terça-feira, 1 de outubro de 2013
O brilhante pó que não somos
Que Deus tenha querido que fôssemos pó é algo que se entende. Ele ter feito desse pó um repositório tão grande de sentimentos é que nos incomoda e infelicita. O amor, por exemplo. Tocado por ele, nosso pó chega a se julgar imortal. Cada partícula nossa parece brilhar, como se fizesse parte de um arco-íris. Quanto sofre nosso pó até ser varrido para o esquecimento. O amor é a maior covardia que Deus cometeu contra nós.
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Soneto do doce veneno
Amor, teu sangue malsão
Ainda nas veias me queima
E é por ele que ainda teima
Em viver meu coração.
Por mais nefasto que fosse,
Se eu dele quiser livrar-me,
Que outro sangue pode dar-me
Um sofrimento mais doce?
Amor, que bom ser o teu
Esse sangue que com o meu
Meu corpo doente percorre.
Que bom é sentir-te em mim,
Enquanto não chega o fim,
Enquanto o corpo não morre.
Ainda nas veias me queima
E é por ele que ainda teima
Em viver meu coração.
Por mais nefasto que fosse,
Se eu dele quiser livrar-me,
Que outro sangue pode dar-me
Um sofrimento mais doce?
Amor, que bom ser o teu
Esse sangue que com o meu
Meu corpo doente percorre.
Que bom é sentir-te em mim,
Enquanto não chega o fim,
Enquanto o corpo não morre.
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Um pouco de história
Antigamente, dizia-se que os poetas se alimentavam de brisa. Existe brisa ainda, hoje, mas dos poetas não se tem mais notícia.
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A imagem do amor
A imagem que hoje tenho do amor é a de uma mulher robusta e sorridente, de peitos escapando pela blusa, agachada junto a um homem morto. Ela molha miolinhos de pão no sangue dele e os vai pondo na boca de um cachorro. O amor não é a mulher, nem o cachorro, nem o pão. O amor é o homem. Os peitos estão na cena não por mero ornamento. Se o sangue e o pão não saciarem a fome do cachorro, ele poderá servir-se deles.
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Cavalos e homens
Há poucas coisas mais antipáticas que um homem montado num cavalo. Se os dois estão vivos, ainda há uma esperança de que o cavalo acabe derrubando o homem. Nas estátuas equestres, a antipatia se consolida e eterniza. Eu poderia começar a acreditar em alguma justiça no mundo se todos os cavalos de todas as estátuas do mundo se pusessem a lançar fumegantes e rancorosas bolotas de chumbo ou bronze nas praças, abrindo crateras que tragassem os homens e seus descendentes.
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Soneto do amor e do seu perfil
Quanto mais rude e mais vil,
Muito maior chance tem
O amor de encontrar alguém
Que a ele se mostre servil.
O amor tem esse perfil.
Não recompensa ninguém,
O bem não paga com o bem,
O amor é um ser senhoril.
Ao bom, ao puro, ao fracote
Ele reserva o chicote.
E para a dor atenuar
Das feridas que causou
Ele jamais se negou
A sobre elas urinar.
Muito maior chance tem
O amor de encontrar alguém
Que a ele se mostre servil.
O amor tem esse perfil.
Não recompensa ninguém,
O bem não paga com o bem,
O amor é um ser senhoril.
Ao bom, ao puro, ao fracote
Ele reserva o chicote.
E para a dor atenuar
Das feridas que causou
Ele jamais se negou
A sobre elas urinar.
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A baleia
Depois de três dias e três noites de impiedosa chuva, quando os moradores puderam sair de casa, um menino voltou alarmado da beira do rio. Havia ali uma baleia. Mas que baleia o quê, riram. Já se viu baleia em rio? Quando foram verificar, era a carcaça do amor, estourando de inchaço.
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O navio da esperança
Quando a vida me oprime mais do que consigo suportar, lembro-me das histórias de romances antigos, em que o herói embarcava num navio qualquer, o primeiro no qual fosse acolhido, e ia com ele para onde o destino o levasse. Havia tempestades, tufões, fome a bordo, pestes, tudo para que no último capítulo o herói, fortalecido pelo sofrimento, retomasse sua vida. Sinto aproximar-se o capítulo derradeiro, e nada de tempestades nem de tufões. Fome também não tenho. Pestes, nenhuma, a não ser que o amor se inclua entre elas. Não vejo como mudar minha vida, a não ser que o navio venha buscar-me em casa.
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Literatura
Soneto do palhaço inábil
Os meus dotes de bufão
Como um tolo eu exibi
A ti, apenas a ti,
Que eras minha multidão.
Buscando-te a aprovação,
Eu numa escada subi
E do alto dela caí,
De balde e cara no chão.
Por ti fiquei nu no palco
E me esparramaram talco,
Como se eu fosse um bebê.
Fiz graça, eu, que sou um triste,
Porém tu não me aplaudiste.
Eu te pergunto: por quê?
Como um tolo eu exibi
A ti, apenas a ti,
Que eras minha multidão.
Buscando-te a aprovação,
Eu numa escada subi
E do alto dela caí,
De balde e cara no chão.
Por ti fiquei nu no palco
E me esparramaram talco,
Como se eu fosse um bebê.
Fiz graça, eu, que sou um triste,
Porém tu não me aplaudiste.
Eu te pergunto: por quê?
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"Como Zaqueu", poema de Eugenio Montale
"O que se tem que fazer é subir no sicômoro
para ver o Senhor se vier a passar.
Ai de mim, não sou uma trepadeira e mesmo
ficando na ponta dos pés nunca cheguei a vê-lo."
(De Poesias, tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, publicado pela Record.)
para ver o Senhor se vier a passar.
Ai de mim, não sou uma trepadeira e mesmo
ficando na ponta dos pés nunca cheguei a vê-lo."
(De Poesias, tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, publicado pela Record.)
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