segunda-feira, 1 de julho de 2013

Soneto das tristes lembranças

Tivéssemos observado
Com maior zelo, teríamos
Visto que nos iludíamos
Julgando eterno o passado.

Brilhava o sol, debruçado
Sobre a manhã, e sentíamos
No ar que gulosos hauríamos
O seu hálito amornado.

Devíamos ter sabido
Ou ao menos pressentido
Que tudo se desfaria:

O sol, o dia, o momento,
Todo o nosso sentimento,
Todo o amor, toda a magia.

Um trecho de Elfriede Jelinek

"É melhor o cume da arte do que as baixadas do sexo. A mãe acha que, ao contrário do que se diz por aí a respeito da vida desregrada dos artistas, o melhor que um artista tem a fazer é esquecer sua sexualidade. E, se não for capaz, será simplesmente humano, mas não pode ser simplesmente humano. Pois então não será divino! Infelizmente as biografias de artistas, que afinal são o que há de mais importante sobre eles, estão frequentemente repletas dos desejos e das astúcias sexuais de seus protagonistas. E eles criam a impressão errônea de que os pepinos da boa sonoridade só crescem sobre a podridão do composto da sexualidade."

(De A pianista, tradução de Luis S. Krausz, publicado pela Tordesilhas.)

Há de ser..

... um bom dia. Ou será que aquela história de que toda regra tem pelo menos uma exceção foi outra coisa que aprendemos errado?

Terceiro ato

No primeiro ato, a Vida apareceu fria e triste. No segundo, triste e fria. No terceiro, não tendo sido aplaudida nos dois primeiros, veio vestida como uma rameira, com uma garrafa de uísque na mão e cantando obscenidades. Chamou o público para dançar com ela, marcou colarinhos com batom e rebolou quadris de rumbeira colombiana. Esse terceiro ato durou mais que os dois anteriores juntos. Só um dos espectadores, um senhor, se queixou, dizendo ter visto a peça encenada muito melhor em três capitais da Europa. Quando, porém, a Vida, sentando-se no seu colo, lhe perguntou se era aquilo que estava faltando, ele proclamou que sim, e só a deixou sair depois que ela chamou por socorro e foi acudida por três rapazes afogueadíssimos, que a levaram para os bastidores, enquanto as luzes da ribalta se apagavam e o público se perguntava se aquilo tudo fazia parte da peça, antes de aplaudir com tamanho ímpeto que um dos candelabros da sala ameaçou provar a lei de Newton ali mesmo, em público.

O almoço de Natal

Minutos antes do almoço de Natal, uma das beneméritas do asilo fará um discurso em que esfarinhará todas as normas gramaticais. A cada achincalhamento do idioma, ele, com sua antipática mania de revisor, fará um reparo em voz alta. No fim do discurso, todos aplaudirão a caridosa mulher e o encararão com rancor. Quando servirem os pratos, cada garfada que ele der será acompanhada como se ele fosse um leão destroçando os ossos de um filhote de zebra. Saberá depois, pela diretora da instituição, que a benemérita terá perguntado quem era aquele velho metido a Pasquale Cipro Neto. Ouvindo tratar-se de um jornalista aposentado, ela dirá que, se ele era jornalista, ela era Madre Teresa de Paquetá. Calcutá, ele corrigirá, dando a estocada final, que lhe valerá ficar com uma ameixa a menos no pudim, além do apelido de Ranheta.

A linguagem do amor

Posso eu falar mal de quem inscreveu no meu corpo a linguagem do amor? Se eu maldisser algo, que seja o chicote, que poderia ter se cravado mais em minha carne e gravado melhor os caracteres.

Fora da faixa

Talvez sejam úteis para um ou dois leitores estas anotações diárias que faço sobre meu estado de espírito. Não as faria se tivessem algo daquela pretensa sabedoria atribuída aos velhos. Meu propósito, com elas, é justamente o oposto: mostrar como um macróbio pode continuar a ser movido pelas paixões, embora isso seja considerado um contrassenso. Imagino que eu não possa ser tido como um espécime particularmente representativo de minha idade, e creio que esse seja mais um motivo para que eu mantenha meus registros. Deve haver um bilhão de velhos sábios por aí. Um completamente fora do contexto, como eu, é mais raro. Talvez seja engraçado ver um velhote que tenta todos os dias atravessar o Viaduto do Chá andando de bicicleta sobre uma corda, numa bicicleta.

Longevidade

Já vivi tudo
tudo já me viveu

Me cansei de tudo
tudo de mim se cansou

Ontem dormi
diante do arco-íris
e o arco-íris bocejou
quando me viu.

Marinha

Não cantemos o amor que desliza como um veleiro pelo mar azul. Esperemos um pouco. Algumas nuvens sobre o barco nos sugerem paciência. Talvez haja logo algo que mereça ser cantado. O óbvio pode estar flutuando sobre a última onda calma.

De Jorge Luis Borges, sobre o Nobel

"Não me outorgar o Nobel se converteu em uma tradição escandinava; desde que nasci - a 24 de agosto de 1899 - eles não o concedem a mim."

"A Academia Sueca inicialmente premiava escritores que eram mundialmente conhecidos. Agora mudou de modus operandi: dedica-se a descobrir valores. Não a reprovo, eu gostaria que me descobrissem."

"O Prêmio Nobel de literatura é de uma insignificante academia, que só escolhe escritores medíocres."

"Na verdade, todos os anos o espero pacientemente, me iludo. E, embora saiba que não chegará, espero-o."

(Do livro Dicionário de Borges, de Carlos R. Stortini, tradução de Vera Mourão, publicado pela Bertrand Brasil.)