada."
(Tradução de Rui Guedes da Silva, publicação da Editora Abril.)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Do que os poetas precisam

Os poetas criaram tal aura para si que, quando falam de tormentos físicos e de misérias do corpo, ninguém se dispõe a imaginar que estejam falando disso realmente. Supondo não terem nada espiritual a oferecer à mão estendida, todos se esquivam. Como adivinhariam que os poetas às vezes têm fome de pão, ainda que sejam só migalhas?

A idade (para Marcelo Mirisola, Paula Giannini e Veronica Stigger)

Devemos escrever enquanto jovens, quando ainda soam fortes nossas imprecações, nossa fúria, nossa revolta. O exercício da literatura, com suas constantes incitações ao clássico, tende a emascular nosso ímpeto em nome de um equilíbrio que os velhos leitores e os acomodados escritores celebram entre bocejos.

Cotação do dia

O único a quem você enganou foi você mesmo. Cinco décadas sonhando literatura, vivendo literatura, tentando literatura. Constância, empenho, obstinação. Você acreditou em suas palavras, se achou profundo, pronto, capacitado. Nunca lhe ocorreu, em todo esse tempo, que você era a pessoa mais fácil de ser enganada, por mais tolo que fosse o enganador?

Conselho do dia

Ao diabo com a autoajuda, a autoestima, a autocomiseração. Diga eu sou ridículo, eu sou bizarro, eu sou a mais infame piada do mais grotesco dos palhaços. Diga isso e saia para o sol como saíam aqueles homens honestos de que falam os livros antigos.

Hoje, no portal do Estadão,

o repentino entusiasmo de um homem por sexo.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/mulheres-pela-casa/

Um trecho de Julio Cortázar

"Amizades: uma gata mansa e pedinchona, outra preta mais selvagem, igualmente faminta. Os pássaros aqui quase nos chegam às mãos e as lagartixas verdes sobem nas mesas à caça de moscas. De longe, uma grinalda de balidos de cabra nos cerca, cinco vacas e um bezerro pastam no mais alto da colina e mugem adequadamente. Ouvimos também os cães das cabanas no fundo do vale; as duas gatas se somarão esta noite ao concerto, é certo."
(De Orientação dos gatos, tradução de Remy Gorga, filho, Editora Nova Fronteira.)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Linguagem amorosa

Eu te amo
ele dizia
eu te amo
ela ecoava
e se amavam muito
com verbal economia.

Sofisticaram-se.
Ela o chamava de meu céu
ele de minha estrela guia
e amaram-se pomposamente
até o amor morrer
de verborragia.

Do ramo (para Rose Marinho Prado)

Se você tiver o que dizer, algo assim como um texto com início, meio e  fim, escolha exprimir-se em prosa e deixe a poesia para aqueles malucos que há séculos sabem fazê-la.

De Inês Pedrosa

"Ele tem barriga de cerveja, barriga de cerveja, barriga de cerveja. E está semicareca. Um semicareca é a versão barata e envergonhada de um careca. Mau gosto."
(Do romance Os íntimos, Editora Alfaguara.)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Á erre gê agá

Uma expressão presumivelmente difícil de engolir, em pelo menos dois sentidos, é poema seminal.

A ocasião faz o poeta (para Rose Marinho Prado)

Por um equívoco do setor de expedição, as caixas em que estavam os adjetivos, os verbos, as preposições e os pronomes não chagaram à oficina do poeta. Limitado a uma centena de substantivos, ele os esparramou em cima da mesa, assumiu um ar heroico e disse resolutamente: eu não desisto. Estava nascendo o concretismo.

Tipos

Os bons poemas dão a impressão de que estavam prontos já antes de alguém os escrever. Nos outros, nota-se o vão esforço dos poetas.

Antes só

Um intelectual, sozinho, é uma calamidade que se pode suportar, como um incêndio ou uma inundação. Difícil é quando eles surgem aos bandos, como nas inaugurações e nos lançamentos, ávidos por vinho chileno e rissoles.

Modo de fazer

Há de se cuidar para que o exibicionismo das flores não empane o brilho do defunto em seu único dia de glória.

De "Os íntimos", de Inês Pedrosa

"Um coração judeu. Em tudo exactamente igual a qualquer outro coração humano. Abandonado, em excelente estado de conservação, na neve suja de Auschwitz, no último dia de dezembro de 1944."
(Editora Alfaguara.)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

De Margaret Atwood

"Trair é um trabalho árduo."
(De Transtorno moral, tradução de Carlos Ramires, Editora Rocco.)

Os nossos

Eles esperam por nós.

