segunda-feira, 7 de abril de 2014

"Lady Lazarus", de Sylvia Plath

"Tentei outra vez.
A cada dez anos
Eu tramo tudo -

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha como um abajur nazista,
Meu pé direito

Um peso de papel,
Face sem feições, fino
Linho judeu.

Livre-me dos panos
Oh, meu inimigo,
Eu te aterrorizo? -

O nariz, as covas dos olhos, os dentes postiços?
O hálito azedo
Some num só dia.

Logo logo a carne,
Que a caverna carcomeu, vai voltar
Pra casa, em mim.

Sou uma mulher que sorri.
Não passei dos trinta.
E como um gato tenho nove vidas.

Esta é a Terceira.
Que besteira
Se aniquilar a cada década.

Milhões de filamentos!
A plateia comendo amendoins
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e meus pés -
O grande strip-tease.
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos,
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

Mas sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez tinha dez anos.
Foi acidente.

Na segunda tentei
Acabar com tudo e nunca mais voltar.
E rolei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram de chamar e chamar
E arrancar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Faço isso parecer infernal.
Faço isso parecer real.
Digamos que eu tenha vocação.

É fácil demais fazer isso na prisão.
É fácil demais fazer isso e ficar num canto.
É teatral

Voltar em pleno dia
Ao mesmo local, à mesma cara, ao mesmo grito
Brutal e aflito:

"Milagre!",
Que me deixa mal.
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração -
Ele bate forte.

E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue

Ou um trapo ou uma mecha de cabelo.
E então, Herr Doktor.
E então, Herr Inimigo.

Sou sua opus,
Seu tesouro,
Seu bebê de ouro puro

Que se derrete num grito.
Ardo e me viro.
Não pense que subestimei sua imensa consideração.

Cinzas, cinzas -
Você remexe e atiça.
Carne, ossos, não há nada ali -

Barra de sabão,
Anel de noivado,
Prótese de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer,
Cuidado
Cuidado.

Renascida das cinzas
Subo com meus cabelos ruivos
E como homens como ar."

(Do livro Poemas, tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, publicado pela Iluminuras.)




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