terça-feira, 8 de outubro de 2013
Eu também
Eu também olhei para o alto. Eu também julguei que era ali meu lugar. Eu também construí uma escada que me pareceu suficiente. Estendida horizontalmente no asfalto, ela ocupava dez quarteirões do meu bairro. Não foi fácil aumentá-la, madrugada após madrugada, escapando dos olhos dos guardas-noturnos. Na noite em que, finalmente pronta, eu a encostei no muro, vi que ela se confundia com a lua e até cobria uma parte dela. Fui subindo. Quando cheguei ao último degrau, olhei para cima e vi que a lua, astutamente, havia subido também, pondo-se fora do meu alcance. Só então me ocorreu pensar no que a escada estaria encostada para manter-se firme. Pus a mão em algo. Era o meu muro. Não tinha crescido, ao contrário do que a princípio pensei. Os dois mil e trezentos degraus que eu havia contado reduziam-se a doze ou quinze, e tudo pareceria um sonho ou alucinação, se ao descer cada um dos doze ou quinze degraus meus pés não escorregassem em algo que se movia e enchia a noite de um penetrante odor de bosta de cachorro. Isto deve ser uma metáfora, talvez, quem sabe da vida.
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