Bonita palavra: tetas.
Mas os poetas usam seios
Para rimá-los com anseios
(Mais uma de suas tretas).
terça-feira, 2 de julho de 2013
O amor...
... poderia ter permitido que ficássemos com alguma doçura. O teu sorriso eu não sei, mas o meu se nutre de dois lábios nos quais as palavras deixaram um amargor que é quase um veneno. O amor me marcou, e todos se afastam de mim como se em minha testa estivesse escrita a palavra desgraça. Que histórias ele terá contado por aí? Tudo meu se resseca e apodrece. Se com as mãos que escreveram poemas para ti eu vou à fonte, a água se turva, se amarela e tem um gosto que eu não estranharia se me dissessem vir da urina de um gnomo infectado pelas putas da Estação da Luz.
Kama Sutra - CCII
Se queres mesmo, então lambe,
Mas com fervor e poesia.
Que teu lamber não descambe
Para a vulgar putaria.
Mas com fervor e poesia.
Que teu lamber não descambe
Para a vulgar putaria.
Artistas
A arte não exige ser cultuada por mártires, mas certamente dispensa os bissextos e os curiosos.
Exortação à maciez
Veludo, seda, cetim,
Esquece que morto eu sou,
Simula que vivo estou
E me toca, e roça em mim.
Esquece que morto eu sou,
Simula que vivo estou
E me toca, e roça em mim.
Um poema de Anna Akhmátova
"IMITADO DO ARMÊNIO
Aparecerei em teus sonhos como uma ovelha negra
de pernas mirradas e inseguras
e me aproximarei de ti balindo e chorando:
'Ceaste regiamente, Padixá?
Tens o universo como a conta de um rosário,
a vontade de Alá te abençoa radiosa...
Achaste gostoso o meu pobre filhote?
Ele te agradou, a ti e aos teus filhos?'"
(De Antologia poética, tradução de Lauro Machado Coelho, publicado pela L&PM.)
Aparecerei em teus sonhos como uma ovelha negra
de pernas mirradas e inseguras
e me aproximarei de ti balindo e chorando:
'Ceaste regiamente, Padixá?
Tens o universo como a conta de um rosário,
a vontade de Alá te abençoa radiosa...
Achaste gostoso o meu pobre filhote?
Ele te agradou, a ti e aos teus filhos?'"
(De Antologia poética, tradução de Lauro Machado Coelho, publicado pela L&PM.)
Sonha às vezes,
ainda, com mulheres, especialmente uma que parece uma imensidão plana de areia, onde aqui e ali se erguem algumas dunas mornas que ao contato das mãos crescem. Ele as toca, toca, e elas se agigantam, e ele as galga, galga, e quanto mais as galga elas mais crescem, e ele é tomado todo pela areia e a engole agradecido, como se fossem nuvens carregadas de chuva ou seios abarrotados de leite.
Chega um...
... momento em que procuramos caminhos nos quais não haja árvores. Receamos que os frutos se retraiam ao áspero contato de nossa mão. Receamos não ter dentes capazes de invadir sua polpa. Receamos ouvir o riso escarninho dos pássaros, que ferem ainda a casca com seus bicos juvenis.
Será uma...
... boa tarde, quem sabe. Dependerá do livro que eu ler, provavelmente Crônica de uma vida de mulher, de Arthur Schinitzler, autor que, antes de Elfriede Jelinek (a partir de ontem um irremovível marco para mim), explorou os obscuros cantos da fascinante mente humana. Há muito, já, não vivo, no sentido usual que se dá ao verbo. Minha vida é aquela que, sem dentes já para a vida normal, eu pego, em colheradas, nos livros, como um velhote tomando sua sopa. Sou um velhote sem direito ainda a um asilo, sentado num sofá que me dá a garantia de não se mover um centímetro sequer, para lado nenhum. Tomo minha sopa, sem me aventurar a mordiscar um pedaço de carne. Pode fazer-me mal. Os personagens dos livros cravam os dentes na carne, por mim, aventuram-se em incursões de voyeurismo, debatem-se entre Deus e o Diabo, têm acessos babosos de luxúria, estremecem de gozo. Eu os acompanho com simpatia, empresto-lhes toda a energia que ainda mantenho, e cochilo depois, com o cansaço da aventura. Melhor assim. Minha covardia de sempre encontrou um aliado na velhice e eu, meio cúmplice, meio testemunha, vou, com os espasmos de vida dos heróis folhetinescos, simulando ainda estar vivo, também.
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