segunda-feira, 3 de março de 2014
Boa noite
Lembra-se de quando dizia bom dia, boa tarde, boa noite. Foi há muito tempo. Tornou-se um misantropo e, se hoje fosse dizer bom dia, boa tarde e boa noite, seria para os móveis e para as paredes. Às vezes até pensa em dizer. Não sabe como soariam. Talvez precisasse repetir. Desconfia que as paredes e os móveis estejam com os ouvidos tão moucos quanto os dele. Isso seria um bom material para Kafka. Para ele, de nada serviria. Para ele, nada serviu. Mesmo assim, diz boa noite e imagina que alguém possa ouvi-lo - uma dessas ligações espirituais nas quais chegou a acreditar. Diz boa noite e espera que, como na literatura, venha a resposta. A vida não é literatura.
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