Tantas  vezes lhes falhamos
tantas os esquecemos
tantas os relegamos
e eles ainda esperam por nós.

Não estão aflitos agora.
Que aflição pode haver?
Que sentimento pode ter
pó que espera por pó?

De Inês Pedrosa

"A narrativa bíblica pode ser interpretada de outra forma: Deus enviou a maçã e a serpente para que as suas criaturas ganhassem o direito ao livre-arbítrio."
(Do romance Os íntimos, Alfaguara.)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O adjetivo (para Ana Farrah Baunilha)

Sou um substantivo ao qual só se ajusta bem um adjetivo: reles.

Efeito

É quando você se sente mais inútil, vazio, oco e imprestável que você se põe a adjetivar.

Na lista

Visceral e crucial são dois dos piores adjetivos que conheço. Representam uma tendência antiga e atualíssima: o mau gosto que se presume letrado.

Do romance "Os íntimos", de Inês Pedrosa

"- Tu és um analfabeto sentimental
disse-me uma vez uma mulher. Eu agarrei-me aos peitos dela enquanto a beijava. Como se me agarrasse a uma boia de salvação, só isso."
(Publicado pela Alfaguara.)

domingo, 15 de outubro de 2017

Um, os dois ou os três (para Marco Antonio Martire)

Falar de amor causa sempre constrangimento. Quando não é um dos interlocutores, é o outro, às vezes os dois. Mas na maior parte das vezes é o próprio amor.

Zombaria

Se o que de nós escrevi
Eu pudesse ainda apagar,
Parariam de zombar
Do amor, de mim e de ti?

Os dois tipos

Há os homens de ação e os outros, os de omissão. Não me perguntem a qual dos tipos pertenço.

Só isso

Digam o que disserem, e mesmo que não digam nada, o que os leitores esperam dos poetas é sempre beleza.

De Margaret Atwood

"As lesmas comiam tudo e não eram comidas por nada. Não ser atraente tem suas vantagens."

sábado, 14 de outubro de 2017

Sempre ali

Vocês me conhecem. Sou aquele sujeito que diz ter morrido de amor e no entanto continua a falar  dele e a acusá-lo. Vocês sabem como proceder comigo. Vocês me ouvem um pouco, depois fingem me ouvir mais um pouco e no fim me deixam falando sozinho. No dia seguinte, eu estou na mesma esquina, aquele morto acusando o amor. Apareci ali ninguém sabe quando nem como, e fui ficando. Somos poucos hoje, três ou quatro em toda a cidade. O amor talvez não seja um bom assunto.

Conselho médico

Se fores ficar doente
que seja uma doença decente
e tenha o nome que for
seja uma das que constem
dos manuais de medicina
e não aquela coisa mofina
aquela molestiazinha chamada amor.

Ninharias

O que nos mata são essas tolices a que damos tanta importância, como o amor. Ele já nos envergonhou tanto que, ao mencioná-lo, nós o chamamos agora pelo mais brando dos seus nomes: afeto.

Megafone

Sempre quis vender a ideia de que tenho algo essencial e bonito a dizer. Sempre fui mau vendedor.

Modos de ver

Talvez a vida nunca tenha sido boa. Você é que talvez tenha sido tolo todo esse tempo.

Troca (para Rose Marinho Prado)

Sei que não tenho alma. Se a tivesse, há muito ela estaria com o Diabo, em troca de uma obra, ainda que não fosse prima.

Aqueles tipos (para Inês Pedrosa)

Os escritores são aqueles tipos que morrem sem desfrutar a vida. Eles a desperdiçam toda numa única e maníaca atividade: trabalhar, trabalhar, trabalhar, para acrescentar uma linha, um adjetivo ao seu necrológio.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Algoz (para a Flá Perez)

Ou o amor nos mata ou nos mata a poesia.

Hoje no portal do Estadão

http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/uma-nova-mulher/

(Os valiosos conselhos das revistas)

Fugacidade (para Tania Regina Fernandes Cordeiro)

Tínhamos tanto a dizer,
Mas deixamos o tempo ir
E o relato se perder.
Quem ainda, hoje, o quer ouvir?

A opção

Morre-se de tantas causas, de tanta ridicularia: de gripe, de acidente, de inveja, de melancolia. Morre-se de amor ou de falta dele, morre-se na hora certa, morre-se quando não se devia. Morre-se do desencontro, morre-se da procura. Por que zombar, por que escarnecer, por que desdenhar de quem quer definhar de poesia, de quem quer morrer de literatura?

