quarta-feira, 3 de julho de 2013
O realismo
O realismo às vezes leva o escritor a ter a ideia de que a literatura é uma espécie de documentário. E ele começa a dizer que, às quatro e vinte e dois do dia tal de tal mês do ano tal, estando o céu carregado de nuvens, um homem, sob o peso de sua mágoa amorosa, ouviu tal canção e misturou suas lágrimas à chuva que nesse instante começava a cair sobre tal bairro de tal cidade. Se a noite compuser um cenário melhor para a tristeza do protagonista, ainda que este seja o próprio escritor, que venha ela, com estrelas ou não, conforme a conveniência. A literatura não precisa prestar contas a mais ninguém senão a si mesma. A literatura tem sempre a sua verdade e deve ser um instrumento de libertação, não uma corrente fechada com cadeado. O realismo extremado tende a produzir não escritores, mas escreventes de delegacia.
Os sentimentos
Acredito que os sentimentos devam ser exacerbados. Mornidão e placidez são um convite ao sono. Se o escritor não é um espiritualista, um budista, um nefelibata, deve sentir as veias explodindo quando fala de amor, por exemplo. O ruído do amor há de ser o de uma cachoeira em tarde de fúria. Há de arrastar tudo em seu caminho. Se nesse caminho houver alguém num barquinho tocando um bandolim e entoando uma suave canção romântica, que seja arrastado também. O amor há de rugir, bramir, exibir os dentes, mostrar as garras. Para que diabos haveremos de querer um amor cujo maior encanto seja o de desfazer um novelo de lã? Ainda que mintamos um pouco, ou muito, desembestemos a cachoeira.
Na gaveta
Talvez tenhamos já escrito aquela página que nos imortalizaria. Estávamos talvez desatentos nesse dia, ou mais descrentes do que nunca em nossa capacidade, e lá estão as preciosas linhas em algum caderno soterrado por outros, numa gaveta que daqui a alguns anos será esvaziada diretamente para o lixo. Não são muito diferentes as outras imortalidades, aquelas que os jornais e as tevês escancaram diante de nós.
O sexo
Há quem seja contrário à descrição de cenas de sexo. Penso eu: e por que não descrevê-las? Se alguém descrever em cinco páginas alguém mordendo uma maçã, e conseguir manter entretido o leitor, ainda que não necessariamente com água na boca, por que não dar ao sexo ao menos o mesmo número de páginas? Se bem que as maçãs...
Um daqueles
Eu sou um daqueles que um dia pensaram poder tornar-se artistas. Isso foi há seis décadas e, se aqueles a quem confiei minha esperança rissem como riem agora, teriam me poupado todos esses anos de trabalho vão.
Um trecho de Goethe
"Ela não vê, não sente que está preparando um veneno que será mortal para ambos nós. E eu... bebo com avidez, com sofreguidão, a taça fatal que ela me apresenta. O que significa o meigo olhar com que muitas vezes me contempla? Muitas não; algumas. E essa complacência com que acolhe a comoção que a sua presença em mim desperta, e a compaixão que os meus sofrimentos lhe fazem transparecer no semblante?
Ontem, quando me retirei, estendeu-me a mão dizendo:
"Boa noite, querido Werther!"
Querido Werther! Foi a primeira vez que ela o disse; Querido Werther! A alegria que senti penetrando-me até o fundo da alma! Cem vezes repeti essas palavras. E, à noite, ao deitar-me, falando comigo mesmo, exclamei inadvertidamente:
"Boa noite, querido Werther!"
E não pude deixar de rir de mim próprio."
(De Os sofrimentos de Werther.)
Ontem, quando me retirei, estendeu-me a mão dizendo:
"Boa noite, querido Werther!"
Querido Werther! Foi a primeira vez que ela o disse; Querido Werther! A alegria que senti penetrando-me até o fundo da alma! Cem vezes repeti essas palavras. E, à noite, ao deitar-me, falando comigo mesmo, exclamei inadvertidamente:
"Boa noite, querido Werther!"
E não pude deixar de rir de mim próprio."
(De Os sofrimentos de Werther.)
terça-feira, 2 de julho de 2013
Corrigendas
O mais comum é os artistas não aceitarem nada do que foi feito enquanto eles ainda não estavam no mundo. Não fariam as árvores como elas são, tornariam diferentes as flores, mexeriam em tudo. Como é desleixada e incompetente a natureza. Há em cada um deles uma arrogância que talvez nem Deus se permitisse. O artista que não for assim não merece o nome.
Um trecho de Gabriel Perissé
"O amor é exigente, nunca está satisfeito. E quem não é exigente nessa tarefa de amor que é escrever, quem diz que escrever é fácil, que é questão de aplicar meia dúzia de regras, que basta coordenar alguns 'macetes', essa pessoa ainda não sabe o que é amar, e o que é escrever."
(Do livro Ler, pensar e escrever, publicado pela Editora Arte & Ciência.)
(Do livro Ler, pensar e escrever, publicado pela Editora Arte & Ciência.)
As pessoas...
... e as coisas são seres inanimados. Quem lhes dá vida são as palavras. Nomear alguém ou algo com ternura é fazer-se cativo de um feitiço do qual talvez nem a morte nos livre. Quantos há que ardem na própria chama por não saberem ou por duvidarem disso. Certas palavras, como amor e amada, jamais devem ser pronunciadas com a plenitude dos lábios e da alma. Mesmo lê-las é arriscado. Houve um homem que, tendo tomado a vida toda essa precaução, foi ludibriado e leu, num sonho, essas palavras, escritas num livro envolto em fumaça. Tinha oitenta anos e, quando acordou, renegou a família, sumiu de sua casa e de sua aldeia e começou a perseguir pastoras de todas as idades, em todos os montes, como um lobo caçando ovelhas.
Um trecho de "Os sofrimentos de Werther", de Goethe
"Chego por vezes a não compreender como ela possa amar outro... como ela ouse amar outro... quando eu a trago aqui no coração, que ela enche inteiramente, quando ninguém mais conheço, ninguém mais vejo e nada mais possuo no mundo senão a ela!..."
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