domingo, 17 de fevereiro de 2013

No jornal (Caetano Álvares) - 22 - Fernão Lara Mesquita

Filho de Ruy Mesquita, Fernão Lara Mesquita trabalhou por muito tempo na editoria de internacional. Todos ali, bem mais velhos que ele, eram sisudos, sérios até o nó da gravata e - talvez por terem a companhia diária do filho de um dos donos do jornal - faziam questão de levar até o limite essa sisudez e seriedade. Eram todos - ou quase todos - ex-seminaristas (e os que não eram gostariam de ser). Lembro-me de uma noite em que Fernão veio à editoria na qual eu trabalhava (primeira página, na época) e, sorrindo, fez uma espécie de desabafo ao editor-chefe, Miguel Jorge, e ao secretário de redação, Luciano Ornelas: "Alguém aqui tem um cigarro? Lá ninguém bebe, ninguém fuma, ninguém fornica, ninguém faz nada. Tudo carola." Aí, fixou os olhos no bolsinho superior do meu paletó, viu meu pente Flamengo e balançou a cabeça: "Aqui só tem doido, mesmo. Pente pra quê?" Ele tinha certa razão. Meus cento e vinte fios de cabelo (uns cem a mais do que hoje) me garantiam já o direito (e o dever) de tecnicamente me considerar um careca ou - como dizia Clóvis Meira, revisor dos melhores - um respeitável alopécico.

Kama Sutra - CXII

Gosta de encostar o rosto nos cabelos dela quando a brisa da noite já arrefeceu a mornidão deixada neles pelo sol. É o momento em que, com a luz do quarto apagada, o trigal, adormecido, permite mais ousadia às mãos e aos lábios e facilita amenos milagres, como a aparição de uma estrela.

De Proust, sobre amor e ódio

"Proust também explora a ambivalência de Marcel em relação a Albertina, descrevendo os momentos em que 'detestamos alguém que amamos', de forma paralela à observação de Freud de que o sentimento oposto é o mais próximo de outro com que troca de lugar facilmente. E, ainda de forma paralela a Freud, Proust explora a relação entre o amor e o sofrimento, enfatizando a conexão entre o instinto sexual e a crueldade, seja contra si mesmo, seja contra outros."

Do artigo "Páginas da memória - e do inconsciente", de Eliana Cardoso, publicado no "Sabático", suplemento do Estadão, 16-2-2013.)

De Katherine Mansfield, sobre amor e vingança

"Como Dostoiévski conhecia aquele extraordinário sentimento de vingança, aquele prazer de uma pequena risada - que vem de uma mulher em sofrimento? É uma coisa muito secreta, mas profunda. As mulheres não desejam poupar aqueles a quem amam. Se eles as amam com o tipo de devoção cega com que Shatov amava Maria, elas gostam de atormentá-los, e esse tormento lhes traz um alívio positivo. Será que isso se parece de alguma forma com os tormentos tão frequentemente observados nos seus romances? Essas mulheres ficam felizes em atormentar os amantes? Não, eles também estão sofrendo as agonias do parto, estão dando à luz suas novas personalidades. E nunca acreditam nisso."

(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Boa tarde

É a mim que você está desejando boa tarde? Você já deveria saber que isso é impossível - principalmente você, que conhece tão bem a razão.

Retribuição

Quando escrevo aqui sobre minhas tristezas, é óbvio que, mesmo sem a permissão de vocês, eu os faço compartihar delas. Que vocês nunca sintam o desejo de retribuir contando-me tristezas que possam vir a afligi-los. Que a tristeza seja algo que vocês, se precisarem lembrar como é, venham buscar aqui. Tenho um estoque delas, para todos os tipos e ocasiões.