Entre nós (para Silvana Guimarães)

Nós os chamamos em vão,
Inútil é nossa voz.
Os bárbaros não virão,
Há muito estão entre nós.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O momento

Quando nada temos a dizer e todos os olhos nos olham como se fôssemos impostores, aí é que nos cabe mostrar o que aprendemos com a literatura.

Identidade

Exigir que os poetas românticos escrevessem teria sido uma impertinência. Com aquela presença, aquele porte, aquela aura...

Herança

Tenho pena de mim, do homem que me tornei depois de tantos sonhos malogrados. É um mau hábito que aprendi com minha mãe.

Hipótese

Se o amor fosse como você às vezes ainda o imagina, você o mereceria?

Mão única

Que você tenha se apaixonado pela poesia se entende. Mas foi presunção demais julgar que ela corresponderia.

Obviedade

O que mais você esperava? Que futuro poderia ter um menino viciado em rimas e versos?

Balanço

Hoje você pode dizer que a poesia foi mais um brinquedo de criança que um projeto de vida.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Aleluia

Eu não ter nada a escrever
É uma bênção do Senhor.
Devemos Lhe agradecer -
Eu e, mais que eu, meu leitor.

Cotação do dia

Estarmos mortos é já um hábito quase tão antigo quanto o de viver. Alguns nos chamam de indiferentes, outros de apáticos. A verdade é que desde o início não nos demos muito bem com essas coisas todas que tanto agradam aos demais.

Índex

Palavras também sofrem discriminação. Devaneio, por exemplo. E alvíssaras, e augúrios, e primícias. Melhor não pronunciar nenhuma delas.Todas carregam uma maldição. Preservemos nossos lábios e digamos amor uma vez, duas, três, enquanto nos permitem dizê-lo.

De Inês Pedrosa

"O erro é a melhor definição da humanidade; no mundo animal não existe o erro, apenas a morte."
(De Os íntimos, Alfaguara.)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Porcentagem

Hoje quase ninguém mais estranha se dizemos que nossa ocupação é a literatura. Só um entre dez faz ainda aquele comentariozinho sarcástico: ah, sei.

Piada

Contaram uma piada tão boa que, pela primeira vez na noite, senti pena do defunto. Para lhe melhorarem a aparência, tinham lhe tirado o aparelho auditivo.

De Inês Pedrosa

"O sofrimento é como a liberdade: só aproveita aos corações de grande fortaleza. Aos outros, corrompe-os, mais nada."
(De Os íntimos, Alfaguara.)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Cotação do dia

Sempre tive consciência de que eu valia pouco, mesmo no tempo em que cheguei a valer alguma coisa.

Prateleira

Sou aquele que você pode levar menos caro amanhã e muito mais barato depois de amanhã.

O que temos

Contra as misérias do corpo, temos por enquanto apenas a expectativa de alma e essa ternura aguda que nos espeta quando alguém diz a palavra amor.

Início de "Os íntimos", de Inês Pedrosa

"A minha vida ficou decidida no instante em que salvei uma mulher das ondas do mar. A ação heroica completa: agarrei num mergulho o corpo inerte, trouxe-o para a praia, fiz-lhe respiração boca a boca e assisti ao seu regresso à vida. Quando os primeiros socorros chegaram já estava tudo resolvido. E eu sabia duas coisas: em primeiro lugar, que queria ser médico. Em segundo, que os seios arfantes de uma mulher eram um excelente substituto do paraíso. Mais tarde perceberia que tudo cansa, a salvação ou o paraíso."
(Editora Alfaguara.)

domingo, 8 de outubro de 2017

Futuro

Robôs escreverão por nós e serão tão eficientes que com estes nossos mesmos ingredientes - o amor e os outros dois de praxe - apaixonarão multidões, terão a cabeça metálica coroada com chuvas de flores e com eles sonharão as mulheres sentimentais.

Cotação do dia

Então um dia, um domingo, você nota que está morto e que não é uma sensação nova.

Hoje na revista Rubem

Falo de defuntos e de outros itens não tão frios.
(www.rubem.wordpress.com)

Início do conto "Luíza vinha de noite", de Aldyr Garcia Schlee

"Luíza vinha de noite, na sombra do muro coberto de madressilva, e entrava pelo portão do lado. Vinha ofegante, muda, nervosa, tremendo, tremendo... vinha geladinha aquela mulher: geladinha geladinha, como se estivesse nua em pelo, despida, já sem nenhuma das roupas que se iam afrouxando e lhe caindo do corpo pelo chão, mal ela entrava em minha casa."
(De Os 20 melhores contos de Aldyr Garcia Schlee, Editora Ardotempo.)

