sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

"Ossos", de Ferreira Gullar

"depois de vinte anos
mostraram-me a urna
em que tinham guardado seus restos mortais

alguns ossos brancos:
os fêmures o ilíaco as vértebras e falanges
Era tudo

- Não pode ser.
- Como não pode ser?
- Esqueça - disse eu.

Estava no cemitério de São João Batista, em Botafogo.
Olhei para o alto onde zunia a luz do século XXI.

Vi que de fato
ele não estava ali:
eu o carregava comigo
leve impalpável
como o doído amor."

(Do livro Poesia, publicado pela Companhia das Letras.)

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