quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A rosa eterna

Sob extremo sigilo, mandaram enterrar o Amor numa cova de indigente, às três horas da madrugada. Terminado o sepultamento, os dois coveiros foram repentinamente cegados por uma luz que pensaram ser a da lua, mas era a de um sol extemporâneo e vingativo, que os fez correr, alucinados. Quando cada um deles chegou à sua casa, pareciam lobisomens, e foi preciso chamar a polícia, porque ameaçavam devorar mulher e filhos. Ali onde os dois alegavam ter visto o sol, nada se encontrou. No dia seguinte, lá nascera uma rosa estranhíssima, de espécie desconhecida, que só se mostrava ao sol. À noite, ficava só sua marca na terra. Assim foi por três meses, nos quais o cemitério foi alvo de romarias. As pessoas ficavam atentas ao último raio de sol, esperando captar o momento em que a rosa, sem falhar uma só vez, se amalgamava à noite, diante de milhares de olhos incrédulos.  Um jornal expôs a teoria de que aquilo não passava de um truque, não mais do que isso, tão reles que não merecia maiores indagações, e pediu que se respeitasse o descanso dos mortos, Um reforço de policiamento começou a proibir concentrações ali. Aos poucos, todos foram se esquecendo  da rosa e ela, sentindo-se desobrigada de indicar onde o Amor estava, desapareceu uma noite e nunca mais foi vista. A história está num livro muito antigo, sobre o qual pesa a suspeita de ser falso da primeira à última página. Pesquisadores localizaram recentemente indícios de uma época em que havia rosas e um sentimento que pode ter sido esse Amor citado no alfarrábio. Mas os estudos não foram adiante, por falta de verbas e de interesse.

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