sábado, 7 de outubro de 2017

A aflição do conde

Depois das refeições, o conde Olof levantava-se, ia até onde a condessa estava sentada, beijava-lhe o rosto e saía da sala para fumar. Era tudo sempre igual. Uma noite, ele tinha dado alguns passos, depois do beijo, quando a condessa o chamou. "O que você quer?", ele perguntou, contrariado. Ela insistiu: "Vem aqui." Ele se reaproximou. Ainda sentada, ela puxou seu rosto e cochichou alguma coisa. O conde olhou para mim. Parecia aflito. A condessa cochichou de novo. Ele, então, como se cumprisse uma sentença, a beijou no ombro. Ela deu um suspiro longo. Quando o conde finalmente saiu, imaginei que ela fosse olhar para mim. Não olhou. Eu me retirei, sem esperar que ela me concedesse a permissão.

Chicana

Poetas e rosas só deveriam envelhecer se fosse absolutamente inevitável, e depois de esgotados todos os recursos.

Frase

Poetas velhos são mais patéticos que poéticos.

Lembrança

Tínhamos tanto a dizer. Dissemos amor - e tínhamos dito tudo.

Gostou daquilo?

Algumas manhãs depois daquela em que me deixara beijar seu ombro, a condessa me perguntou: "Gostou daquilo?" Não me lembro de ter conseguido dizer uma palavra, mas meus olhos certamente falaram por mim, enquanto a condessa prometia: "Qualquer dia vamos fazer aquilo de novo. Você já mordeu alguém?"

Maneirismos (para Rose Marinho Prado)

Nem toda literatura antiga é boa. Alguns personagens ficavam com a pulga atrás da orelha, davam tratos à bola e falavam com seus botões.

Um trecho de Jean-Yves Leloup

"No olhar de uma criança que morre, ou que nos sorri, há algo mais que matéria. Pode-se explicar esta intuição quanto se quiser, pelo funcionamento de nossas sinapses ou pela complexidade crescente do funcionamento de nossos neurônios, de nossos átomos, o que aparece no olhar de uma criança, o que vem ao meu encontro aqui, na matéria... não é matéria."
(De Nomes de deuses, tradução de Maria Leonor F.R. Loureiro, Editora Unesp.)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Carnê Foice

Morrer um pouco por dia,
Morrer um pouco por mês,
Sem pressa, sem correria,
Morrer um pouco por vez.

Só o ombro

Eu tinha acabado de prestar um dos meus prosaicos serviços de lacaio e perguntei à condessa Olga se ela precisava de mais alguma coisa. Ela estava sentada à mesa do café da manhã. O conde Olof tinha saído. Ela pediu que eu me aproximasse. "Me beija o ombro", eu a ouvi dizer, e era tão espantoso isso que eu me mantive de pé diante dela. "Me beija o ombro", ela repetiu. Eu hesitei ainda um instante. "Me beija o ombro." Era macia a blusa da condessa. Meus lábios se fixaram ali até o momento em que, instigados pela ousadia, resolveram aventurar-se pelo pescoço. Imediatamente ela os afastou. "O ombro, só o ombro."

Ma Belle

A eguinha chamava-se Ma Belle. Nas manhãs de bom tempo, a condessa passeava com ela pela propriedade. Voltava sempre com o rosto coradíssimo. Execrava, com bom humor, a égua. Dizia que ela era maluca e cada vez corria mais. Um dia ou outro, a condessa recontava também alguma piada de Ivan, o cavalariço. E, porque eram sempre histórias picantes, seu rosto se avermelhava ainda mais. Eu, sempre mordido pela inveja, me perguntava se contar piadas tinha sido o único motivo para ele receber da condessa a honra de dar nome ao mais novo, e favorito, dos seus cães. Ivan era mais grosseiro que o conde, isso me parecia óbvio. E, quando eu passei a supor que a grosseria talvez fosse uma virtude apreciada pela condessa, passei a desejar também que, se houvesse em mim um traço qualquer de nobreza, ninguém chegasse a notá-lo. Se me perguntassem qual seria minha maior aspiração, eu diria: quero ser o mais rude dos homens.

Hoje, no portal do Estadão

Um pouco daquela história do rei Eduardo VIII.

http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/sexo-oriental/

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A pergunta

Se eu fosse me entrevistar, começaria perguntando não por que imaginei que poderia ser escritor, mas por que continuo imaginando.

O periquito

O periquito estava tão  moribundo quanto o realejo e seu velho dono. Tão moribundo que seus parcos movimentos já eram atribuídos a cordéis manipulados pelo velho. Não piava mais. Se piasse, seria também certamente por artes de ventriloquia do velho.

