terça-feira, 2 de julho de 2013

A inspiração

Inspiração é uma palavra perigosa, traiçoeira, e felizmente cada vez menos usada no âmbito da arte. Ela dá a errônea impressão de que ao artista cabe esperar um momento de iluminação que, como um milagre, o colocará no caminho da obra-prima. Salvo casos raríssimos, uma obra de arte se constrói quase toda com trabalho. Na esfera da poesia, um flash ou um insight podem propiciar um resultado apreciável, especialmente em poemas curtos, como os haicais. Mas a inspiração costuma ter fôlego curto e não subsiste sem trabalho e disciplina. Poemas ditados por anjos a escritores febris são cada vez menos citados.

Sobre a indesejável facilidade

Escrever diariamente não há de ser uma obrigação autoimposta, mas uma aspiração natural, comum como o ato de respirar. Escrever por escrever aparenta-se mais com um hobby do que com um compromisso artístico e pode, por desenvolver a habilidade, fazer o escritor acreditar que nessa facilidade de construir frases esteja a parte essencial da literatura. O escritor, principalmente o jovem, deve desconfiar desse virtuosismo. Quando se fala de uma obra de arte, dificilmente a primeira isca lançada trará o melhor resultado. Na literatura, como em tudo na vida, há de haver algo amargo, doído, uma escavação que deixe ao menos um pouco de sangue à mostra nos dedos.

A má escolha

Sempre que encaro a mediocridade de minha vida, deploro ter pensado, um dia, em dedicar-me à literatura. Se não fosse essa presunção, eu talvez tivesse podido ser medianamente feliz: um homem preocupado com o churrasco de domingo, com a boa digestão, o pagamento pontual das contas e o desenvolvimento escolar dos netos.

A chama

Se nos olhássemos com o mesmo interesse com que nos olham os outros, sofreríamos muito menos. Teimamos em alimentar uma chama interior cuja existência só nós conhecemos.

Este produto não contém glúten

Olho para minhas mãos e me pergunto se podem ser as mesmas daquele menino que um dia sonhou ser capaz de enfrentar piratas. Nem os tubarões aceitariam hoje essa massa de cor indefinida, apetecível como uma folha de papel velho.

Um poema de García Lorca

"A SOMBRA DE MINHA ALMA

A sombra de minha alma
foge por um ocaso de alfabetos,
nevoeiro de livros
e palavras.

A sombra de minha alma!

Cheguei à linha onde cessa
a nostalgia,
e a gota de pranto se transforma
em alabastro de espírito.

(A sombra de minha alma!)

O copo da dor
se acaba, porém resta a razão e a substância
de meu velho meio-dia de lábios,
de meu velho meio-dia
de olhares.

Um turvo labirinto
de estrelas fumegadas
enreda minha ilusão
quase murcha.

A sombra de minha alma!

E uma alucinação
ordenha-me os olhares.
Vejo a palavra amor
desmoronada.

Rouxinol meu!
Rouxinol!
Ainda cantas?"

(De Poemas de amor, de Federico García Lorca, tradução de Floriano Martins, publicado pela Ediouro.)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Os Drewnicks...

... vão se finando. Dos que para aqui vieram, noventa anos atrás, restou uma de minhas irmãs. A penúltima se foi ontem. Trabalharam duro, num tempo em que trabalhar duro era comum e não era tido ainda como epopeia. Não falavam uma palavra em português quando desembarcaram, e nem sabiam bem onde estavam. Foram se arranjando. Cada um se empregou em algum lugar - até minhas irmãs, que viraram pajens - e conseguiram sobreviver. Depois desse estágio, um orgulho próprio das famílias de outrora levou todos a concentrar esforços para que pelo menos um de nós estudasse. Meu irmão (nascido já aqui, como eu) já trabalhava também, entregando remédios numa bicicleta, e coube a mim, o caçula, ser o estudante. Devo isso a todos eles e me arrependo de não ter sido nada melhor do que fui. O esforço deles merecia isso. Eu peguei ainda, bem pequeno, um pouco dos mais difíceis tempos da família. Morávamos numa pensão na Barata Ribeiro. A dona cobrava pelos banhos quentes. O chuveiro era na parte alta do lúgubre sobrado, onde ela ficava instalada, dia e noite atenta para que ninguém desfrutasse aquele luxo da civilização sem pagar. Era ajudada, nessa vigilância, pelo barulho aterrador que fazia o chuveiro. Mesmo assim, de vez em quando, de madrugada, um ou dois de nós subíamos a escada, que rangia para acordar a mulher, e burlávamos a fiscalização. Que delícia era aquele banho roubado. Jamais tomei um igual. Chamávamos a dona da pensão de bruxa. Pobre mulher. Pensionistas viviam fugindo e ela talvez fosse mais pobre do que nós.

A diabólica Elfriede Jelinek

Há em A pianista, de Elfriede Jelinek, um sadomasoquismo agudo, perverso, suave, selvagem, terno, erótico, delirante - e belo. Atingir, como ela conseguiu, a beleza nesse território comumente explorado pela pornografia é uma das maiores façanhas literárias que eu, em tantas décadas de leitura, presenciei. De algumas das cenas saí exausto, acabado, redimido e culpado ao mesmo tempo, como se tivesse participado delas. A pianista é um livro extremamente perturbador e sua leitura convulsionou pontos da minha mente que eu imaginava já a salvo de qualquer instigação. É um desafio àqueles que se consideram adultos em assuntos sexuais. Há alguns séculos, Elfriede Jelinek seria lançada à fogueira não como bruxa, mas como o próprio Demônio, e se contorceria de luxúria e gozo.

Metamorfose

Quando ela beija a rosa, as pétalas se lastimam. Gostariam de ser a polpa de um fruto maduro.

Espelho

Sempre que me avalio com isenção e vejo tudo que há de errado e nocivo em mim, sou obrigado, pela lógica, a fazer mau juízo dos meus semelhantes.