sábado, 2 de março de 2013
A abandonada
As ameixeiras, plantadas todas na mesma época, crescem vigorosamente. Apenas uma definha, como se fosse muito mais velha que as demais. As outras dançam, não temem agitar-se com seus braços fortes. Balançam-se, movem-se ao ritmo do vento jovem, cantam com ele. Ela é poupada até pelas brisas mais amenas. Deixam-na morrer, como ela quer. O vento que a amava deve estar ajudando um veleiro a transpor as ondas, num ponto qualquer do mar. Faz muito tempo que se foi. Prometeu voltar. Mas quando? Um pássaro velho, estropiado, pousa agora num dos seus galhos apodrecidos. Talvez não queira morrer sozinho.
Anotações sobre a morte do amor
Há de queimar, de doer. O amor há de se extinguir não como uma tarde sonolenta de outono, mas como uma tempestade tropical rasgando a noite com seus raios. Que o amor seja poupado de ir definhando num asilo, à espera de uma peritonite ou de uma pneumonia. Que ao amor se permita morrer queimado pelo seu próprio fogo, retorcendo-se nas chamas e desenhando ainda, com elas, seu derradeiro momento de beleza.
Kama Sutra CXXIV
Sempre que de ti preciso,
A minha imaginação
Mostra o rumo à minha mão
E leva-me ao paraíso.
A minha imaginação
Mostra o rumo à minha mão
E leva-me ao paraíso.
Um trecho de Katherine Mansfield
"Desde que sofri esta pequena crise, uma coisa esquisita acontece. Sinto que meu amor e minha saudade do mundo externo - quero dizer, o mundo da natureza - de repente aumentaram um milhão de vezes. Quando penso nas flores que crescem na grama, nos riachos, nos lugares onde poderíamos nos deitar e ficar olhando para as nuvens lá no alto, oh, eu simplesmente sonho com essas coisas, ao seu lado. Excluindo você, o resultado desta soma será zero. Sinto-me tão mal como se fosse uma menininha pequena, em pleno dia, trancada por alguém dentro de um armário escuro. Eu não quero bater na porta, nem fazer qualquer barulho, mas desejo que você venha com uma chave que você mesmo tenha feito e me solte: então, poderíamos sair juntos, pé ante pé, para um lugar agradável, onde todo mundo fosse como nós.
Você não deve pensar que, por escrever isto, eu esteja tremendamente triste. Sim, estou. Mas no fundo existe uma fé absoluta, existe esperança, existe amor. Tive, para ser franca como nós somos, um pequeno susto. Ainda estou tremendo. Isso dá uma ideia exata da situação."
(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)
Você não deve pensar que, por escrever isto, eu esteja tremendamente triste. Sim, estou. Mas no fundo existe uma fé absoluta, existe esperança, existe amor. Tive, para ser franca como nós somos, um pequeno susto. Ainda estou tremendo. Isso dá uma ideia exata da situação."
(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)
De Machado de Assis, sobre a beleza
"Só a beleza intelectual é independente e superior. A beleza física é irmã da paisagem."
(De Histórias sem data, Clube do Livro.)
(De Histórias sem data, Clube do Livro.)
Vegetal
Quando eu a mim me refiro
E uso a palavra viver,
Não quero mais que dizer
Que inspiro, expiro, respiro.
E, assim como um vegetal,
Me movo conforme o vento,
Sem razão nem sentimento,
Sem distinguir bem e mal.
Se agora tu me encontrasses,
Se para ver-me parasses
E em mim pousasses a mão,
Verias que quem morreu
Está mais vivo do que eu
E do que o meu coração.
E uso a palavra viver,
Não quero mais que dizer
Que inspiro, expiro, respiro.
E, assim como um vegetal,
Me movo conforme o vento,
Sem razão nem sentimento,
Sem distinguir bem e mal.
Se agora tu me encontrasses,
Se para ver-me parasses
E em mim pousasses a mão,
Verias que quem morreu
Está mais vivo do que eu
E do que o meu coração.
Kama Sutra - CXXIII
O que mais o encanta na mulher é o nariz. Pernas maravilhosas, lábios maravilhosos, olhos maravilhosos não são considerados assim por ele. Maravilhosos são os narizes. O motivo só ele sabe. Tem vinte e três anos. Quando estava com sete, uma empregada que tinha acabado de ser contratada pela mãe o iniciou, pedindo-lhe que guardasse segredo, numa brincadeira: a do nariz com nariz. Esfregavam um no outro, como se estivessem travando uma luta de espada. Ele gostou muito da brincadeira, pelo menos no início. Depois, ela introduziu no jogo uma sequência, um boca com boca. Só ela gostava dessa parte. Quando ela passou a abreviar cada vez mais a fase inicial, a apertá-lo contra o corpo, a colar os lábios nos dele e a mordiscá-los, ele ameaçou não brincar mais. Ficaram alguns dias sem aquilo, zangados um com o outro, até que chegaram a um acordo: seriam cinco minutos de nariz com nariz e cinco de boca com boca. Ele sempre achava que ela dava um jeito de trapacear, mexendo disfarçadamente no relógio e antecipando a segunda etapa. Só aos dez anos - quando a mãe havia despedido a empregada, por furto - ele teve a noção de como lhe fazia falta aquele jogo. Desde esse tempo, quando ele vê um nariz parecido com o da empregada, imagina-se entregue ao antigo jogo, agora com o mesmo prazer nas duas fases, e tendo sua mão dirigida para o meio das quentes coxas dela, como uma vez - só uma vez, porque ele protestou e saiu correndo para o banheiro, para tirar dos dedos o cheiro de mormaço - ela havia feito.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Um trecho de Margaret Atwood
"Mas quanto amor eles inspiram, esses órfãos! Bebezinhos órfãos abandonados em sacolas de compras, na soleira das portas, no frio. Bebezinhos órfãos abandonados dentro de cestas, debaixo de folhas de repolho, por pássaros, por cupidos, por duendes. As pessoas fazem fila por eles, mortas de pena, com dinheiro em seus bolsos, lenços úmidos nas mãos, salvação em suas mentes, cobertores em suas mochilas, de braços abertos, esperando para abraçá-los. De onde você veio, bebezinho querido? Da escuridão, do medo.
(De A tenda, tradução de Léa Viveiros de Castro, publicado pela Rocco.)
(De A tenda, tradução de Léa Viveiros de Castro, publicado pela Rocco.)
Kama Sutra - CXXII
Às vezes, julga-se um depravado. Como agora. Na lanchonete, a mulher na mesinha à sua frente toma sorvete. Enfia a pequena colher na taça, ora na bola de chocolate, ora na bola de morango, leva-a delicadamente à boca e, olhando sonhadoramente para o alto, para melhor sentir o gosto mexe deliciada os lábios. Se neles fica um restinho de sorvete, ela o recolhe vagarosamente com a língua. Sentado à frente dela, ele não perde um movimento de sua mão, de sua boca, de sua garganta engolindo. Será depravação imaginar, como ele faz agora, que é dele a língua que vai recuperar um pouco de chocolate no lábio superior?
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