Um e outro

Louco não é o poeta, que vive conversando com suas mil e uma estrelas. É o astrônomo, que se cansou de conversar com todas e vive procurando novas.

Atualização

Os poetas modernos sabem que a época está mais para patos que para cisnes.

Probabilidades

Se viessem a me conhecer bem, talvez as pessoas chegassem a gostar de mim. Quem sabe até aquela que diz me conhecer tão bem.

Permissão

Se eu fosse um passarinho, daria um jeito de me enfiar num poema do Quintana e, se alguém viesse me expulsar, eu protestaria: foi seu Mario quem me deixou entrar.

Ordem pública (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Na noite em que as nuvens desandaram a lançar flores em vez de chuva sobre a praça, a polícia prendeu todos os poetas da cidade, que por sinal eram três.

Amor (para Inês Pedrosa)

Minhas mãos descobriram pacientemente o formato de minha melancolia, sabem que ela é como um bebê e a embalam cada vez mais maternalmente.

O conde (para Luiz Vita)

Só posso atribuir à inveja a antipatia que desde o começo senti pelo conde Olof. O que havia, naquele homem grosseiro, que pudesse atrair uma mulher como a condessa? Fortuna não era, porque, como fui sabendo aos poucos pelos criados antigos, ela já nascera rica. Essa descoberta me fez muito mal. Passei a imaginar aquelas mãos imensas, aquelas pernas fortes, aquele corpanzil deitado na cama conjugal. Comparei tudo com a minha inexpressiva figura de lacaio e depois disso assumi a minha amarga inferioridade.

Peculiaridades

Personagens antigos cofiavam a barba e franziam o nariz.

Precaução (para Liberato Vieira da Cunha)

O delegado de costumes proibiu a realização do baile das conjunções copulativas.

Esperança (para Deonísio da Silva)

Se alguma rebelião ocorrer na gramática, será chefiada pelas conjunções adversativas.

Conselho

Sei que é uma daquelas chamadas hipóteses remotas, mas de qualquer maneira anote: fuja das condessas.

Ponto alto (para Rose Marinho Prado)

Quando se ouve um poeta parnasiano contar histórias, sempre se aguarda o momento em que ele falará da importância dos cisnes em seus sonetos.

Recorrente (para Angela Brasil)

Há sempre aquele defunto que um mês depois julgamos ver dirigindo um táxi e, cinco anos mais tarde, saindo do consultório de nosso psicanalista.

Início de "Os vestígios do dia", de Kazuo Ishiguro

"Parece cada vez mais provável que eu vá realmente empreender a viagem que já há alguns dias me vem ocupando a imaginação. Viagem, devo dizer, que empreenderei sozinho, no conforto do Ford do Sr. Farraday; viagem que, do modo como a imagino, levar-me-á a percorrer grande parte da mais bela região da Inglaterra até as terras do oeste, e pode me manter afastado de Darlington Hall por uns cinco ou seis dias."
(Tradução de Eliana Sabino, Editora Rocco.)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Justiça (para Inês Pedrosa)

A alguns defuntos, surpreendidos num dia infeliz, deveria conceder-se nova chance, para desfazerem a má impressão.

Fisionomia (para Inês Pedrosa)

De modo geral, o que se pode dizer dos defuntos é que a maioria deles teria melhor aspecto se morressem dez anos mais jovens.

Poema do viaduto (para Silvana Guimarães)

Nosso melhor crítico somos nós.

Ninguém melhor que nós saberia
como escolhemos o homem
como o fizemos sofrer
como o atormentamos
como o supliciamos
como o levamos a descrer
de tudo que o fazia viver
e lhe indicamos o viaduto
e lhe dissemos pula e ele pulou.

Quem melhor que nós saberia
que a voz que incitou o homem a pular
e a voz que gritou ao saltar
eram a nossa voz?

Terceiros

Que os olhos alheios,
se não nos tornarem mais belos,
não nos tornem mais feios.

Fogo brando

Dizer que a condessa Olga me seduziu já no primeiro olhar seria obedecer a um dos ritos inerentes aos relatos deste tipo, mas poderia dar ao leitor a impressão de que lhe serão oferecidas, a seguir, cenas de chama e paixão. Se houve chama e paixão, foram as que me consumiram. A condessa Olga sempre me tratou com frieza desdenhosa, sempre teve o exato controle dos seus cordéis.

