quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Bola de cristal

Quando ele dizia que logo estaria morto, o que se lia nos seus olhos era o mais profundo, honesto e inequívoco otimismo.

Soneto dos fantasmas que me atormentam (versão final)

Enquanto durmo não sei
Nem quero saber de Dante,
De Tolstói, Cabrera Infante,
De Scott e nem de Hemingway.

Enquanto durmo, eu espaços
Não abro para Flaubert,
Para Pascal ou Voltaire,
E nem para John dos Passos.

Enquanto durmo, eu me isento
Do inenarrável tormento
Que impõe a literatura.

Mas quando acordo vêm Eça,
Machado, Agustina Bessa,
E recomeça a tortura.

Personagens, quase parentes

Tenho saudade dos anos em que escrevi novelas juvenis para a coleção Vaga-Lume, da Ática. Que experiência era criar os personagens, traçar-lhes o perfil, fazê-los agir de acordo com a trama e, como um pai, esmerar-me para que tanto meus "filhos" vilões quanto os heróis fossem os melhores vilões e os melhores heróis. Alegravam-me seus sucessos e abatiam-me seus fracassos. Temia magoá-los. A personagem que teve o mais imprevisto destino foi uma velhota cujo papel seria a princípio tão fortuito que um parágrafo ou dois lhe bastariam. Sua simpatia a levou a ganhar um espaço bem maior, um nome (estava inicialmente destinada a ser anônima) e, por um mérito que ela surpreendentemente me impôs, depois de encantar outros personagens, se tornou uma espécie de chave para a compreensão do livro. Sempre que me lembro dessa velhinha do meu livro Um inimigo em cada esquina me vem também à memória a peça Seis personagens à procura de um autor, de Pirandello, na qual se pode ver que, ao contrário do que se costuma imaginar, um autor está longe de ter nas mãos o controle total do que escreve.

Cotação do dia

Tantos lugares onde o amor poderia agonizar... Precisava ser na minha alma, e tão dolorosamente?

Pauta

Que não seja amor o assunto.
Já se gastou vela demais
Com tal defunto.

Soneto do bem-viver (para Celina Portocarrero, Liberato Vieira da Cunha e Mariana Ianelli)

Se houvéssemos compreendido,
Desistiríamos já
De buscar algum sentido
Onde nenhum sentido há.

De onde viemos, aonde vamos,
De que nos vale saber?
Que bem viver nós saibamos
E que deixemos viver.

Nem a brisa se preocupa
E nem a rosa se ocupa
Em conhecer de onde vêm

Ou aonde depois irão.
Se amam, se tocam, se dão,
Como lhes cabe e convém.

De Mariana Ianelli sobre Mario Quintana

"Íntimo de histórias bíblicas, da Torre de Babel, da vida de Caim, da Arca da Aliança, do Apocalipse, Quintana fez desfilar por seus poemas uma multidão de anjos: anjos da guarda, gloriosos, molhados, depenados, boêmios, dentuços, rechonchudos, anjos de pedra, anjos sonâmbulos galgando degraus, atravessando espelhos, o Anjo Rebelado, o Anjo das Tempestades, o Anjo da Encarnação, o Anjo das Últimas Queixas. Ele sabia que o que não estava na Bíblia estava em Shakespeare. Que aos olhos de Deus cada um tem o tamanho de um universo. Que não existem poetas pequenos ou grandes, que cada poeta é o único rei do país de si mesmo. Que o refinamento da simplicidade só vem com o tempo e numa poesia feita de relógios sem ponteiros. Que todos nós temos todas as nossas idades ao mesmo tempo."

(De Para aqueles a quem os dias são um sopro, edição da ardotempo.)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Estadão (para Patricia Maria Mesquita)

Hoje não sei. Mas, por volta de 1960, o primeiro lugar onde o sol aparecia em São Paulo era a rua Major Quedinho, para saber as últimas notícias, ver a hora no relógio do topo do prédio e dar mais uma espiada no mural de Di Cavalcanti.

Reverência

Naquele tempo, tu lembras, eu sabia curvar-me gentilmente, como convinha a um cavalheiro com alguma esperança, ainda que estivesse diante de uma mulher inalcançável como uma rainha. Hoje o tempo e os infortúnios me curvaram de tal forma que me perdoarás se no gesto com que te reverencio vires semelhança com um boi que, de tanto ver adiada sua ida ao matadouro, se mantém já pronto, como se afinal tivesse chegado o dia.

Dez anos

Sempre que chega o carteiro, o Velho faz a mesma pergunta:
"Alguma carta de Estocolmo?"
Há dez anos a resposta do carteiro é:
"Não."
Há dez anos o Velho se lamenta:
"O Nobel me esqueceu."
"Quem sabe amanhã", sugere o carteiro.
"Eu já estou perdendo a esperança."