No jornal (Major Quedinho) - 21 - No Estadão e na Folha

Nos meus primeiros tempos de jornal conheci um revisor que trabalhava durante o dia no Estado e à noite na Folha, onde ficava até o início da madrugada. Era dos antigos, devia ter cinquenta anos ou perto disso. Mas algumas vezes, mesmo depois da jornada dupla, não ia direto para casa. Dava uma passada pelo Som de Cristal, a mais famosa gafieira de São Paulo. Só saía de lá com o sol raiando, e parava numa banca de jornais da praça João Mendes. Comprava a Folha e apanhava embaixo do tapete do seu fusquinha um carimbo que aplicava na primeira página: Cortesia. Os funcionários, tanto os do Estado quanto os da Folha, ganhavam exemplares assim carimbados, depois que as rotativas acabavam seu trabalho. E era com esse carimbo que ele se livrava de qualquer suspeita de que pudesse ter estado de madrugada em algum outro lugar que não fosse a Barão de Limeira. A diferença no horário de chegada ele naturalmente atribuía a algum segundo clichê, uma daquelas notícias que surgiam de repente, depois de fechada a edição, e que não podiam ser ignoradas. Ele contava essas peripécias com gosto, como se dissesse aos mais novos que também os velhos sabiam divertir-se, e como. Mas de vez em quando admitia: "Preciso acabar com isso. Meu filho já tem quase dezoito anos e qualquer noite topa comigo lá na gafieira... Imaginaram?" Imaginamos: ele devia ter um metro e cinquenta, era magríssimo, e tinha predileção por mulatas altíssimas, e todas beirando os cem quilos.

O rapazola e o velhote

A mulher, uma daquelas que têm quarenta mas não parecem haver chegado aos trinta, conta a duas amigas como o rapaz se aproximou dela no shopping: "Vocês duas precisavam ver o tipo. Uns dezoito anos. Nem olhei direito, mas acho que era daqueles que ainda mamam na mãe e têm aparelho nos dentes. Ficou andando do meu lado, como se fosse meu guarda-chuva, falando, falando. Eu não entendi quase nada, só quando ele falou motel." "Imaginou você entrando num motel com ele? Iam pensar que eram mãe e filho", gracejou uma das amigas, enquanto a outra ria. "Filho?!", a mulher exclamou. "Nada a ver! Se vocês vissem a cara dele. Jesus! Sei que lá pelas tantas, depois que ele falou em motel, eu parei num quiosque de sorvete do McDonald's, entrei na fila, virei para trás e disse bem alto: "Já falei que não vou pagar sorvete pra você. Vaza, menino!" As duas amigas se sacudiram com as gargalhadas: "E ele vazou?" "Na hora", respondeu a mulher, gargalhando também. "Se fosse um tempinho atrás, você acabava devorando o franguinho, é ou não é?", disse, decepcionada, uma das amigas. "É, eu sei que tenho essa fama de loba", a mulher comentou, como se beleza e charme fossem um fardo. E continuou: "Mas querem saber? Não adiantou nada. Eu tinha acabado de dar um bico no pivete e, quando fui ver, estava andando comigo, quase enganchado no meu braço, um velhote que parecia ter saído do Araçá. Bom, esse eu nem deixei começar a falar. Fui logo dizendo: Meu senhor, seu nome não é Matusalém? O alto-falante acabou de chamar o senhor.

Espelho

Alguns desses velhos
de cujo olhar fujo
quando me querem olhar
me olham depois
com todo o ódio
que conseguem juntar

Jamais entenderiam
nem se eu um dia
viesse a lhes dizer
que não olho para eles
não para não vê-los
mas para não me ver.

Há momentos...

... em que, como agora, alguém começa uma frase sem saber aonde ela o levará. Às vezes frases assim são as melhores. Nascem sem lógica - movidas só pelo amor e pelo sentimento, que sempre acham seu rumo, ainda que seja o pior. Quando percebermos, poderemos estar tocando a campainha da amada numa hora em que andam pelas ruas só ladrões e malucos. Se a amada atender, declaremo-nos malucos, se bem que as evidências já declarem isso por si sós, e - como bela saída - digamos que fomos dizer boa noite. Boa noite