As azeitonas

Jamais verei alguém espetar uma azeitona tão compenetradamente quanto a condessa Olga. Não sou um homem refinado, embora alguns lacaios atinjam essa condição, e espetar azeitonas com palitos talvez seja indigno de uma condessa. Mas dificilmente quem a visse espetá-las diria que aquilo não era um ato artístico. Eu me sentia sempre tentado a aplaudi-la. Uma noite ela alcançou a perfeição. Uma a uma, havia levado à boca meia dúzia de azeitonas, e eu, observando as que no prato esperavam sua vez, senti aflição por elas.

Início de "Moll Flanders", de Daniel Defoe

"Meu verdadeiro nome é bastante conhecido nos arquivos ou registros das prisões de Newgate e Old Bailey, e certos processos de maior ou menor importância relativos à minha conduta pessoal encontram-se ainda pendentes. Por isso não se deve esperar a inclusão de meu nome ou de especificações sobre a minha família, nesta obra."
(Tradução de Antônio Alves Cury, Editora Abril.)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

As duas meninas da condessa (para Ana Farrah Baunilha)

Os braços da condessa Olga eram gorduchos, pareciam duas meninas saltitando ao sol. Ela gostava deles e os exibia fartamente. Eu gostava deles também.

Atenuante

Você não deveria cobrar-se tão severamente assim. Seu retrospecto literário talvez não seja ruim como você pensa. Há nele uma centena de sonetos, é verdade, mas quem hoje se importa com sonetos?

Nós

Alguma coisa fizemos, como não?
Houve uma premiação
em que um de nós foi elogiado,
outro foi honrosamente mencionado
e um terceiro teria vencido
se houvesse concorrido.
Alguém pergunta: foi concurso de quê?
Não lembro exatamente,
admito que não,
mas foi algo importante, sim:
um concurso de contos,
um concurso de poesia
ou outra coisa assim.
Se foi só isso? Não, houve mais.
Espere um pouco, que eu tenho
tudo ali naqueles jornais.

Época

Cheguei a crer em alguma pureza. Foi na época em que palavras como amor e alma significavam muito mais para mim. Eu era jovem e tolo, e assim fui até ouvir a voz que me disseram ser a da razão.

Ainda, e sempre, Henri Frédéric Amiel

"Um rimador não é um poeta; um orador não é um artista. É necessário esposar a profissão para nela distinguir-se; é necessário possuir a fundo o seu instrumento para fazer parte do conjunto."
(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Provador

A condessa Olga, em algumas noites nas quais o conde se atrasava para o jantar, pedia que eu provasse a sopa e dissesse se não estava quente demais. Só depois, com ávidos estalos de língua, começava a tomá-la. Nunca com a colher que eu havia usado.

Nomes

O nome do conde para o qual naquela época trabalhei era Olof. O da condessa era Olga. A condessa amava cachorros. Tinha seis. Seu favorito chamava-se Ivan, como o cavalariço da propriedade.

Uma lembrança (para Ana Farrah Baunilha)

No tempo em que fui lacaio na casa da condessa Olga, até o gato dela me dava ordens. Se queria água ou comida, fitava-me com aqueles olhos despóticos, iguais aos da dona quando, instigando-me a beijá-la, me advertia: "Só o ombro, só o ombro."

Os cânticos

Tudo que ouvimos nesta cidade é ruído, desde que nos levantamos até o instante no qual voltamos a nos deitar. Os bem-aventurados que às vezes ouvem cânticos celestiais já não os mencionam, não por piedade de nós, mas para que não os encaremos como se costuma encarar os mentirosos.

In extremis

Talvez nos caiba a sorte de morrer sem estrebuchar. Se nos perguntassem hoje qual bênção nosso descaramento poderia ainda pedir, certamente escolheríamos essa.

Autorretrato

Quando você se diz indigno, inútil e inepto, você revela seu autoconhecimento e sua autocomiseração. Você é muito pior do que tudo isso.

Único

Ele gostaria de ser o gato de uma garota que nunca tivesse tido nenhum e houvesse esperado por ele ao menos cinco dos seus quinze anos de vida.

Inépcia

O que falta fazeres para acreditarem que és ainda mais indigno do que tuas próprias palavras, nos teus próprios lábios, há tanto tempo dizem?

A tarefa

Não arrefeça, não esmoreça. Destruir-se é uma tarefa para a qual você não pode contar nem com seu melhor amigo, se você o tiver, nem com Deus. Os amigos são negligentes e Deus tem compaixão até pelos seus piores filhos.

Origem

Também você imaginou que  tivesse algo a dizer. Assim começam quase todos os grandes equívocos literários.

domingo, 1 de outubro de 2017

Medida (para Paula Giannini e Veronica Stigger)

Uma lição de estética que eu já poderia ter aprendido é chorar com moderação.

