quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Kama Sutra - DXL

Os membros que hoje choram suas lágrimas leitosas têm o dom da clarividência. Lastimam-se já pelo tempo em que nem uma gota terão para verter, nem ao entrar na cama nem ao sair.

Do livro "Explorações", de Rula Wicknerd

Falava-se, na tribo, de um ancestral dotado de um membro tão portentoso que parecia uma sucuri. Dei à história o crédito que merecia: nenhum. Três anos depois, em visita a outra tribo do continente, sabendo que eu havia estado naquela aldeia, perguntaram-me se eu tinha visto o fenômeno. A fama chegara até ali, um lugar separado de outro por mais de trezentos quilômetros de selva cerrada. A nativa que me perguntou fez um gesto para simular o tamanho e, com um sorriso que pedia minha cumplicidade, disse: sucuri.

Kama Sutra - DXXXIX

Na fantasia dele, ela está sempre de costas, nua, e caminha para a porta do quarto, como se fosse sair. O único ruído é o dos seus sapatos altos, que lhe empinam a bunda e lhe dão um ar que um mau escritor definiria como aristocrático. Ele sempre chega a tempo, evita que ela saia e a leva de volta para a cama. Ali, enquanto tenta convencê-la de que ela merece um castigo, ela, sentada, tira um dos sapatos e começa a passá-lo no umbigo, num gesto que ele nunca sabe se é feito para fazê-lo desistir de aplicar a pena ou se é propiciatório.

Do amor implorado

É triste ver um velho implorando por amor com sua boca murcha. É triste ver como esse amor lhe é negado - um amor que provavelmente se satisfaria com algo nem remotamente similar aos grandes e cansativos atos da juventude.

Kama Sutra - DXXXVIII

Lidar com o pinto não nos matou de tuberculose na infância, nem nos levou ao manicômio. Ele cresceu saudável, nós crescemos também, e, se nos dizem hoje que continuar lidando com ele é um inadmissível regresso aos nossos verdes anos, que pretexto melhor poderemos esperar para acarinhá-lo?

Kama Sutra - DXXXVII

Há situações em que o sexo se esquece de sua autossuficiência e pede ajuda ao amor. Na hora de decidir, por exemplo, se deixa ou impede a língua de deslizar por uma bunda.

No asilo

A maioria de nós pode vangloriar-se de controlar a mente. Foi um longo trabalho. Podemos nos dizer maduros, agora. Somos confiáveis. Jamais sequer pensaremos naquelas loucuras que faziam brilhar nossos olhos. Não sonhamos mais. Temos a vida toda sob o nosso domínio. Sabemos que a imensidão do mundo é algo em que as pessoas normais só pensam, no máximo, até os dezoito anos. Ir até o jardim e voltar nos basta. Tudo além do jardim e dos muros é uma ilusão. Andamos já bastante hoje, para quem usa bengala. Às nove nos servirão o chá. Às dez estaremos dormindo. Em cada um dos quartos, acima da cama, Nossa Senhora vela por nós. Amanhã, quinta, virá ler para nós aquela voluntária, a de pernas longas. A irmã não consegue fazê-la usar uma saia mais comprida. Talvez ela se sente ao meu lado. Na última vez, ela me encostou o seio no braço, este aqui, o esquerdo.

Pai

Desde que o filho morreu, há três meses, vai passar a noite com ele no cemitério. Leva um cobertor, um travesseiro e alguns agrados para distribuir entre os os porteiros e os vigilantes.

Pegadinha

Em pica-pau
perverso pai
menino mau
o assento cai
o assento vai
o assento fica
em pi de pica
ou pá de pau?

Um trecho de Zhang Xianliang

"Na primeira vez em que vi você, não fazia ideia de que nós dois seríamos amantes, ou melhor, que iríamos fazer amor.
   Ao me ajudar a retirar a bagagem, você parecia uma mulher casada e virtuosa, uma mãe cuidando de seu filho. Pensei comigo mesmo como seu marido e filho tinham sorte, mas ao mesmo tempo pensei: 'A mulher que eu esperava na Costa Oeste não veio, mas aqui na Costa Leste surgiu inesperadamente outra mulher.'
   Para onde quer que se vá há sempre uma mulher.
   Eu a segui empurrando o carrinho de bagagem, consciente da segurança com que você abria caminho na multidão. Você me apanhou como uma mosca e eu queria ser apanhado.
   Gostei do movimento dos seus quadris, do ritmo semelhante a um fluxo de água levando vida a tudo em sua volta. Sua bundinha tinha uma cadência que parecia mandar um recado, um apelo. Eu segui depressa, com medo de perder você. Só depois é que soube que nunca poderia perdê-la."

(De Acostumado a morrer, tradução de Vera Maria Whately, publicado pela Editora Best Seller.)