sábado, 13 de abril de 2013
Não optei...
... pela poesia. Ela, velha rameira, logo viu, no menino que eu fui, que ser tolo era a minha vocação e que eu me manteria sempre fiel ao meu destino. Ela injetou em minhas veias a tristeza e me viciou de tal forma que vi nesse vício minha ventura. Ela me ensinou a reverenciar o amor e me introduziu nas doces práticas da melancolia. Ela me iniciou na autoflagelação e nos insuperáveis prazeres que a vida reserva aos humilhados, aos ofendidos e aos desgraçados. Ela me preparou para a submissão e para a derrota. Tudo que sou devo a ela: meu rosto pálido, minha subserviência, meu jeito de passar o guardanapo na boca depois de cada mordida no sanduíche. Nasci para ser isso, e para ser isso me aperfeiçoei. Aos outros, as batatas e os leitões, os vinhos e as camas redondas dos motéis, as luxúrias e as concupiscências. Eu fui feito para ficar durante anos diante de uma janela, esperando inutilmente por uma mulher que nunca será vista pelos meus olhos, porque sai sempre por uma porta que só ela conhece - ela e aqueles que, merecendo-a naturalmente mais do que eu, saem também por ali, depois de noites que jamais gozarei.
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