Cotação do dia

Pelo menos num domingo, um homem, por mais reles e atormentada que fosse sua alma, deveria ter motivos para sorrir duas ou três vezes.

Hipótese

Sou um homem que valeria pelo espírito, se por ventura ou porventura o tivesse.

Face oculta

Se pudessem ver como se infla tua vaidade quando dizes que és o mais vil de todos os seres.

Ego

Mais que você, quem
se orgulhará do que tem?
Você se arrasta como um verme
e proclama que ninguém
se arrasta melhor que você.

Final de "Despedida em Las Vegas", de John O'Bri

"E o corpo sem vida esfria na cama de hotel; sem sentir o beijo dela, rasgado da sua alma e enviado aos lábios como um ato final, para levar a termo as horas que passou na janela, olhando para os olhos mortos fixos no teto e para ensinar a ela um modo de tocá-lo além do ato de fechar seus olhos; sem ver os olhos dela, a princípio úmidos, depois secando e ficando secos, mesmo quando os soluços começam a subir do peito, para se perder no vozerio do cassino quando ela sai do hotel; sem ter consciência da cama dela, da verdade da sua vida, que com passo vago segue para seu apartamento. Sera tira a roupa, escova os dentes e fica deitada, acordada, no escuro."
(Tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Ediouro.)

sábado, 30 de setembro de 2017

Em defesa da inveja

Senhor, somos nós ou vós
quem a inveja semeia?
Vós nos criastes, Senhor,
para aplaudir a glória alheia?

Resumo final

Poderíamos ter feito mais,
poderíamos ter feito melhor.
Poderíamos ter tido sorte
como aquele apostador
que contra um milhão de outros
foi o ganhador.
Poderíamos, poderíamos, poderíamos.
Sempre há quem querendo possa.
Poderíamos. Não pudemos. Falha nossa.

Trajetória

Ontem ou anteontem
eu fui dali até ali.
Foi em 1980 ou
em 1990 talvez,
um dia, uma vez.
Essa  é toda minha história,
toda minha trajetória.
Não estou em nenhuma antologia,
em nenhuma seleta de poesia.
É coisa minha, só.

Dessintonia

Em mim, por um lance da ironia,
a fase da reflexão não coincidiu
com a idade da sabedoria.

Carpe diem (para Ana Farrah Baunilha)

Ao corpo! Ao prazer! Avante!
Gozar o que há enquanto há.
A carne dura um instante,
Amanhã morta estará.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O herói hoje (Para Silvana Guimarães)

Nem pensar em epopeias,
em ilíadas, em odisseias.
Curto é o teu caminho
e o teu tempo agora é
o do sofá e o do chá morninho.
Tudo te fere, tudo te dói,
e tu te queixas e tu gemes.
Que vergonha teriam teus netos
se te comparassem a um herói,
a qualquer herói dos videogueimes.

Cotação do dia

O que podes dizer da alma, com alguma convicção, é que, se a tens, não a mereces.

Hoje no portal do Estadão

Conto uma história de gato.
http://emais.estadao.com.br/blogs/escreviver/o-gato/

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Modernidade

Nada mais hoje é ocasional.
Tudo é planejado, tudo marcado,
Até o sexo casual.

Não mais

Um dia você torce o lirismo, e as duas gotas que pingam na pia vêm não dele, mas de você e dos seus olhos tolos.

Romantismo

Antigamente havia também ladrões
mas furtavam só beijos
e roubavam só corações.

Roteiro

Se você for um homem objetivo, como o tempo atual exige, e julgar que nasceu para a poesia, eu o aconselho a dedicar-se pelo menos dois anos, intensamente, à aprendizagem poética. Leia manuais de métrica e versificação, ensaios críticos, tudo. Ao mesmo tempo, procure conhecer os poetas, os maiores. Vencida essa etapa, comece a escrever. E empenhe nisso dois, três, quatro anos. Escreva, escreva, escreva. Se até o quinto ano você não tiver conseguido o Nobel, jogue tudo para o alto e pense em outra coisa.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ela (para Ana Farrah Baunilha)

No tempo dos românticos, a Morte era alta, loira, leve, e prometia obscenidades num francês de erres molhados enquanto, valsando com o par, o conduzia do salão multitudinário para o jardim de banco único, ocupado pela lua alcoviteira.

Profecia

Previu Nostradamus
Que seríamos grandes, muito grandes.
Onde foi, quando foi que falhamos?

Início de "A balada do café triste", de Carson McCullers

"A própria cidade é melancólica. Não há muita coisa nela além da fábrica de fios de algodão, das casas de duas peças onde vivem os operários, alguns pessegueiros, uma igreja com dois vitrais coloridos e uma miserável rua principal, medindo apenas uns cem metros."
(Tradução de Caio Fernando Abreu, Editora Globo.)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Nem tudo

Se quem fala mal de ti soubesse que há tanto mais para falar...

E aquilo?

Você não matou o pai nem a mãe, não furtou esmolas de igreja nem torturou gatos, mas aqueles sonetos, ah...

Cotação do dia

A literatura é uma desculpa que há muito tempo não te atreves a apresentar.

Miséria

Na fase final da vida, pobre e abandonado, havia manhãs em que o poeta parnasiano contemplava seu último cisne com olhos de fome.

Carimbo

Malfadado Alighieri! Tanto talento, tanto empenho, para no fim se tornar célebre por suas cenas dantescas.

Aparência (para Henrique Fendrich)

Há mortos tão desmazelados e deprimentes que mais parecem sobreviventes.

Prazo limitado

A simpatia de alguns defuntos dura só até a abertura do testamento.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Inferno (para Ana Farrah Baunilha)

O que o Inferno tem de melhor são os caminhos que a ele conduzem.

Higidez

Que esplêndido é o nosso exemplo.
Respiramos ainda, e andamos,
Embora nunca ao mesmo tempo.

Realidade

Sei, há muito tempo já, que sou no máximo, nas poucas vezes em que consigo algo parecido com literatura, um tantinho mais que medíocre.

Etiqueta

Se for tentado a se dizer poeta, um homem velho deve pedir desculpas, antes e depois.

A pergunta

Toda vez que você se vê no espelho, aquele resto de poesia que subsiste em você se apequena mais um pouco.

Literatura

Você não imaginou, nem poderia, que o seu sonho de menino estaria, tantos anos depois, irrealizado e nas mãos de um velho incompetente.

Início de "O destino bate à porta", de James M. Cain

"Eles me atiraram para fora do caminhão de feno lá pelo meio-dia. Eu tinha entrado no caminhão na noite anterior, perto do lago, depois da fronteira, e, assim que consegui me enfiar debaixo da lona, peguei no sono. Era o que eu bem precisava depois de três semanas em Tia Juana, quase sem dormir, e ainda estava roncando quando eles estacionaram para dar um tempo para esfriar o motor.Então, viram meu pé aparecendo e me puxaram para fora. Tentei fazer graça, mas os caras continuaram na deles, de modo que a piada não colou. Apesar de tudo, os sujeitos me deram um cigarro e eu comecei a andar pela estrada, procurando um lugar para comer."
(Tradução de Evelyn Kay Massaro, publicado pela Brasiliense.)

domingo, 24 de setembro de 2017

Se

Se mordesse logo no primeiro encontro, ao invés de trazer flores, o amor não seria o amor.

O ceifador

O amor mata os grandes poetas e às vezes até os nem tanto.

Norma

De vez em quando, o poeta deve falar de amor, para não pensarem que ele é sempre fútil em seus temas.

Confissão

Agora, que a idade te absolve de quase tudo, talvez tu possas admitir que foi a vaidade que te levou ao caminho da literatura.

Espaço

Cada um de nós é, de certo modo, histórico. Eu sou pré.

Na revista Rubem (www.rubem.wordpress.com)

Hoje eu falo de coisas de interesse muito duvidoso.

sábado, 23 de setembro de 2017

Rito de passagem

O pior que nos acontece quando nos tornamos adultos é que não podemos mais escrever só aquelas coisas bonitinhas.

Ora

Acho curioso dizerem que alguém se dedica inteiramente à literatura. Existe algum outro modo?

Amor antigo

Ser triste é, para mim, desde a adolescência, um compromisso. Era isso ou rir como os bocós.

A mágoa

O que me dói, mesmo, é duvidarem de minha tristeza.

No tranco

Alguns sofás custam a descobrir que sua vocação é a de servirem de afiadores de unha para o gato da casa.

Paizão

Nas histórias que conto, sempre arranjo um jeito de dar à tristeza o papel principal.

Lógica

Uma regra elementar de decoração é: o melhor sofá é o do gato. O resto se ajeita por si só.

Convicção

Mesmo quando se trata, como no meu caso, de uma vocação, ser triste é às vezes cansativo e exige certa força de vontade.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Traço essencial

É sempre com orgulho que me proclamo triste. Vejo nisso, não posso negar, minha única superioridade.

Aviso na porta

Não me venha com histórias tristes. Não consigo dar conta nem das minhas.

Hipótese

Se escrever fosse ao menos considerado um vício - e curável.

Reconhecimento

Como és incompetente. Outro teria te destruído na metade do tempo.